CLÁUDIA MADEIRA, UMA FADISTA SOLIDÁRIA
Cantar com alma e paixão são características de Cláudia Madeira, que vive intensamente o fado. “Eu visto os personagens que canto”, afirma. O seu sentido solidário levam-na a ajudar na angariação de dinheiro para causas de grande necessidade, para instituições e pessoas. A carreira fulgurante no fado começou na infância, por influência do pai. A fadista, que tem dois álbuns da sua autoria, fala-nos das origens no Alto Douro, da afirmação nas casas da especialidade no Porto e dos planos para breve.
“As principais memórias que tenho da infância e adolescência são sobre o acompanhar os meus pais do trabalho do campo. Foi no meio das vinhas que o meu pai me começou a falar de fado, de Amália e Fernando Farinha, principalmente. O meu pai era o meu melhor amigo e foi desde pequena que me incentivou a ganhar gosto pelas artes”, revela a intérprete, que dessa forma ganhou gosto por teatro, escrita e mais tarde no Colégio Salesiano de Poiares esteve sempre ligada à música. “Somos 7 irmãos, mas há uma grande diferença de idades porque sou a mais nova. Então acabei por ser a companheirinha dos meus pais. Fui sempre muito feliz apesar da nossa vida simples e humilde”, divulga Cláudia.
O fado surgiu naturalmente como o seu destino profissional. Mas “se não fosse fadista gostaria de ter sido advogado e juíza. Sempre me interessei por leis e sempre achei que a vida de todos seria mais fácil com justiça. Rapidamente percebi que as coisas não são bem assim e que não tenho a capacidade de mudar o mundo”.
Nas vinhas do Alto Douro, o fado encantou-a. “Quando acompanhava o meu pai nas vinhas, ia sempre um pouco contrariada mas o meu pai cantava para ajudar o tempo a passar. Comecei a tomar atenção aos poemas. A maioria eram sobre histórias sofridas, mas que faziam sentido para mim. O trabalho no campo é árduo e a vida nas aldeias transmontanas não é fácil, por isso revia-me um pouco em todos aqueles sentimentos”, fala Cláudia, com uma entoação quase poética.
O primeiro fado que aprendeu foi um clássico, pois claro: A Lágrima, de Amália Rodrigues. “Eu tinha oito anos de idade e cantei esse tema à capella (só com a voz), em casa, e vi o meu pai com lágrimas a caírem-lhe pelo rosto”, recorda, com emoção.
O comboio é um elemento central em quase toda a sua vida. “Fez parte da minha infância, porque íamos passar os natais a casa dos meus irmãos a Lisboa de comboio. A viagem demorava o dia inteiro, os bancos ainda eram de madeira e a minha mãe levava um cesto com comida para a viagem”.
Agora, em Meinedo, terra de comboios e sua localidade de residência, “o comboio é usado frequentemente para me deslocar para o Porto, onde canto quase todos os dias”.
É cada vez mais uma intérprete com talento reconhecido e tem vindo a triunfar nesta área difícil e exigente. “Sou fadista residente na Casa do Fado Sé e também na Casa da Guitarra”, duas casas portuenses de culto deste estilo musical que é património imaterial da UNESCO.
“Ando há alguns anos a provar que sou fadista de raça e por vezes o reconhecimento vem primeiro de fora”, refere Cláudia, cuja afirmação como grande cantora está consumada.
CONCERTOS SOLIDÁRIOS
O espírito de solidariedade e apoio a causas sociais estão bem presentes na sua vida. Na semana passada deu um concerto que reverteu a favor dos Bombeiros de Lousada. “Por norma dou dois concertos solidários por ano. Pode ser para instituições ou pessoas singulares. É algo que me faz sentir bem. Saber que posso ajudar a cuidar de alguém com o dom que Deus me deu”, explica Cláudia.

Este ano já deu outro concerto solidário, em Meinedo, para ajudar as obras da nova igreja local. “Foi algo que surgiu porque conheci o padre André e gosto de pessoas empreendedoras e sonhadoras”, confessa a fadista.
Ainda a respeito de solidariedade, a cantora conta que “no meu primeiro concerto na Suíça, em Genebra, doei o meu caché todo para um menino que estava a fazer quimioterapia e é com orgulho que digo que o Gabriel sobreviveu e está um homem hoje”.
TERCEIRO ÁLBUM EM PREPARAÇÃO
A intérprete de Meinedo revela que está “a gravar o terceiro álbum e não será todo de fado tradicional, mas ainda não quero levantar o véu”.
Perguntamos-lhe qual é o seu estilo de fado preferido, se o Tradicional, se o fado à moda de Coimbra ou o fado Vadio, por exemplo. Respondeu prontamente: “o meu estilo preferido é o bem cantado e com isto quero dizer que não precisa de ser pela melhor voz, basta que tenha alma”.
Por falar em alma, “por norma canto de olhos fechados. É uma forma de estar compenetrada, mas também porque há uma vergonha aliada ao facto de que quando canto estou completamente despida de máscaras. Escolho os meus fados de maneira a que possa contar uma história que também vivi”, revela a artista. E prossegue, numa toada intimista e reveladora: “os poemas de fado falam de todos os assuntos que possam imaginar, mas eu visto a personagem dos versos. Por isso hoje canto a Lágrima de forma diferente de quando tinha 8 anos. Torna-se mais intenso quando a história é real”.
Quem conhece sabe que nos concertos de Cláudia Madeira têm uma forte carga emocional, facto que fica aqui explicado nestas palavras finais: “Deus deu-me a oportunidade de chorar a cantar”.













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