Sobejamente conhecimento em Lousada, pela ação profissional e política, é atualmente presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada. Falamos de Antero Correia, contabilista, um caminho profissional que delineou, depois de algumas dificuldades vencidas com sucesso.
É natural da freguesia de Nogueira, onde frequentou pela primeira vez a escola, embora por um curto período de tempo, apenas três meses. A aquisição e fixação de residência na Quinta do Passadiço em Alvarenga, freguesia de onde o pai, José Ribeiro Correia, era natural, levou-o a mudar para a escola de Santa Margarida.
A escola na altura era muito diferente, já se sabe: rapazes para um lado, raparigas para o outro. Os métodos pedagógicos assentavam no rigor e na memorização, como lembra este lousadense: “Sabíamos os rios todos de Portugal, os caminhos de ferro, sabíamos escrever português… As reguadas e a disciplina eram imagens do antigo regime”.
Terminada a escola primária, frequentou o Seminário do Bom Pastor em Ermesinde, onde completou o quinto ano (nono ano atual). A ida para Ermesinde foi uma mudança muito sentida: “Saí de um meio muito rural e muito pouco desenvolvido, onde nem iluminação havia, pois vivíamos sem eletricidade, e fui para uma casa com as condições todas, com eletricidade, águas canalizadas, equipamentos desportivos…”, diz.
Com o colégio Eça de Queirós cheio, em Lousada, o pai optou pela escola mais próxima, que era em Ermesinde, para que Antero, ainda miúdo, não ficasse sozinho em casa. “Os transportes eram exíguos. Íamos de autocarro até ao alto da Maia e depois até a Santa Rita a pé”, recorda.
Apesar de ter entrado no seminário unicamente para completar os estudos, foi estimulado a seguir a vida sacerdotal, mas confessa que não tinha vocação. Foram cinco anos de rigor e disciplina, com horário de estudo obrigatório, para além das aulas. Tal não impediu as traquinices típicas da idade: “Recordo-me de o nosso grupo um dia comer as hóstias e beber o vinho. Havia oportunidade para estas partidas. Tínhamos um colega viciado em manteiga, a dita Planta, e esse colega pedia para quando, na missa, o padre perguntasse o que mais desejávamos, pedirmos Planta”, conta.

Havia também tempo para as atividades desportivas, em instalações “magníficas”. Adepto do atletismo e futebol, ganhou ainda mais paixão por estes desportos e experimentou também o rigor da ginástica, do “tipo militar”. “Foram bons anos”, avalia.
Com 16 anos, terminou o nono ano, prosseguindo a sua vida académica no liceu de Penafiel, onde completou o décimo ano, antes de estrear a Escola Secundária de Penafiel, onde concluiu o 11.º ano. Seguiu-se o ano propedêutico, com aulas pela televisão. Depois de ter chumbado nesse ano a matemática, conseguiu terminar os estudos com sucesso.
Presidente da Junta aos dezanove anos
Terminado o secundário, não perdeu tempo e agarrou um novo desafio, desta vez no âmbito político. Com apenas dezanove anos, foi eleito presidente da junta de Alvarenga, uma freguesia muito pequena, com poucos eleitores. “Na altura, houve um desentendimento entre o presidente da junta e a freguesia e ele não se quis candidatar. Não havia muita gente predisposta a sê-lo. Nessa altura, não havia campanhas. Entretanto, apareceu uma lista, que era antagónica ao presidente da junta. Ele tentou arranjar uma lista mais próxima dele”, recorda. Antero Correia foi o escolhido pelo anterior autarca para encabeçar a lista, constituída por dois jovens de dezanove anos e um tio de Antero, mais velho. “Nessa altura, não havia partido nessas eleições, pelo facto de a freguesia ser muito pequena, não havendo eleitores suficientes para isso, sendo as eleições em plenário”, explica. Embora não tenha sido candidato por um partido, assume-se um homem de esquerda.
O mandato como presidente da Junta de Alvarenga viria a ser interrompido incorporação no serviço militar. Ainda assim, conseguiu fazer obra, numa altura em havia poucos recursos. A sua prioridade foram as vias de comunicação, já que a rede viária era muito deficitária. “Naquela altura, a freguesia de Alvarenga não tinha estradas. A única era a estrada nacional que ainda hoje existe. Tínhamos apenas um caminho que ligava o lugar do passadiço a Macieira. Havia a necessidade de uma estrada que ligasse o passadiço à igreja”, diz. Esta obra foi a grande parte do seu trabalho, pois “na altura já era muito alargar um caminho, para fazer uma estrada”, explica, acrescentando que foi necessário transportar para o local muitos camiões de terra. “O caminho era um funil fundo, onde apenas passava um carro de bois quando não chovia. Foram momentos muitos difíceis, no tempo de Amílcar Neto, visto que a Câmara não tinha recursos”, afirma.
Considera a experiência política positiva, proporcionadora de bons momentos, embora reconheça que é difícil, quando não se consegue satisfazer as pretensões das pessoas.
Vida militar com balanço positivo
Entretanto, Antero Correia tinha concorrido ao curso de engenharia no Instituto Superior de Engenharia, tendo sido admitido, mas o percurso foi interrompido pela mesma razão: a tropa.
Assentou praça em Venda Novas, Alentejo, onde esteve quatro meses e meio, que incluíram o tempo de recruta e a especialidade, de artilheiro. Depois regressou ao Norte, a Vila Nova de Gaia, como 2.º Furriel. “Foi uma experiência positiva. Estes meses trouxeram-me um valor importante: o saber respeitar o outro. A nível de cidadania foi uma grande aprendizagem para mim”, salienta.
A entrada no mercado de trabalho deu-se numa altura difícil, de crise no mercado de trabalho. “O regresso dos retornados e a prioridade nacional de colmatar os seus problemas limitava o mercado de trabalho. Então, tive de optar por trabalhar e conciliar a vida laboral com os estudos na faculdade”, explica.

Começou a trabalhar como vigilante numa empresa de segurança, mas esta primeira experiência não correu bem: “Era um trabalho por turnos, dia e noite. Ou trabalhava ou desistia de estudar. Optei por deixar de estudar. Quase que entrei em esgotamento pela pressão”. Esta situação acabou também por se refletir no seu trabalho e, ao fim de meio ano, perdeu o emprego.
Resiliência ajudou-o a encontrar caminho profissional
Desempregado, regressou a Lousada, inscrevendo-se no Centro de Emprego em Penafiel, onde lhe propuseram a frequência de um curso profissional em Lisboa. Tratava-se de um curso de desenhador de máquinas, em Xabregas. Acedeu, embora o valor que recebia fosse inferior ao salário mínimo nacional, o que não permitia uma vida desafogada na capital. “Viver em Lisboa com meia dúzia de trocos era difícil. Foi com a ajuda dos meus pais que consegui”, diz.
Concluído o curso, voltou à situação de desemprego até 1986. “Em outubro desse ano, tive a minha experiência no calçado. No final do ano, mudei de emprego e fui trabalhar para Paços como desenhador de máquinas”, conta. Apesar de estar a trabalhar na sua área de formação, só lá permaneceu até ao final do ano. “A pessoa que me tinha metido no calçado voltou a contactar-me para a área de gestão da empresa e lá estive até 2000”, conta.
Durante esses doze anos na gestão, incrementou a sua formação em contabilidade e realizou o exame para Técnico de Contas, tornando-se contabilista. Daí ao trabalho por conta própria foi um passo. “Enquanto trabalhava no escritório, fui fazendo alguma contabilidade em casa. Foi um início difícil, mas que valeu a pena, fruto da resiliência da minha parte, em querer continuar a estudar para conseguir um melhor futuro profissional”, diz, em jeito de balanço. Falhado o percurso universitário, Antero Correia conseguiu encontrar outro caminho, a partir da experiência na fábrica de calçado, que fez nascer o gosto pela contabilidade.
A maior perda
Mas a vida deste lousadense não se ficava pelo trabalho. Num dos momentos de lazer, conheceu a esposa, entretanto falecida: Alzira Gonçalves. Antero tinha 31 anos. No dia 25 de abril, decidiu ir até Paços de Ferreira. Para entrar num bar, precisava de companhia. Começou por meter conversa e tomar um café com aquela que viria a ser sua esposa. “Tivemos uma relação forte, fantástica. Tenho muitas saudades”, confessa.
Desta relação teve dois filhos (rapariga e rapaz), vendo-se obrigado a enfrentar a vida sozinho, sem o apoio da mulher que escolhera para estar ao seu lado. “Foi o momento mais difícil, para mim, sozinho com eles. Eu sou uma pessoa que vejo tudo como um ensino para o dia de amanhã. Essa situação tornou-me mais forte, benevolente numas situações, com mãos rígidas noutras”, revela. Apesar de apoiado pelos amigos, sentiu que o mundo tinha desabado em cima de si.
Entretanto, o regresso à vida política deu-se com a entrada em cena de Jorge Magalhães, a convite de várias pessoas. Entendeu que devia integrar esse projeto, “pelas ideias que ele tinha e por aquilo que eu achava que era necessário fazer para endireitar Lousada”, justifica. Considera que tomou a decisão acertada, pois, “de facto, Lousada cresceu muito e projetou-se, sendo uma referência”. Apesar de determinado e seguro das suas ideias, admite que, na vertente eleitoral, nunca foi uma pessoa muito ativa. “Como sempre fui, de certa forma, independente, acabava por não participar de forma ativa”, explica. Sem filiação partidária, Antero nunca estava na “frente da batalha”. Atualmente, é secretário da Assembleia Municipal de Lousada.
O nome de Antero Correia está há uma década ligado aos bombeiros. Entrou a convite de Joaquim Gonçalves, para integrar a direção da altura. Crê, que foi em 2010. Entrou como tesoureiro, mas arrependeu-se logo a seguir a tomar conhecimento da associação. E explica porquê: “Encontrei uma associação bastante desorganizada em termos financeiros, contabilísticos e laborais. Aquilo meteu-me algum receio. Na altura, o presidente era o Eng.º João António Tavares de Oliveira”.
Sentindo o apoio do presidente e da direção atual reorganizou a associação em termos laborais e contabilísticos. Implementou a contabilidade organizada e com a ajuda de um advogado refez os contratos de trabalho dos funcionários com vista a estarem em harmonia com o Código do Trabalho.
A nível financeiro foram tomadas medidas de controlo mais rigorosas. Aproveitou diversas situações para fazer crescer a disponibilidade financeira. Foi tomada a decisão firme de nomear um comandante para os Bombeiros, nesta direção teve uma ação determinante. É precisamente desta nomeação que o vai conduzir ao pedido de demissão da direção da Associação.
Ainda assim, foi trabalhando, até que pediu a demissão, na altura do comandante Manuel Pacheco, por “motivos que considerava não aceitáveis para continuar na instituição enquanto dirigente”. Com a sua decisão, demitiu-se toda a direção. Seguiram-se as eleições, para as quais foi convidado a encabeçar uma lista. A sua lista foi a vencedora e continua até hoje como presidente.
Novo quartel é uma ambição
Admirador dos bombeiros, a entrada na associação permitiu-lhe conhecer melhor o trabalho dos soldados da paz e, consequentemente, ganhar ainda mais respeito pela sua missão. “Consigo ver o quanto aquela gente e aquela instituição merecem ser acarinhadas e apadrinhadas pelos Lousadenses”, afirma, com emoção.
Um grande objetivo da candidatura de Antero Correia era concluir a constituição do corpo de comando. Está quase. No primeiro semestre de 2021, ficará concluído. Outro grande objetivo ainda por concretizar diz respeito às novas instalações. “Trabalho todos os dias para as conseguir. Gostava de chegar ao final do mandato e poder dizer que tenho um sítio para construir o quartel, mas não é fácil”, admite
Ainda no que diz respeito ao trabalho associativo, é um dos fundadores da LADEC, associação criada para organizar de forma legal as festas do concelho. “Mas não queria que fosse apenas esse o motivo da associação. Nesse sentido, hoje é uma associação mais eclética, pois organiza inúmeras atividades ao longo do ano, tanto a nível cultural como desportivo. Destaco o Carnaval, a Festa da Francesinha e uma prova que me diz muito, pois daí vem a minha paixão pela modalidade do atletismo: a São Silvestre, prova essa de que sou o grande obreiro”, refere. Lamenta apenas que a LADEC não seja mais reconhecida por uma parte dos lousadenses, “porque poderiam aproveitar muito mais as suas valências, para credibilizar alguns eventos, mas sobretudo as festas do concelho, que foram a principal matriz do seu nascimento”, considera.
Saúde prega-lhe grande susto
Homem dedicado ao desporto, sentiu a doença bater-lhe inesperadamente à porta no dia 3 de janeiro, após um treino de futebol. Nesse dia, ainda jantou com os colegas, mas sofreu um AVC, que o levou à hospitalização. O socorro rápido e o facto de praticar desporto terão contribuído para a luta com sucesso pela recuperação. Antero Correia nunca perdeu a consciência:
Quando eu cheguei à ambulância, já vinha em recuperação, nunca perdi a consciência. No hospital, lembro-me de tudo”. A manutenção da consciência torna possível o relato na primeira pessoa daquilo que sente a vítima de AVC: “É o desligar de uma lâmpada tão-só. É uma sensação estranha. Estamos todos bem e, num clique, perdes metade do teu corpo.
Apercebemo-nos de tudo o que se passa, mas temos a outra parte que não existe”. A incerteza quanto às consequências futuras perturbava-o. Preocupava-o o facto de poder não recuperar totalmente e ficar dependente de terceiros. O stress provocado pelo trabalho pode ter sido o fator que desencadeou o imprevisível AVC.
Depois deste episódio, acalmou o ritmo e deixa um conselho a todos: “Aconselho toda a gente a fazer desporto. A minha resiliência em praticar desporto, contra tudo e contra todos, acabou por ser uma tábua de salvação para eu estar como estou”.
Recuperado, espera poder continuar a viver na sua terra, Lousada, da qual sente muito orgulho. “Andei de férias por Portugal e aconselhava as pessoas a visitarem o concelho. Tenho orgulho em ter, de uma certa forma, ajudado a desenvolver esta bonita vila de Lousada”, diz.












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