por | 16 Mai, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

Sacrifício, Liberdade e Memória da Revolução dos Cravos

No ano em que se comemora os cinquenta anos da Revolução dos Cravos importa mergulhar no passado para compreender o presente. A literatura corporiza essa capacidade, através de uma lente única capaz de entrelaçar o relato histórico com o da ficção, empoderando-nos, enquanto leitores, nessa interpretação do acontecido e do que está acontecendo. É essa a proposta de dois romances de Lídia Jorge que aqui trazemos, O Dia dos Prodígios (1980) e Os Memoráveis (2014).

Entre um livro e o outro, momentos maiores da arte da ficção de Lídia Jorge num longo espaço cronológico, entendemos ser possível abrir um arco que estabelece uma ponte capaz de apresentar a trajetória realizada pela pátria portuguesa na conquista de um espaço de liberdade, onde esta, bem como a palavra sacrifício se erguem como candeias iluminadoras, capazes de nos fazer viajar entre tempos fundamentais para esclarecer de que modo se processou a construção do país que somos.

É também nas palavras da escritora que confirmamos esta ideia de articulação ou imbricação entre os dois romances: «tenho ideia que o desafio de escrever sobre o presente tal como surge, desamparado no ar, é uma demanda que me diz respeito. Foi assim, no fundo, que o último romance que publiquei acabaria por ser, por assim dizer, uma resposta ao primeiro. Os Memoráveis é uma resposta ao Dia dos Prodígios» Lídia Jorge).

Na obra ficcional de Lídia Jorge, subjaz uma inquietação artística associada, de forma evidente, ao compromisso da escritora no seu papel de testemunha da Revolução dos Cravos em Portugal. Para a autora, observar o espaço onde lhe coube nascer e viver, não dispensa o papel essencial da metáfora como campo de travessia entre espaços polarizadores de tensão e de uma inquietude permanente – traço dominante e definidor de um compromisso e responsabilidade ética da sua escrita.

O mergulho fundo neste Portugal desarrumado que, cinco décadas depois, procura ainda autodefinir-se coletiva e ontologicamente, opera-se em várias das suas obras através de uma sempre renovada urgência de dizer. Faz-se linha de força a interpretação de um Portugal sacrificial e crístico – analogia submersa no cordeiro que ficou escondido dentro da terrina, no meio da mesa, na ceia memorável no restaurante Memories, a corporizar o povo português «ao mesmo tempo vítima sofredora e complacente com o seu carrasco» (Os Memoráveis, p.147).

A capacidade de nos olharmos de frente as nossas fragilidades, sem medo do que fomos, do que somos e do que sabemos ainda ser urgente conquistar, é a única porta para respeitarmos a liberdade conquistada nesse passado 25 de abril de 74.

Conceição Brandão

Professora

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