O novo ano letivo, que começou em setembro passado, trouxe novas regras e exigiu mais cuidados dos alunos, pais, professos e assistentes operacionais. Como se adaptaram os estabelecimentos de ensino? Estarão as escolas preparadas para os novos tempos? Luísa Lopes, diretora do Agrupamento de Escolas Oeste de Lousada, sediado em Nevogilde, explica como o agrupamento se adaptou aos novos métodos de ensino.
O distanciamento social, o uso de máscara obrigatório e a desinfeção das mãos são as regras de ouro do regresso às aulas num ano atípico como tem sido 2020. No Agrupamento de Escolas Oeste de Lousada, constituído por 1200 alunos e 115 docentes espalhados pelos oito estabelecimentos de ensino e a escola sede, vivem-se tempos de adaptação e novas formas de ensinar.
O grande impacto da mudança foi no final do ano letivo passado, refere a diretora, em que as escolas “não tiveram muito tempo para pensar em nada mais a não ser arregaçar as mangas, porque os alunos estavam em casa e então era necessário adaptar uma data de coisas para conseguir que os miúdos tivessem acesso á aprendizagem”, explicou.
O regresso às aulas presenciais do 11º e 12º ano, em maio, e o pré-escolar, em junho, exigiu uma adaptação rápida e imediata das escolas à nova realidade. “Numa fase inicial, todas as escolas tiveram que elaborar o seu plano de ensino à distância, desde a educação do pré-escolar, passando pelo primeiro ciclo, segundo, terceiro e secundário. As escolas não estavam preparadas, ninguém estava preparada para isto”, contou Luísa Lopes. Que plataforma usar e de que forma os professores podiam entrar em contacto com os alunos eram algumas dúvidas que alarmavam a comunidade escolar. “Não nos podendo esquecer que os professores não estavam, muitos deles, habituados a estas interações em direto e aqui, verdade seja dita, os colegas ajudam-se uns aos outros”, acrescentou.
Mudança rápida e imediata
O crescimento exponencial dos casos positivos e o fecho imediato das escolas não permitiu que fossem realizadas ações de formação aos professores, “porque aquilo estava a acontecer naquele momento”, explica a diretora, deixando uma palavra especial aos professores “que foram incansáveis”.
O agrupamento criou a plataforma, acordou com os professores o tempo de interação com os alunos, que não podia ser o mesmo das aulas presenciais, e começou a trabalhar. “Isto também levou a que nos confrontássemos com o facto de que a escola podia ter tudo preparado, mas os alunos não estavam”, contou. As escolas disponibilizaram meios informáticos, nomeadamente 35 computadores da escola, 21 cedidos pela Câmara Municipal e três emprestados por uma empresa privada, e, ainda, vouchers oferecidos pela autarquia para os alunos conseguirem atualizar o material disponível em casa. À lista de apoios acresceram routers para os alunos que não tinham internet em casa.
Ainda assim, a diretora explicou que existiram alguns constrangimentos. “Houve situações em que os miúdos até tinham computador em casa, mas eram dois ou três irmãos. As famílias não estavam preparadas para terem tantos computadores quantos os miúdos que deles iam precisar e esta parte foi muito difícil de gerir”, lamentou.
Com o apoio de todos, Luísa Lopes garantiu que “os alunos não estiveram sozinhos”. A opinião da comunidade escolar acerca do funcionamento das novas estratégias foi dispersa, “há quem diga que correu muito bem, há quem diga que correu muito mal, mas a verdade é que foi possível e quando as coisas correm o possível já não é mau”, esclareceu.
A ajuda dos pais foi uma mais valia para os professores, desenvolveu Luísa, referindo que “os alunos podem ter todos os meios e mais alguns, mas se não têm como interagir com as suas educadoras torna-se muito difícil”. Os níveis básicos do primeiro ciclo foram os mais afetados e as situações mais difíceis de lidar “por não terem capacidade para trabalharem sozinhos. Os níveis mais elevados já correram melhor, correu bem para aquilo que se esperava”, terminou.
Reajustar e reinventar o ensino
A necessidade de reajustar e reinventar o ensino notou-se por todas as escolas do país. A distribuição de informação física, fotocópias e material de estudo fez-se diversas vezes, através de professores ou funcionários, para fazer chegar a informação a todos os alunos, principalmente aqueles que não tinham possibilidade de entrar em contacto com os docentes.
A educação especial foi uma das grandes preocupações na fase de adaptação às novas realidades. “Uma das colegas da educação especial nessas situações tentava salvaguardar, enviando os vários apontamentos em formato papel, porque não havia a possibilidade de o outro lado terem computador”, relatou.
O novo ano escolar foi preparado aos poucos, com a informação que ia chegando das entidades responsáveis, e com alguns problemas que demoravam em resolver-se. “Aquela informação que nós precisávamos mesmo de ter não chegava, era preciso fazer horários, era preciso pôr a escola toda operacional para em meados de setembro recebermos alunos e havia situações para as quais não tínhamos resposta, como por exemplo a educação física, tínhamos os colegas dessa disciplina a agilizar as coisas, mas nada garantia que viesse a tutela e mudasse aquilo que os colegas estavam a preparar”, revelou a diretora.
Da tutela surgiram diretrizes como a disponibilização de desinfetante e máscaras para todos os docentes e alunos a partir do 5ºano de escolaridade ou 10 anos. Segundo Luísa Lopes, as escolas receberam uma verba para a aquisição destes materiais e que isso seria “o básico para abrir a escola. A partir daqui cada escola fez o que podia, o que a deixaram fazer e, inclusive, até onde tinha dinheiro para ir. Daqui para a frente tudo implica gastos de verbas”.
Alunos separados e sem intervalos
O agrupamento oeste organizou novas formas de entrada e saída dos alunos para manter a distância social necessária. “Na escola sede, onde há mais alunos, colocamos duas áreas de entrada, distanciadas, e a partir daí os intervalos também eram desfasados para que os miúdos não se encontrem, anulando os intervalos, à exceção de dois, de manhã e à tarde de 15 minutos”, revelou.
Os alunos entravam na escola por portas diferentes, sendo que cada grelha, uma vez que foi dividida em duas cores, verde e amarela, definiam um percurso no chão. As portas estavam também identificadas com as respetivas cores para que ninguém se cruzasse.
“Além disso, também nos recreios, no espaço exterior, colocamos a mesma cor para estarem separados nos intervalos. Colocamos acrílicos na cantina para poderem almoçar quatro pessoas de cada vez”, afirmou a diretora, alertando que de outra forma “seria muito difícil, porque ia haver congestionamento e não resultaria muito bem”.
E para quem regressa às aulas, o novo normal são rostos tapados e vistos para lá de um acrílico. Acrílicos que dividem a cantina e a biblioteca, tapetes de desinfeção para todas as entradas da escola e bar praticamente fechado são as soluções encontradas pela direção para que os alunos, professores e funcionários se sentissem confortáveis em regressar.
Turmas mais pequenas e mesas individuais
De forma a manter o distanciamento social, as escolas tentaram encontrar novos recursos como diminuir o número de alunos e colocar um aluno por mesa. No entanto, há turmas em que isso é impossível, garantiu Luísa Lopes.
Uma das principais preocupações foi “colocar determinada turma, atendendo ao número de alunos que tem, em determinada sala para que eles fiquem o mais distanciado entre si possível. É obvio que o ideal era um aluno por cada mesa, mas é impossível. Se em algumas turmas até o é, noutras turmas é completamente impossível”, admitiu.
“Ainda nos socorremos de algumas mesas, as chamadas mesas de anfiteatro, que são individuais, colocamos em algumas salas de forma a minimizar a situação. Agora, temos obviamente alunos sentados na mesma mesa porque as mesas poucas e não há outra forma de contornar isso”, lamentou.
Luísa Lopes aproveitou para alertar que “obviamente, e é um dos critérios que a área de saúde aponta quando manda um aluno ou vários de isolamento para casa, os inquéritos que são feitos é no sentido de tentar saber se o aluno que está suspeito se contactou, não com o que está ao seu lado numa situação de máscara , mas sim se contactou com um aluno numa situação de não máscara e, então, quem vai para isolamento será o contacto de não máscara e não obrigatoriamente o que está ao lado”.
Situações de substituições controladas
As substituições por baixas ou por caso positivo de infeção têm estado controladas e sem situações graves. “Nenhum colega apresentou atestado como sendo de risco, não tivemos, até hoje, situações em que devido a quarentena ou infeção confirmada tivessem que estar em casa com prejuízo para os alunos. O que temos neste momento é a situação de três docentes que estão em isolamento profilático, ou seja, estão a ver se têm sintomas”, referiu.
Desde meados de outubro que os alunos são a comunidade que mais preocupa a direção quando o número exponencial de casos se fez sentir no concelho. “Neste momento no pré-escolar e no primeiro ciclo temos à volta de 40 alunos em isolamento e três situações de covid confirmadas. Na escola sede temos o dobro, seis miúdos confirmados com covid e à volta de 80 em isolamento profilático. Ou seja, todas as turmas têm um ou dois, já é significativo”, esclareceu.
Atualmente, modernizar as salas de aula e capacita-las de computadores com câmara é o principal objetivo da direção para que os professores possam, em tempo real, entrar em contacto com os alunos. “Algo me diz que não tornaremos a ter aulas com a turma completa presencial e também não podíamos pedir aos professores que depois do seu horário, depois das 22 horas letivas, chegassem a casa e continuassem a colocar material e interagissem com os seus alunos, não era possível”, disse.
No que diz respeito aos técnicos operacionais, “primeiro vamos socorrermo-nos dos funcionários dos restantes estabelecimentos de ensino e a partir daí não sabemos”, lamentou, referindo que vão ser privilegiadas as cedências de funcionários entre estabelecimentos do agrupamento.
Verbas quase nulas e critérios de avaliação adaptados
Questionada sobre a liberdade que o conselho pedagógico e a direção do agrupamento têm para mudar e adaptar os critérios de avaliação, Luísa Lopes garantiu que têm toda a autonomia e, inclusive, já aconteceu no final do ano letivo passado. Assim, dependendo das circunstâncias, a situação “será sempre equacionada”.
A falta de iniciativas e outras ações reduziram as verbas próprias de cada estabelecimento que já sentem os cortes que a pandemia trouxe. “Estamos todos a deparar-nos com a falta da verba das receitas próprias, não aquela que se recebe do ministério, mas aquela verba que a própria escola consegue gerar e essa verba vinha, durante anos, do aluguer do pavilhão desportivo fora de horas, coisa que não está a acontecer, e a verba que vem dos lucros do bufete, uma vez que o temos praticamente fechado”, alertou.
As escolas apostaram essa verba em criar as condições necessárias para o regresso às aulas e, a partir desse momento, “tem que se gerir muito bem a verba restante. Se numa situação extrema a escola se deparar com falta de verba acho que um contacto com o ministério resolverá a situação”, revelou.
Misto de sentimentos
Luísa Lopes não deixou de enaltecer e elogiar o trabalho de toda a comunidade escolar, contando que “os funcionários técnicos e operacionais foram sempre para a escola, nunca deixaram de trabalhar e sempre se notou um misto de receio com a necessidade de ir. Temos funcionários com muitas patologias e, mesmo esses, foram sempre trabalhar”.
Também os professores sentiram “folia e receio” com o regresso. “A vida de um professor não é através de uma plataforma e tinham aquele sentimento de até que enfim vamos ver os nossos alunos”, explicou a diretora, acrescentando que “ao mesmo tempo tinham receio porque têm família em casa, filhos, pais já de terceira idade e muitos deles com quem não convivem para evitar possíveis situações”.
A diretora aproveitou, ainda, para deixar uma mensagem a toda a comunidade escolar e referir que é importante ter calma e resolver um problema de cada vez. “O mais importante é que todos tenhamos muita calma, porque diz-nos a experiência que no ano passado dizíamos isto vai ser rápido e não foi. Isto dia após dia, mês apos mês, vai deixando as suas marcas e também noto que todos nós estamos no barril de pólvora, são tantas as solicitações que são necessárias responder, de todos os lados”, contou, explicando que com o aumento de casos piorou.
“Nós estamos todos muito ansiosos, queremos ter tempo de fazer tudo e não conseguimos, por isso, acima de tudo, vamos tentar ter muita calma e vamos tentar resolver tudo, mas uma coisa de vez, temos que nos capacitar que não temos capacidade humana de resolver tudo ao mesmo tempo, por isso, que continuem as solicitações, mas com calma, porque tem mesmo que ser assim, muita calma e com muita confiança no futuro, claro”, terminou.












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