Por Lourenço Novais – aluno do Agrupamento de Escolas Dr. Mário Fonseca
“O Agrupamento de Escolas Dr. Mário Fonseca, no seu Plano Anual de Atividades, através de um trabalho de equipa entre as coordenações das Bibliotecas Escolares, por um lado e do Departamento de Português, por outro, participa anualmente no Concurso LER LOUSADA, assumindo-o como uma prioridade. Tal prende-se com a partilha dos valores que este concurso traça, a saber, genericamente: a promoção da leitura e da escrita. Assim, no Agrupamento Dr. Mário Fonseca, várias dezenas de participações , de alunos do 4º, 6º e 12º anos, são enviadas todos os anos.
O texto que se segue é do Lourenço Novais, aluno, no ano letivo 2023-2024, do 6ºA_N, que, muito embora não tenha sido premiado, merece ser divulgado, como tantos outros que surgirão nas próximas publicações, pela originalidade e qualidade. O ponto de partida para este trabalho foi a obra do Plano Municipal de Leitura, “A Misteriosa Cassandra”, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, a qual serviu de fonte de inspiração para a criação de outra narrativa.”

Keitá Morais é um menino de doze anos, que nasceu e cresceu em Moçambique, na provincia de Niassa, na cidade de Lichinga.
O dia-a-dia de Keitá era muito agitado. De manhã, conjuntamente com os seus amigos, ia à escola e à tarde jogava futebol e ajudava os seus pais na fazenda. Os dias decorriam lentamente ao ritmo da floresta do tipo Miombo que envolvia a pequena cidade. Tudo era verdejante, quente e húmido, onde largas chuvas banhavam as pequenas e simples casas típicas da província e o Sol quente as secava com uma rapidez atroz.
A escola de Keitá localizava-se numa casa térrea, simples e coberta de colmo. Não havia eletricidade nem mobiliário complexo; apenas pequenas mesas e cadeiras improvisadas, de madeira, e uma grande ardósia que servia de quadro. À semelhança da escola, a casa era também muito singela… piso térreo, pequena, com três divisões onde vivam os pais e os seus quatro irmãos. Keitá era o filho do meio.
O passatempo favorito de Keitá era correr descalso por entre a floresta tropical ora verdejante, ora seca, densa da sua cidade. Ali parava, observava e escutava os sons que o envolviam e despertavam a imaginação. Keitá perguntava-se como seria o resto do mundo; se a floresta era igual em todos os continentes e se algum dia teria a hipótese de conhecer outros locais.
Ao domingo, Keitá e os amigos tinham o hábito fazer um piquenique na floresta, onde comiam o lanche, dançavam e cantavam ao som da brisa e se aqueciam envolvidos pelos raios quentes do grandioso sol.
Apesar de ser um adolescente muito feliz, a sua família passava por algumas dificuldades económicas. Como os pais de Keitá queriam dar um futuro melhor aos seus filhos, onde eles pudessem estudar e ter um emprego digno e bem remunerado, ponderaram e decidiram vir para Portugal. Primeiro porque a língua era a mesma, o que facilitaria a adaptação e depois porque Portugal é um país muito acolhedor e afável. Após muitas perguntas e pesquisas, os pais de Keitá decidiram vir para a região norte de Portugal, mais precisamente para a vila de Lousada. A vila foi escolhida porque perceberam que Lousada era um dos concelhos com mais jovens de Portugal e porque tinha uma grande área de vegetação e floresta, que sabiam que iria ajudar a resolver as saudades da sua terra natal.
Quando os pais disseram aos filhos que a família se mudaria para Lousada, em Portugal, todos concordaram, à exceção de Keitá. O jovem não achou boa ideia pois iria perder os seus amigos, os seus divertimentos e passatempos e a floresta que tanto lhe dizia, apesar de em tantos momentos se ter questionado como seria o mundo e se algum dia teria hipótese de o conhecer. Keitá foi tão resistente em querer sair da cidade que os seus pais tiveram de improvisar e dizer-lhe que viriam de “férias”, ficando um pequeno período a tempo de regressar no Natal. Contrariado, o jovem acatou a decisão, mas com muitas reservas.
Keitá despediu-se dos seus amigos, da sua escola e da floresta que tanto amava. No momento em que estava a ver a floresta pela última vez, as suas lágrimas misturaram-se com a forte chuva que caia e o adolescente prometeu que regressaria em breve para abraçar os “amigos arborísticos”.
A família chegou a Lousada num dia abafado e muito quente de verão. O sol brilhava fortemente e o ar estava seco e límpido… tão límpido que “até apetecia beber”. A família de Keitá instalou-se em Romariz, na freguesia de Meinedo. A casa era alugada e tinha quatro quartos, cozinha, sala, três casas de banho, garagem e um pequeno jardim com um grande carvalho plantado. Keitá estava impressionado! Não pelo facto de a casa, a seus olhos, ser um castelo, mas porque tinha um “amigo arborístico” a seu lado.
Nos primeiros dias, o jovem acompanhava os seus pais para todo o lado. Conheceu a mercearia, a Igreja, o campo de futebol, o centro de saúde mais próximo e as ruas e ruelas do local. Num dos dias foi com o seu pai à Escola de Nogueira e achou um máximo. No entanto, perguntava-se qual seria a razão de ir à Escola se estava de férias em Portugal. Mas, ficou atónito com o imenso pinhal verde que envolvia a Escola e com a quantidade de “amigos arborísticos” que ali se encontravam.
“Como seria bom estudar aqui!” – pensou, afastando rapidamente esse pensamento, pois em breve regressaria a Lichinga.
Keitá, habituou-se facilmente à nova casa, a Romariz e descobriu o mundo da Internet que usou para matar saudades de Lichinga e dos seus “amigos arborísticos” no verão.
Certo dia, o jovem viu na garagem algo que lhe era estranho. Chamou o seu irmão mais velho e perguntou-lhe o que seria tal coisa. O seu irmão disse-lhe que era uma velha bicicleta e, subindo para ela, fez uma série de demonstrações em redor do carvalho e do jardim da casa. Juntos, limparam a bicicleta e Keitá logo tratou de aprender a andar. No início caiu muitas vezes, mas, amparado à parede da garagem, rapidamente se tornou um perito. Os passeios começaram à volta do Carvalho, que dava uma sombra forte e fresca e servia de abrigo a muitos pássaros e bichinhos do verão e depois estenderam-se pelas ruas e ruelas de Romariz.
Quando perceberam que o filho se estava a adaptar à nova terra e à nova vida, os pais de Keitá comunicaram que iriam ficar definitivamente em Lousada. Explicaram que tinham um bom trabalho e que ganhavam bem e estavam em condições de proporcionar uma boa educação a todos: os irmãos mais velhos iriam estudar para as Universidades do Porto e Vila Real e Keitá e os seus dois irmãos mais novos iriam estudar na Escola de Nogueira. Porém, Keitá ficou desanimado e profundamente triste, embora tenha gostado bastante da Escola e assim chorou toda a noite, pois tinha prometido aos seus “amigos arborísticos” de Lichinga que voltaria em breve.
Os dias que se seguiram transformaram-se num enorme pesadelo para Keitá e consequentemente para a sua família. O jovem não tinha apetite, não falava, não brincava e não saia debaixo do Carvalho do jardim.
Alguns dias depois, Keitá estava debaixo do carvalho a relembrar os velhos “amigos arborísticos” quando reparou que a casa do outro lado da rua estava bastante movimentada. Triste e amargurado, desviou o olhar e não prestou atenção. Porém, ouviu algo familiar que despertou novamente a sua atenção… era uma família que regressava de férias.
Ainda estava a processar os acontecimentos que presenciara quando ouviu:
“Psst, psst, Salama”!
Keitá nem podia acreditar! Os seus olhos esbugalhados cintilavam com tal saudação e o seu pensamento era arrancado daquelas memórias que, há dias, estava continuamente a reviver. Por brevíssimos instantes questionou-se acerca da probabilidade de ouvir esta expressão em Lousada. Rapidamente saltou do lugar onde estava, dirigiu-se ao portão e disse:
“Salama”!
O menino sorriu e continuou:
“És novo por cá! Como te chamas?”
“Keitá!” – respondeu – “E tu?”
“Quimbé!” – disse o menino.
A partir daquele momento, os dois ficaram à conversa durante toda a manhã e Keitá sentiu que era como se se conhecessem desde sempre, pois tinham a mesma idade e eram ambos de Moçambique, embora Quimbé fosse da cidade de Songo. Quimbé também confidenciou a Keitá que tinha muitas saudades de “casa” e ensinou-lhe o “segredo” para matar essas saudades. Sem perderem tempo combinaram na madrugada seguinte fazer um passeio de bicicleta.
Keitá passou a tarde e o jantar a explicar à família que tinha feito um novo amigo e que na madrugada seguinte iriram dar um grande passeio de bicicleta. O jovem falava muito rápido, tentando explicar tudo ao pormenor, executava gestos rápidos e vigorosos enquanto comia com grande dinamismo e voracidade. Como estava feliz!
Por volta das seis da manhã, Quimbé lançou uma pequena pedra à janela do quarto de Keitá para dar o sinal de partida. Keitá não sabia o que o esperava, porém, confiava no seu novo amigo, também ele vindo de uma terra distante. Saíram de Romariz e o jovem viu-se ladeado de árvores verdes frondosas, arbustos e rochas. Passaram por uma padaria de onde saía um delicioso cheiro a pão fresco e continuaram embalados por uma suave brisa matinal e por uma cacofonia de sons de pássaros a chilrear e outros animais a cantar. Keitá sentia-se maravilhado e percebia que, apesar de ter saudades dos “amigos arborísticos” da sua terra natal, encontrava aqui outros que o faziam sentir-se especial. Passaram uma ponte antiga sobre o rio Sousa e após a bifurcação, Quimbé fez sinal para seguirem pela direita. Cerca de cinquenta metros à frente estava um imenso Carvalhal. Como era maravilhoso aquele local… repleto de enormes e grandes carvalhos, cheios de vida e cor! Os carvalhos albergavam imensa vida e deles brotavam sons, aromas, cores, frescura, brilho e, principalmente, amor.
“Este local é mágico!” – disse Keitá. – “Tão diferente e tão maravilhoso como a floresta de Miombo.” – e enquanto dizia estas palavras, rodopiava sobe si mesmo, com os braços abertos e a cabeça voltada para o céu a absorver tudo o que o envolvia e a deixar-se atravessas e balançar pela brisa fresca da manhã.
“Ainda não viste tudo.” – disse Quimbé, olhando para Keitá com uma expressão de vitória por ter sido ele a mostrar esta maravilha ao seu novo amigo. – “Anda! Aqui à frente vais ver algo que te vai surpreender ainda mais.”
Pedalaram uns metros e Keitá ficou de olhos esbugalhados e boqueaberto: um moinho de água.
“Oohh!” – exclamou Keitá. – “Nunca tinha visto um moinho de água ao vivo… só vi as imagens que o Professor Pedro nos mostrou nos livros. Funciona?”
“Não. É apenas um vestígio histórico.” – referiu Quimbé. – “Mas, é bem bonito, não é?”.
Keitá sentia que era demasiada informação para guardar dentro de si. Tudo era maravilhoso. Lousada era maravilhosa! Tinha encontrado o seu paraíso.
Já passava das 14.00 quando regressaram a casa. Keitá vinha extenuado e feliz.
Nessa noite, Keitá falou com dois dos seus amigos de Lichinga, que, tal como ele, estavam cheios de saudades. Contou as novidades, falou-lhes do seu novo amigo Quimbé, do enorme Carvalhal e os “amigos arborísticos” que abraçou, bem como o moinho de água. Todos ficaram radiantes e concordaram que agora passariam a estar unidos pelas florestas de Miombo e pelo Carvalhal. Nesse momento, Keitá teve uma grande ideia: todos os domingos, às 14.00 horas de Portugal e 16.00 de Moçambique, ele e Quimbé iriam ao Carvalhal e os restantes amigos iriam à floresta de Miombo; lá colocariam uma fatia de pão no chão e assim faríam uma “Sandes de Terra”. Deste modo, estavam juntos em irmandade uma vez que a brisa que atravessava as florestas, as raízes dos seus “amigos arborísticos”, os sons dos animais, a água do rio Sousa e das chuvas da floresta de Miombo criariam uma corrente de energia que os uniria e apagaria as saudades. Todos concordaram com a ideia.
Keitá e Quimbé passaram a ser os melhores amigos e as suas famílias uniram-se também numa só.
Graças às cores, sons, aromas, energia e vida do Carvalhal e ao moinho de água, Keitá aceitou a nova realidade e sempre que era invadido pela saudade pegava na sua bicicleta e “voava” para o seu porto de abrigo. Keitá todos os dias abraçava o seu “amigo arborístico” do jardim, o seu carvalho, o seu amigo, confidente e companheiro de tantas horas e aventuras e, graças a ele, tornou-se mais confiante, forte e mais capaz das suas habilidades. Keitá percebeu ainda que, embora afastado por milhares de quilómetros da sua terra – Lichinga – tinha encontrado um pequeno paraíso para viver: o concelho de Lousada. E a partir desse momento sentiu-se um menino muito feliz e abençoado.













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