por | 22 Jun, 2026 | Ambiente, Património Cultural

“Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a gente vê, as nascentes obrigam-nos a procurar. E aquilo que se procura acaba sempre por ter mais valor.”

Há lugares onde a terra parece falar. Mas existem outros, mais raros e misteriosos, onde a terra parece chorar. Chamamos-lhes nascentes. Talvez porque, desde tempos imemoriais, o Homem sempre tenha olhado para o momento em que a água brota da pedra como algo quase sagrado. Afinal, que milagre maior poderá existir do que ver a vida nascer do interior da terra?

As nascentes nunca foram apenas água. Foram lugares de vida e sobrevivência, de trabalho, de fé, de encontro e de memória. Através delas nasceram aldeias, construíram-se caminhos, ergueram-se capelas, rezaram-se promessas e contaram-se histórias, muitas histórias.

Sousela, protegida pela Serra de Santa Águeda e pela Serra de Campelos, é uma terra de água. Pequenos veios lacrimejam pelas encostas e alimentam o rio Mezio, esse rio único que nasce no nosso concelho e que serpenteia pelos vales e campos como se fosse a própria alma da paisagem. Diziam os antigos que “da Serra de Campelos chora o rio Mezio”. E talvez não exista expressão mais bonita para explicar aquilo que uma nascente realmente representa: uma lágrima da natureza.

Não é por acaso que os nossos antepassados escolheram estes lugares para viver. A abundância de água significava vida. Significava agricultura e subsistência, ciência e alimentação, engenho e higiene, matemática e economia, filosofia e socialização, cultura e tradição, respeito e ordem. Mas também a fé encontrou abrigo junto das nascentes.

Entre as encostas da Serra de Santa Águeda erguem-se as capelas de São Cristóvão e Santa Águeda. Debaixo desta última corre uma fonte antiga, conhecida pelas Três Carrancas ou Fonte das Três Bicas, e que tem lendas associadas. As Memórias Paroquiais de 1758 já referiam que “debaixo da capela sai uma grande fonte sagrada que sangra por três bicas”. Aquelas três expressivas carrancas parecem guardar um lugar onde a natureza e a espiritualidade se confundem. As fontes, as minas e as nascentes sempre foram lugares de fantasia, nuns casos habitados por espíritos, noutros por mouras encantadas e até forças invisíveis.

Talvez por isso sobrevivam ainda estórias populares e lendas como a da Moura do Bujão , como outras que se contam nesta freguesia. Gosto em especial daquela que me faz acreditar como o Rio Mesio nasceu – A lenda da Pedra da Obstinada Paixão. Ora, conta a tradição que dois jovens apaixonados, impedidos de viver juntos, se encontravam em segredo. A jovem tinha sido prometida a outro, mas era o humilde rapaz quem ela realmente amava. Apanhados em flagrante, o jovem rapaz foi apunhalado até à morte deixando a amada mergulhada em lágrimas. Essas lágrimas, daquele amor impossível, choram até aos dias de hoje pelo Mesio a baixo.

Lembro-me que em 2013, durante os trabalhos de investigação, no projeto DPPL – Dinamização e Promoção do Património Local de Sousela, surgiu a oportunidade de procurar a nascente do rio Mezio. Como se trata de um local ermo e difícil, o caminho até lá foi tudo menos fácil. Lembro-me de ter sido picado por urtigas, arranhado pelos picos das silvas, de enfrentar desafios ao ultrapassar pedras, de lutar com vegetação cerrada e até enfrentar algumas cobras pelo caminho. Mas cheguei lá!

E qual foi o meu espanto? Depois de tanta procura, a nascente do Mezio não era, afinal, uma cascata, nem um lago encantado. Era uma rocha tosca, quase plana, de onde brotava silenciosamente um pequeno fio de água. E talvez tenha sido precisamente aí, naquele momento, que voltei a pensar naquela lenda da Pedra da Obstinada Paixão.

Também as fontes públicas eram muito mais do que locais para matar a sede. Eram autênticas redes sociais antes do Facebook e do Instagram. Ali enchiam-se os cântaros, lavava-se roupa, trocavam-se notícias, faziam-se amizades e até surgiam namoros.

Uma delas, ainda resiste na Rua da Quintã, em Moreira. Junto a um passadiço e inserida no muro, encontra-se a Fonte da Quintã. A água surge diretamente da mina, que ainda lá está, e saía por uma bica, através de um sistema de bombear, manobrado à mão, para fazer a água subir e sair pelo orifício. Gravado em baixo relevo, tem o ano de 1966, tal como todas as outras fontes deste género, na freguesia. Nas costas desta fonte existe um pequeno nicho que passa despercebido a quem ali passa e que, segundo os mais antigos, guardava uma imagem de um santo que protegia a água e a mantinha limpa para matar a sede.

Mas as minhas primeiras memórias ligadas às fontes de nascente, levam-me até à Rua do Carvalho, em Moreira, local onde vivi e cresci. No fundo da rua ainda lá está a Fonte da Tigela. Em criança ia lá buscar água num caneco de vidro. Lembro-me da minha mãe cantar a velha canção das “Pombinhas da Catrina… que ia à fonte com uma cantarinha…” enquanto arrumava a casa. E eu, acreditava quase com medo, que um dia acabaria por partir também, o jarro da água, tal como dizia a letra da canção!

A água era escassa. Corria apenas um fio. Mas era fresca. E muito saborosa. Com duas rodelas de limão e duas colheres de açúcar louro fazíamos um refresco que ficou cravado na minha memória. Hoje, passados tantos anos, a Fonte da Tigela está abandonada. Onde antes existia água, vizinhança e conversa, resta agora um cerrado de vegetação, ruínas e lembranças de outros tempos.

Ao longo dos séculos, as nascentes sustentaram a humanidade, conduziram os animais às fontes, lavou roupa nos lavadouros, permitiu brincar nos regos, provisionou as minas e alimentou os campos. Hoje, muitas destas nascentes permanecem escondidas entre silvas e esquecidas pelo tempo. Mas continuam lá. Continuam a correr para nós, em silêncio, tal como as memórias.

Porque uma nascente não é apenas o lugar onde nasce a água. É o lugar onde nascem histórias e nascem paisagens. É o lugar onde nasce a vida.

Por isso quando refletimos sobre a água, talvez valha a pena refletir mais sobre as NASCENTES. Porque sobre as nascentes, muito fica por dizer.

Por vezes, um pequeno fio de água é suficiente para alimentar um rio inteiro.

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ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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