Sou do tempo de ir aos grilos. De joelhos no meio do campo, a cantar aquela cantiga meio séria, meio malandra, para o fazer sair da toca: “Gri-gri sai cá fora que o teu pai está aqui com uma faca de agrião para te espetar no coração…”
Encontrada a toca, arrancávamos uma palhinha fina e seca, daquelas com pelos na ponta, e fazíamos um leve movimento de vai-e-vem pelo buraco adentro. O grilo havia de sair. Às vezes fazíamos batota — uma garrafa de água ajudava, e no limite até uma boa “urinadela” resolvia o assunto. A sachola era só para casos extremos.
Se saísse uma fêmea, deixávamo-la. Se fosse um grilo-capa-de-rei, lá vinha ele connosco para casa, numa pequena gaiola improvisada. Colhíamos a serradela no campo, juntávamos alface da horta e, se cantasse muito… ficava connosco durante o verão. Se não cantasse nos primeiros dias, era devolvido ao campo, junto da sua toca.
Hoje percebo que aquilo era muito mais do que uma brincadeira. Era educação ambiental — mesmo antes de sabermos que essa expressão existia.
Em casa, ao som do cantar do grilo, aprendíamos muto mais sobre a sua importância. Que servia de alimento a ouriços-cacheiros, aves insetívoras, cobras, sardões e até alguns anfíbios. Que as suas tocas e galerias ajudavam a arejar o solo, permitindo que o ar e a água chegassem às raízes das plantas.
Aprendíamos o que era equilíbrio ecológico mesmo antes de sabermos dizer “ecossistema”.
Na minha aldeia sempre se disse que o grilo é sinal de sorte. Quando canta dentro de casa, dizem os mais velhos, é porque vêm boas notícias, prosperidade ou renovação. O grilo não é só um inseto — é um símbolo, um património vivo.
O mais comum por aqui é o grilo-do-campo (Gryllus campestris), ativo entre fevereiro e julho, com maior intensidade de canto nos serões quentes de maio e junho. Mas entre os grilos também encontramos o “tenebroso” grilo-de-sela, mais ligado aos bosques, e o inusitado grilo-toupeira, ou ralo, que prefere as hortas.
Hoje já não se encontram com a mesma facilidade. Talvez porque os campos mudaram. Talvez porque nós mudámos os campos e a natureza à nossa volta.
Mas continuo a acreditar que o património natural não vive apenas nas grandes árvores ou nas paisagens protegidas. Vive também nestes pequenos seres que marcaram a nossa infância, moldaram as nossas memórias e ensinaram, de forma simples, a respeitar a natureza.
É aqui que a educação ambiental formal tem tanto a aprender com a sabedoria popular. A escola pode explicar o ciclo de vida, a função ecológica e a importância da biodiversidade. Mas a comunidade ensina o afeto, a memória, o significado.
E quando conseguimos juntar ciência e memória, natureza e cultura, estamos verdadeiramente a proteger património.
O grilo é pequeno.
Mas a história que carrega é grande.
Talvez esteja na hora de voltarmos a escutar.
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