por | 9 Mar, 2025 | Grande Entrevista

As mulheres estão a despertar e a assumir o seu poder

SANDRA PINTO BESSA, UMA MULHER DE ARMAS

Há mulheres que perseguem objetivos destemidos, fora da caixa, por assim dizer. Foi o caso de Sandra Pinto Bessa, de Cristelos (Lousada), que é comandante do Destacamento da Guarda Nacional Republicana (GNR) de Penafiel. Há cerca de um ano foi promovida de Capitão a Major e não quer ficar por aqui, pois espera chegar ao posto seguinte, de Tenente – Coronel. É uma mulher de armas, que se lançou na carreira militar por iniciativa própria, sem tradições familiares nessa área. Mas teve sempre o apoio da família. Quando andava no 11º ano, foi numa visita de estudo à Academia Militar na Amadora. A atração pela carreira militar já existia, mas fortaleceu aí e concretizou-se após o 12.º ano. Não se tratou apenas de entrar para a GNR. O desempenho e competência demonstrados levaram-na a uma carreira de chefia que é rara em Portugal.  

Neste sábado assinala-se o Dia Internacional da Mulher e o nosso jornal quis entrevistar alguém que se destaca na afirmação feminina em contexto marcadamente masculino. É o caso da vida militar, onde ainda é pequena a percentagem de mulheres. Mas está a crescer e disso é exemplo esta lousadense, que é um caso pouco frequente em Portugal, dado que exerce importantes funções de chefia.

“Desde criança que eu tinha um fascínio pela vida militar e no 11º ano fiz uma visita escolar à Academia Militar na Amadora em que verifiquei que na Academia existia a formação de oficiais para a Guarda Nacional Republicana e foi então que após terminar o 12º ano decidi enveredar por esta carreira profissional”, contou Sandra Bessa ao Louzadense.  

Qando terminou a Academia Militar, em 2010, foi colocada como adjunta do Comandante de Desatamento Territorial de Penafiel, onde esteve até 2015. “Com a promoção a Capitão, fui colocada na Unidade de Controlo Costeiro, onde fui Comandante do Destacamento de Controlo Costeiro da Figueira da Foz”. Em 2017, veio novamente para perto de casa: “regressei novamente ao distrito do Porto onde passei a ser Comandante do Destacamento Territorial de Amarante, e em 2021 fui nomeada Comandante de Destacamento Territorial de Penafiel, onde desempenho atualmente as minhas funções”.  

Quem a conhece sabe que serve de exemplo para muitas jovens. Há raparigas que a abordam a pedir sugestões ou conselhos sobre a carreira militar, a qual está a ter cada vez mais adesão feminina. “As questões que me colocam são normalmente sobre as condições de acesso, em especial as provas físicas, porque ainda existe a perceção de que as provas são de elevada dificuldade” e revela também que as jovens “perguntam sobre a exigência e adaptação à vida militar em particular ao regime de internato e que estamos sujeitos durante o período dos cinco anos de Academia Militar”.

Quando, em 2010, terminou o curso e se apresentou no Comando Territorial do Porto era a primeira oficial que estava na atividade operacional. “A minha primeira função foi ser adjunta do Comandante Destacamento Territorial de Penafiel e na altura éramos apenas quatro mulheres num universo de cerca de 180 militares”, revela Sandra Bessa.

Em Portugal “temos assistido a um aumento de medidas de conciliação entre a vida familiar e profissional e, mais uma vez, a Guarda Nacional Republicana tem estado na linha da frente ao proporcionar aos seus militares, homens e mulheres, melhores condições de trabalho nomeadamente na questão de horários e nas questões relacionadas com a vida familiar” e isso motiva a adesão de mulheres. A Major destaca que “a Guarda Nacional Republicana sobressai entre outras instituições, por ter um papel bastante ativo na promoção da igualdade de género”.

DOIS CASOS MARCANTES

Na sua carreira registou inúmeros casos e ocorrências. Quando lhe perguntamos se destacava algum caso, Sandra Bessa revelou que “houve um homicídio, em contexto de violência doméstica em que o agressor se suicidou de seguida. Inicialmente foi dado um alerta do desaparecimento do casal, com suspeitas de violência doméstica. Após as diligências veio o mais difícil, que foi ter que  comunicar aos filhos que os seus pais estavam mortos. Dar a notícia da morte de alguém é sempre um momento constrangedor, mas neste contexto o momento tornou-se muito mais doloroso criando um misto de emoções nas pessoas que receberam a notícia”.

Conta também que “num caso mais recente, aquando dos incêndios que assolaram em setembro o distrito do Porto, em especial o incêndio de Paredes e Gondomar, também foi marcante. As altas temperaturas, baixa humidade e o forte vento levou que esse e outros incêndios assumissem uma proporção nunca antes por mim vista”. O que mais destaca nisso é “o sentimento de impotência foi avassalador, perante a angústia dos cidadãos e dos militares que pediam por mais meios de combate ao incêndio”.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA PREOCUPANTE

Voltando ao assunto da violência doméstica, que diariamente nos salta aos olhos através das notícias. “É uma realidade que preocupa”, começa por dizer a militar. Reconhece que “a zona do Vale de Sousa carateriza-se por um elevado número de ocorrências, o que implica por parte dos militares da Guarda Nacional Republicana um constante acompanhamento das situações por forma a garantir a segurança da vítima, que é a nossa principal prioridade”, explica.

A complexidade deste fenómeno é vasta, mas há um fator que esta especialista destaca para lidar com isso: “face à experiência adquirida nesta matéria e atendendo à complexidade deste fenómeno criminal é também imperativa a necessidade de conhecer o agressor conjugal, bem como desenvolver medidas que contribuam para a diminuição da reincidência deste crime”.

Tendo em conta tudo isto, esta Major da GNR sublinha que “é um fenómeno que implica a colaboração de um conjunto de várias entidades que tralhando de forma conjunta poderão dar uma resposta integrada e melhorada”.

A terminar esta entrevista, falou-se do dia internacional da mulher e da afirmação feminina. Sandra está convicta de que “as mulheres estão finalmente a despertar, a assumir o seu poder e a ocupar o seu lugar no mundo”. Sublinha que “o papel da mulher na sociedade é cada vez mais diversificado e relevante” e defende que “equipas diversificadas, faz-nos olhar para um desafio de diversas perspetivas e por regra permite dar uma resposta mais completa, abrangente e diversificada, trazendo inovação e criatividade”. “Obviamente que ainda há um longo caminho para se fazer, mas os obstáculos devem ser motivo para nos fortalecer e inspirar a ser mais fortes e determinadas”, conclui Sandra Bessa.

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