por | 13 Out, 2026 | Freguesias, Opinião

Meinedo – do passado que nos honra ao futuro que podemos construir

Há terras que vivem de memória. E há terras que sabem transformar a memória em futuro. Meinedo pode – e deve – pertencer à segunda categoria.

Porque Meinedo não é apenas uma freguesia de Lousada. É um território onde a história, a natureza, a mobilidade, a economia e a identidade religiosa se encontram de uma forma pouco comum.

O problema não está na falta de potencial.

O verdadeiro desafio político está em saber juntar as peças.

E Meinedo tem muitas.

Comecemos pelo Rio Sousa.

Durante demasiado tempo, os rios foram vistos como limites. Hoje, um rio pode ser uma infraestrutura ambiental, turística, económica e de qualidade de vida. O Sousa atravessa Meinedo e oferece condições para construir uma verdadeira frente ribeirinha, articulando natureza, lazer, desporto, percursos pedonais e clicáveis, restauração, pequenos negócios e turismo de natureza.

Não se trata de transformar o rio num parque temático. Trata-se de devolver o rio às pessoas.

O Parque de Lazer junto ao Sousa já demonstra que existe procura e que há uma base sobre a qual trabalhar. A oportunidade seguinte seria pensar o vale do Sousa como um corredor verde, ligando espaços naturais, património, aldeias, equipamentos e atividades económicas. A própria Ponte de Espindo recorda como, historicamente, as travessias do Sousa foram fundamentais para estruturar os caminhos da região.

Mas um território só se desenvolve quando consegue ligar pessoas.

E aqui surge uma das maiores oportunidades de Meinedo: o comboio.

O apeadeiro de Meinedo não é uma peça esquecida do passado. É uma porta para o futuro. A Linha do Douro permite atualmente ligar Meinedo ao Porto e ao interior do Douro, e a própria Infraestruturas de Portugal confirma a existência de serviço ferroviário e de estacionamento, táxis e acessibilidades no apeadeiro.

Mais interessante ainda: a história mostra-nos que a população de Meinedo já percebeu há mais de um século a importância estratégica da ferrovia. Em 1883 e 1884, a comunidade local insistiu junto do poder central para conseguir uma paragem ferroviária próxima de igreja. Ou seja, a ferrovia em Meinedo nasceu de uma reivindicação local e de uma visão de futuro.

A pergunta politica que hoje devemos fazer é simples: estamos a utilizar o apeadeiro de Meinedo à altura do seu potencial?

Provavelmente não.

É preciso pensar o apeadeiro não apenas como um lugar onde se entra e sai de um comboio, mas como uma verdadeira porta de entrada em Meinedo.

Um apeadeiro qualificado deveria estar ligado ao centro da freguesia, ao Rio Sousa, à igreja de Santa Maria, à Rota do Românico, aos percursos pedonais e clicáveis e à oferta turística. Deveria ter estacionamento organizado, ligação a bicicletas, informação turística, sinalética e uma pequena rede de transporte de proximidade.

Imagine-se um visitante que chega do Porto de comboio, atravessa uma praça qualificada, encontra sinalização para a Igreja de Santa Maria, percorre um caminho pedonal até ao Sousa, visita a Ponte de Espindo, conhece a gastronomia e termina o dia num alojamento local ou numa quinta.

Isto não é uma fantasia. É uma estratégia territorial.

E Meinedo tem outra vantagem: as estradas.

A proximidade à A4, A11, A42 e à rede que liga o Vale do Sousa à Área Metropolitana do Porto confere ao território uma centralidade que deve ser aproveitada. A própria documentação municipal identifica a importância das ligações rodoviárias e ferroviárias para a conexão de Lousada ao Porto e à região.

Mas ter acessos não chega.

É preciso transformar acessibilidades em atividade económica.

Meinedo pode afirmar-se como território de localização para pequenas e médias empresas, serviços especializados, atividades ligadas à economia verde, logística de pequena escala, turismo, restauração e economia criativa – sempre com respeito pelo território e sem cair na tentação de industrializar indiscriminadamente aquilo que constitui precisamente a sua vantagem competitiva.

E há uma peça que pode fazer a diferença: a formação.

Lousada está a reforçar a oferta de formação profissional, com a academia de formação e novas ligações ao CENFIM, nomeadamente nas áreas da automação, robótica e manutenção industrial, numa lógica de aproximação entre formação e empesas.

Esta realidade deve ser encarada numa lógica regional.

Formação, ferrovia, autoestradas e tecido empresarial não podem funcionar como ilhas.

A ambição deveria ser criar em Meinedo e no território envolvente uma espécie de triângulo estratégico: formar, produzir e ligar.

Formar pessoas. Criar empresas.

Ligar pessoas e empresas ao Porto, ao Tâmega e Sousa e ao resto do país.

Mas há uma dimensão que torna Meinedo verdadeiramente singular.

A sua dimensão religiosa e histórica.

A Diocese do Porto reconhece que Meinedo poderá ter sido, com grande probabilidade, a primeira sede episcopal da Diocese do Porto.

A referência ao bispo Viator de Meinedo remonta ao século VI. Estamos, portanto, perante uma história que não é apenas local: é parte da própria génese da organização cristã do território portucalense.

Esta realidade deveria ter muito maior projeção.

A Igreja de Santa Maria Maior de Meinedo, de origem medieval e integrada na Rota do Românico, encontra-se praticamente à porta do apeadeiro ferroviário – a apenas cerca de 100 metros, segundo a própria Rota do Românico.

Que outra freguesia pode dizer que tem uma estação ferroviária ligada praticamente por uma caminhada à sua igreja românica e, simultaneamente, uma ligação tão antiga à história da Diocese do Porto?

Aqui existe uma oportunidade extraordinária para desenvolver turismo religioso e cultural.

Não um turismo religioso fechado sobre si próprio, mas um turismo que combine fé, património, história, natureza e gastronomia.

Meinedo poderia ser promovido como uma das portas históricas da Diocese do Porto.

Poderia existir um percurso “ Das origens da Diocese ao Rio Sousa “, ligando a Igreja de Santa Maria, a memória do antigo Bispado de Meinedo, a Ponte de Espindo, o rio, o património românico e outros pontos de interesse do Vale do Sousa.

Poderia ser criado um pequeno centro interpretativo ou núcleo museológico sobre a história cristã de Meinedo e a sua relação com a formação da Diocese do Porto.

Poderiam ser desenvolvidos programas para grupos religiosos, escolas, peregrinos, turistas culturais e visitantes estrangeiros.

E tudo isto deveria estar ligado à ferrovia.

Porque a grande vantagem competitiva de Meinedo pode ser precisamente esta: chegar de comboio, conhecer a história, caminhar pela natureza, consumir localmente e regressar de comboio.

É turismo sustentável. É economia local. É valorização patrimonial. É mobilidade. É identidade.

E há sinais de que a dimensão religiosa de Meinedo continua viva. Em Junho de 2026, a freguesia recebeu o Núncio Apostólico em Portugal e o Bispo do Porto, numa visita que passou pela igreja Românica e pela nova igreja paroquial. É um facto que demonstra que a relevância eclesial de Meinedo não pertence apenas aos livros de história.

O futuro pode, por isso, ser pensado em três palavras: rio, comboio e fé.

O rio dá qualidade ambiental e capacidade turística.

O comboio dá mobilidade e ligação económica.

A história religiosa dá identidade e diferenciação.

À volta destes três pilares pode nascer uma nova estratégia para Meinedo.

Uma estratégia que não procura simplesmente trazer mais pessoas, mas que procura fazer com que quem chega fique mais tempo, consuma localmente, conheça o território e volte.

A política local precisa, por vezes, de deixar de pensar apenas em obras isoladas.

Uma estação não é apenas uma estação.

Um rio não é apenas um rio.

Uma igreja não é apenas uma igreja.

Uma autoestrada não é apenas uma estrada.

Um centro de formação não é apenas uma escola.

São peças de uma mesma estratégia. O desafio para Meinedo é conseguir juntá-las.

Se o fizermos, poderemos passar de uma freguesia atravessada pelo Rio Sousa para uma freguesia que vive com o Sousa.

De uma freguesia servida pela Linha do Douro para uma freguesia que usa a ferrovia como instrumento de desenvolvimento.

De um território com património religioso para um destino de turismo cultural e espiritual.

E de uma terra com uma história episcopal extraordinária para uma comunidade que assume essa história como parte do seu futuro.

Meinedo já teve importância. Meinedo tem importância.

A questão política é saber se teremos visão e coragem para fazer com que Meinedo volte a ter uma importância proporcional àquilo que é e àquilo que pode vir a ser.

Porque o passado explica quem somos. Mas é o futuro que exige decisões.

E o futuro de Meinedo pode começar precisamente onde a sua história sempre esteve: junto ao Sousa, junto à igreja e junto ao caminho de ferro.

Nuno Ferreira – TSD Lousada

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