por | 19 Out, 2025 | Espaço Cidadania

“Tocar na alma é uma função do grupo coral”

O docente de Boim, que leciona em Nevogilde, tem uma atividade secundária muito importante na sua vida: dedica-se ao ensaio de grupos corais. Chama-se José Manuel Gomes Garcês e dirige os cânticos na igreja do Sameiro, em Penafiel, a sua terra natal. Nesta entrevista sobre uma verdadeira atividade de cidadania — neste caso religiosa e cultural — o docente explica as várias vertentes de um grupo coral e quais os seus propósitos.

A sua participação em grupos corais começou em Penafiel, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, quando tinha apenas 9 anos. “Desde muito novo demonstrei um forte interesse pela música litúrgica, o que se intensificou a partir dos 10 anos, com a minha entrada para o Seminário. Foi nesse contexto que iniciei a aprendizagem de órgão e, desde cedo, assumi responsabilidades musicais nas celebrações religiosas”, relata o professor.

Teve a oportunidade de dirigir vários coros em Penafiel, onde foi fundador do Grupo Coral da Juventude “A Caminho”, na Igreja do Calvário, com os Padres Franciscanos, “em especial o Padre Abel Sobrinho”. Assumiu também a direção do coro da Igreja Matriz de Penafiel.

Atualmente, José Manuel, além de maestro, é também organista do Coro do Santuário de Nossa Senhora da Piedade e Santos Passos (Sameiro), em Penafiel. “É uma missão que abraço com grande sentido de responsabilidade e dedicação, procurando, através da música, elevar a qualidade das celebrações litúrgicas e fomentar um espírito de união e espiritualidade no seio do grupo coral e da comunidade que servimos”, explica.

Sublinha a importância do grupo coral, sobretudo por ser “uma ponte entre o sagrado e o coração dos fiéis. A música, quando bem orientada e enraizada na liturgia, tem o poder de tocar profundamente a alma”.

Este sentimento é muitas vezes referido por participantes na missa do Sameiro, sobretudo ao domingo. Há pessoas de várias localidades e concelhos que vão à missa dominical no Sameiro também por causa do grupo coral. Segundo José Manuel, isso deve-se, “em parte, à forma como a celebração é vivida, onde a música tem um papel profundamente envolvente. Saber que o grupo coral contribui para essa escolha enche-me de gratidão, mas também de um profundo sentido de responsabilidade”.

O protagonismo que um grupo coral pode adquirir “não acontece por vaidade — longe disso. Trata-se de serviço. Trata-se de perceber que, se o nosso canto ajuda alguém a rezar melhor, a reencontrar-se com Deus, ou simplesmente a permanecer ali mais tempo em silêncio e paz, então estamos a ser Igreja no sentido mais bonito da palavra: comunidade que acolhe, que comove, que transforma”.

Atuações noutros eventos

Além das celebrações litúrgicas, o grupo coral atua noutros locais e eventos. “Embora a nossa missão principal seja servir a liturgia com reverência e beleza, o grupo coral também é chamado a sair das paredes da igreja e a levar a música sacra a outros contextos, sempre com o mesmo espírito de serviço, fé e dignidade.”

Nesse sentido, ao longo dos anos, participaram em “numerosos eventos de cariz religioso e cultural que nos marcaram profundamente. Estivemos presentes em encontros de coros, procissões solenes, vigílias de oração e celebrações especiais — como a Dedicação do Santuário, a festa diocesana da família, celebrações jubilares, entre outros momentos carregados de simbolismo e emoção”, revela o ensaiador.

São experiências importantes para o grupo, pois “para além de enriquecerem musicalmente o grupo, unem-nos ainda mais enquanto comunidade. São momentos que deixam marcas — não só em nós, mas também em quem nos ouve. Porque quando se canta com alma, aquilo que se canta permanece. E quando é Deus o centro, tudo ganha outro sentido”.

O repertório que interpretam é composto por uma ampla variedade de temas. “Isso é um reflexo da riqueza e da profundidade da liturgia, selecionado para servir não só a beleza da música, mas sobretudo o mistério que celebramos em cada momento. A música que interpretamos não é mero entretenimento — é oração que ganha voz, é o cântico da alma em diálogo com o divino.”

Privilegiam cânticos litúrgicos em português, “que tocam diretamente o coração da assembleia, facilitando a participação e o entendimento. Mas também recorremos a obras em latim, especialmente nas ocasiões mais solenes e profundas, onde a ancestralidade da fé se faz sentir de forma mais pungente. Peças como o Panis Angelicus ou o Laudate são exemplos da elevação espiritual que procuramos transmitir, onde a música se torna ponte entre o humano e o celestial.”

O compromisso de um grupo coral é, segundo José Manuel, “que cada peça cantada esteja imbuída de sobriedade e reverência, mas também de beleza e emoção verdadeira. Mais do que a técnica ou a complexidade, valorizamos a expressividade — a capacidade de cada voz, de cada nota, de cada silêncio, de tocar a alma e conduzir a assembleia à oração profunda”.

Muitas vezes visto apenas como um grupo de cantores, um grupo coral é, na verdade, muito mais do que isso — como se depreende desta entrevista ao docente José Manuel Garcês.

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