Há frases que nos atravessam sem pedir licença. Não sabemos bem porquê, mas ficam connosco, inquietam-nos e “abrem portas” para mundos que ainda não conhecemos. Foi assim que cheguei a Anne Carson, escritora canadiana cuja obra ainda mal conheço, mas que começou por me despertar a curiosidade e acabou por me deixar uma pergunta: Que poder tem a poesia para nos “desarrumar” por dentro?
Li algumas entrevistas e foi sobretudo através delas que comecei a aproximar-me do seu universo. Confesso que encontrei nela uma certa extravagância, uma liberdade desconcertante, à margem das convenções e das expectativas. Algumas das suas respostas provocaram o riso da entrevistadora, como se, por instantes, a conversa tivesse abandonado o território previsível das perguntas e respostas. Há nela qualquer coisa de insólito que me intriga.
Mas é a sua relação com a literatura grega clássica que mais me fascina. Anne Carson encontra nos antigos gregos e latinos uma matéria viva, capaz de interrogar o presente. Dialoga com Safo e Homero, aproximando-os das inquietações contemporâneas e mostrando-nos que os clássicos não são peças de museu. Continuam a falar-nos porque as grandes questões humanas sobrevivem ao tempo.
Foi numa das minhas pesquisas no Google que encontrei uma frase sua, proferida numa entrevista ao jornal The Guardian, um conceituado jornal diário britânico, em 2016: “If prose is a house, poetry is a man on fire running quite fast through it” e que foi também escolhida pelo poeta e ilustrador espanhol Jesús Jiménez Domínguez para acompanhar um retrato da escritora. Nela, constrói-se uma imagem poderosa da diferença entre prosa e poesia. Se a prosa é uma casa, estável e acolhedora, a poesia é uma força impetuosa, veloz e indomável, capaz de a atravessar em chamas: “Se a prosa é uma casa, a poesia é um homem em chamas que a atravessa a grande velocidade”. Mais tarde, vim a saber que Carson e Jiménez Domínguez partilham o mesmo espaço criativo: a fronteira híbrida onde a prosa e a poesia se fundem.
A imagem ficou comigo! A poesia surge então como uma travessia que perturba, ilumina e transforma aquilo por onde passa. Talvez seja essa a sua força: atravessar as palavras, deslocá-las e obrigá-las a dizer o que ainda não sabíamos que podiam dizer.
Esta capacidade de renovar o nosso olhar encontro-a também em duas escritoras cuja obra merece, a meu ver, uma atenção continuada: a brasileira Adélia Prado e a portuguesa Lídia Jorge. Na primeira, o extraordinário revela-se no quotidiano, na fé, no corpo e na morte. Na segunda, a escrita interroga a memória, a História e as contradições humanas. Ambas nos lembram que a literatura não serve apenas para contar: serve também para pensar.
Adélia Prado recebeu o Prémio Camões em 2024; Lídia Jorge foi distinguida com o mesmo galardão em 2026. São reconhecimentos importantes, mas que não esgotam o valor de uma obra. Quantas escritoras de reconhecida qualidade permanecem, afinal, aquém do reconhecimento internacional que mereceriam?
Não pretendo transformar a literatura numa competição de talentos. Os prémios dão visibilidade e ajudam a fazer circular livros, mas nenhum galardão substitui o encontro pessoal entre um leitor e uma obra. Talvez uma das suas maiores virtudes seja precisamente despertar a vontade de descobrir quem ainda não conhecíamos.
No meu caso, Anne Carson chegou através de algumas entrevistas um pouco desconcertantes, de uma personalidade que me intriga e de uma frase que me ficou a arder na memória. Ainda tenho muito para ler e compreender. E é justamente aí que reside o prazer da descoberta, pois a literatura começa muitas vezes não com uma certeza, mas com uma pergunta.
Talvez a poesia seja mesmo essa figura em chamas que atravessa a casa, perturba a ordem e nos deixa a olhar de outra maneira para aquilo que julgávamos conhecer. Porque há palavras que não se limitam a passar por nós. Elas deixam marcas. E a nossa casa interior nunca volta a ser exatamente a mesma.
Legenda da imagem: Anne Carson. Portrait, ilustração de Jesús Jiménez Domínguez, poeta e ilustrador espanhol, nascido em Saragoça, em 1970, inspirada numa frase da escritora canadiana: “Se a prosa é uma casa, a poesia é um homem em chamas que a atravessa a grande velocidade.”
Graça Coelho
Professora Bibliotecária e Coordenadora da Biblioteca do Agrupamento de Escolas de Lousada












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