Há uns tempos e a propósito de um Colóquio Internacional em que participei na Sorbonne, em Paris, apresentei uma reflexão sobre o corpo arqueológico da memória na literatura. As notícias aflitivas sobre as guerras da nossa atualidade vieram relembrar a importância dessa reflexão, dando o mote a este texto.
Ansgar Nünning sublinha que « as memórias têm de ser ajudadas pela invenção, ou não podem, de todo, ser formuladas ». O facto de as memórias serem, como defende Schacher, « construções complexas – e não registos literais da realidade », é de importância crucial para avaliar os limites da memória. Ora, estas características da memória e do homem têm inevitáveis consequências no ato de recordar e de esquecer e na acepção de verdade e de memória. Assim, importa salientar que são múltiplas as relações a estabelecer entre memória e realidade e entre memória e verdade – o que obviamente abre um campo mais vasto à palavra memória.
É tendo em mente esta complexidade que olhamos para a literatura e para as várias relações que esta estabelece com a memória. Com efeito, a literatura não pode preservar o passado mas pode recuperar, de forma ativa, versões do passado e do seu sentido. O romance Os Memoráveis de Lídia Jorge (2015), por exemplo, apresenta, por um lado, uma (re)construção imaginativa do passado em resposta a necessidades de um presente e, por outro, edita elementos de um determinado discurso cultural, para, desta forma, oferecer um novo olhar sobre o passado. Assim, compreende-se que a matéria do romance, aquela que empurra a narrativa na sua força genesíaca, interliga a imaginação e a linguagem, a memória e o desejo propondo, à luz do que defende Milan Kundera, « que o romance é uma perpétua redefinição do ser humano como problema ».
Na ficção, estamos no reino do como se,mas ela fala sempre de algo: do mundo . A literatura, ao redizer a História, possibilita aquilo que poderemos designar como campo de trabalho e de componente ética – um vergar a palavra à procura da Verdade, desfazendo equívocos, remexendo no que ficou silenciado, escavando dentro dos abismos do homem em atitude de inquietação permanente e de inadmissibilidade do que ficou rasurado ou mal compreendido desse passado que agora, num outro presente se visita.
As guerras do nosso mundo contemporâneo exigem de todos nós a revisitação do passado em modo de auscultação obrigando a que o nosso presente se confronte, se perscrute sem deixar cair no esquecimento a nossa humanidade, para que, como lembra Carlos Fuentes, «o presente não se nos morra entre as mãos» .E a literatura tem, então, um papel fundamental nesse processo.
Conceição Brandão
Professora













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