por | 8 Jan, 2026 | Opinião

A política portuguesa vive hoje um tempo de deslocação clara para a Direita. Não é apenas uma questão de resultados eleitorais ou de quem ocupa o Governo; é um fenómeno mais profundo, social e cultural, que se sente no discurso público, nas prioridades mediáticas e até nas conversas de café. A ideia de que “o Estado pesa demais”, de que “é preciso ordem” ou de que “os partidos falharam” deixou de ser marginal e passou a fazer parte do centro do debate.

Portugal está, nesse aspeto, longe de ser uma exceção. Basta olhar para a Europa para perceber que a Esquerda atravessa um ciclo difícil. Governos conservadores ou liberais multiplicam-se, a extrema-direita deixou de ser tabu e, em muitos países, passou a condicionar agendas políticas inteiras. Espanha ainda resiste com um governo de Esquerda, mas mesmo aí o domínio socialista é frágil, dependente de equilíbrios delicados e claramente em perda de fôlego. O vento europeu sopra da direita — e sopra com força.

É neste contexto que as eleições presidenciais ganham um peso particular. Com um Governo de Direita em funções, a escolha do Presidente da República deixa de ser apenas simbólica e passa a ser estratégica. O Presidente não governa, é certo, mas tem poderes reais: veta leis, dissolve parlamentos, influencia o clima político e, sobretudo, funciona como último garante da Constituição e do equilíbrio institucional.

Por isso, a ideia de eleger um Presidente de Esquerda não é um capricho ideológico. É, para mim e para muitos, uma necessidade democrática. Um contrapeso. Um travão quando for preciso travar, um moderador quando o discurso escalar para o excesso.

António José Seguro surge aqui como o único candidato com esse perfil dentro da Esquerda com hipóteses reais de disputar o jogo grande. Não entusiasma multidões, não domina redes sociais, não vive de frases bombásticas. Mas traz consigo algo que anda escasso: sentido de Estado, previsibilidade e cultura democrática. Num tempo de ruído permanente, isso pode ser visto como fraqueza — ou como uma virtude silenciosa.

O problema é que Seguro não corre sozinho… e a Esquerda também não sabe correr em bloco.

Do lado da Direita, a concorrência é forte e diversificada. André Ventura mobiliza um eleitorado revoltado, emocional, que não quer consensos nem moderação. João Cotrim Figueiredo fala para uma Direita liberal, urbana, confiante no mercado e cansada do Estado social. Luís Marques Mendes representa a Direita institucional, experiente, confortável no sistema e com enorme presença mediática. São perfis diferentes, mas que não se anulam. Pelo contrário, somam públicos.

Na Esquerda, acontece o oposto. As candidaturas multiplicam-se… e dividem. António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto representam correntes políticas legítimas, com história e identidade própria. Mas numa eleição presidencial — onde o voto é personalista e maioritário — estas candidaturas acabam por fragmentar um eleitorado já em retração.

E aqui é preciso dizê-lo sem rodeios, mesmo que incomode: a Catarina Martins que me desculpe, mas está a dar trunfos à Direita e a prejudicar a Esquerda. Tal como o António Filipe e o jovem de Amarante. Não está em causa a coerência ideológica de ninguém. Está em causa a eficácia política num momento crítico.

A Esquerda parece presa a um velho vício: prefere afirmar identidade do que ganhar poder real. Prefere marcar posição do que garantir influência institucional. O resultado é previsível — e repetido. Enquanto a Direita disputa o poder, a Esquerda discute quem tem a razão mais pura.

Num país governado à Direita, eleger também um Presidente de Direita significaria uma concentração ideológica perigosa nos principais órgãos de soberania. Mesmo para eleitores moderados, isso levanta dúvidas legítimas. Não sobre democracia formal, mas sobre pluralismo, equilíbrio e capacidade de contenção.

António José Seguro pode não ser carismático, mas pode ser útil. Pode ser o Presidente que não bloqueia por sistema, mas que não abdica de limites. Que não grita, mas não se cala. Que não radicaliza, mas não normaliza o inaceitável. Num tempo em que tudo parece extremo, isso pode fazer a diferença.

A pergunta final é simples — e incómoda: quer a Esquerda ganhar ou apenas existir? Quer equilibrar o sistema ou limitar-se a testemunhar a viragem à Direita com discursos corretos e derrotas previsíveis?

A sociedade portuguesa está, de facto, a virar à Direita. Isso não se combate com fragmentação nem com guerras internas. Combate-se com estratégia, leitura do momento histórico e capacidade de escolha. Porque, quando o pêndulo político vai todo para o mesmo lado, alguém tem de ter a coragem de segurar o centro — mesmo que isso não dê aplausos imediatos.

Nota: Esta crónica teve revisão editorial assistida por inteligência artificial.

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