por | 16 Jun, 2024 | Espaço Cidadania, Sociedade

“Deus deu-me a oportunidade de chorar a cantar”

CLÁUDIA MADEIRA, UMA FADISTA SOLIDÁRIA

Cantar com alma e paixão são características de Cláudia Madeira, que vive intensamente o fado. “Eu visto os personagens que canto”, afirma. O seu sentido solidário levam-na a ajudar na angariação de dinheiro para causas de grande necessidade, para instituições e pessoas. A carreira fulgurante no fado começou na infância, por influência do pai. A fadista, que tem dois álbuns da sua autoria, fala-nos das origens no Alto Douro, da afirmação nas casas da especialidade no Porto e dos planos para breve.

“As principais memórias que tenho da infância e adolescência são sobre o acompanhar os meus pais do trabalho do campo. Foi no meio das vinhas que o meu pai me começou a falar de fado, de Amália e Fernando Farinha, principalmente. O meu pai era o meu melhor amigo e foi desde pequena que me incentivou a ganhar gosto pelas artes”, revela a intérprete, que dessa forma ganhou gosto por teatro, escrita e mais tarde no Colégio Salesiano de Poiares esteve sempre ligada à música. “Somos 7 irmãos, mas há uma grande diferença de idades porque sou a mais nova. Então acabei por ser a companheirinha dos meus pais. Fui sempre muito feliz apesar da nossa vida simples e humilde”, divulga Cláudia.

O fado surgiu naturalmente como o seu destino profissional. Mas “se não fosse fadista gostaria de ter sido advogado e juíza. Sempre me interessei por leis e sempre achei que a vida de todos seria mais fácil com justiça. Rapidamente percebi que as coisas não são bem assim e que não tenho a capacidade de mudar o mundo”.

Nas vinhas do Alto Douro, o fado encantou-a. “Quando acompanhava o meu pai nas vinhas, ia sempre um pouco contrariada mas o meu pai cantava para ajudar o tempo a passar. Comecei a tomar atenção aos poemas. A maioria eram sobre histórias sofridas, mas que faziam sentido para mim. O trabalho no campo é árduo e a vida nas aldeias transmontanas não é fácil, por isso revia-me um pouco em todos aqueles sentimentos”, fala Cláudia, com uma entoação quase poética.

O primeiro fado que aprendeu foi um clássico, pois claro: A Lágrima, de Amália Rodrigues. “Eu tinha oito anos de idade e cantei esse tema à capella (só com a voz), em casa, e vi o meu pai com lágrimas a caírem-lhe pelo rosto”, recorda, com emoção.

O comboio é um elemento central em quase toda a sua vida. “Fez parte da minha infância, porque íamos passar os natais a casa dos meus irmãos a Lisboa de comboio. A viagem demorava o dia inteiro, os bancos ainda eram de madeira e a minha mãe levava um cesto com comida para a viagem”.

Agora, em Meinedo, terra de comboios e sua localidade de residência, “o comboio é usado frequentemente para me deslocar para o Porto, onde canto quase todos os dias”.

É cada vez mais uma intérprete com talento reconhecido e tem vindo a triunfar nesta área difícil e exigente. “Sou fadista residente na Casa do Fado Sé e também na Casa da Guitarra”, duas casas portuenses de culto deste estilo musical que é património imaterial da UNESCO.

“Ando há alguns anos a provar que sou fadista de raça e por vezes o reconhecimento vem primeiro de fora”, refere Cláudia, cuja afirmação como grande cantora está consumada.

CONCERTOS SOLIDÁRIOS

O espírito de solidariedade e apoio a causas sociais estão bem presentes na sua vida. Na semana passada deu um concerto que reverteu a favor dos Bombeiros de Lousada. “Por norma dou dois concertos solidários por ano. Pode ser para instituições ou pessoas singulares. É algo que me faz sentir bem. Saber que posso ajudar a cuidar de alguém com o dom que Deus me deu”, explica Cláudia.

Claudia Madeira na Turquia, um dos muitos países onde já atuou

Este ano já deu outro concerto solidário, em Meinedo, para ajudar as obras da nova igreja local. “Foi algo que surgiu porque conheci o padre André e gosto de pessoas empreendedoras e sonhadoras”, confessa a fadista.

Ainda a respeito de solidariedade, a cantora conta que “no meu primeiro concerto na Suíça, em Genebra, doei o meu caché todo para um menino que estava a fazer quimioterapia e é com orgulho que digo que o Gabriel sobreviveu e está um homem hoje”.

TERCEIRO ÁLBUM EM PREPARAÇÃO

A intérprete de Meinedo revela que está “a gravar o terceiro álbum e não será todo de fado tradicional, mas ainda não quero levantar o véu”.

Perguntamos-lhe qual é o seu estilo de fado preferido, se o Tradicional, se o fado à moda de Coimbra ou o fado Vadio, por exemplo. Respondeu prontamente: “o meu estilo preferido é o bem cantado e com isto quero dizer que não precisa de ser pela melhor voz, basta que tenha alma”.

Por falar em alma, “por norma canto de olhos fechados. É uma forma de estar compenetrada, mas também porque há uma vergonha aliada ao facto de que quando canto estou completamente despida de máscaras. Escolho os meus fados de maneira a que possa contar uma história que também vivi”, revela a artista. E prossegue, numa toada intimista e reveladora: “os poemas de fado falam de todos os assuntos que possam imaginar, mas eu visto a personagem dos versos. Por isso hoje canto a Lágrima de forma diferente de quando tinha 8 anos. Torna-se mais intenso quando a história é real”.

Quem conhece sabe que nos concertos de Cláudia Madeira têm uma forte carga emocional, facto que fica aqui explicado nestas palavras finais: “Deus deu-me a oportunidade de chorar a cantar”.

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