Quando começa o outono, imaginamos desde logo as folhas das árvores a mudar de cor. Os caminhos começam a cobrir-se das folhas que caem e as árvores, pouco a pouco, vão ficando despidas. Mesmo que ainda faça sol, já começamos a prever as noites frias e a prepararmo-nos para elas. Os dias ficam mais pequenos e instala-se a ideia de que estamos a entrar na época das chuvas. Aparecem as nuvens mais escuras, regressa o som da água a escorrer pelos caleiros das nossas casas, as bordas das estradas ganham pequenos fios de água, os ribeiros aumentam o seu caudal e as represas voltam a encher. É sobre as represas que quero escrever nesta crónica.
As represas fazem parte de uma antiga relação entre as pessoas, a terra e a água. Noutros tempos, durante gerações, sobretudo no mundo rural, aprender a guardar e a conduzir a água foi essencial para garantir a rega dos campos. Nos sistemas tradicionais do Norte de Portugal, a água dos rios, ribeiros e nascentes era captada através de pequenos açudes e conduzida por levadas, simples, usando apenas a força da gravidade. Eram obras feitas pelas pessoas, recorrendo aos materiais que tinham ali à mão: pedra, madeira e terra.
Imaginem uma dessas represas antigas.
Um pequeno ribeiro que corre entre campos e a vegetação. A determinada altura, uma barreira de pedras atravessa parcialmente a corrente. A água deixa de correr com a mesma velocidade e começa a acumular-se. O nível sobe. Uma pequena comporta de madeira permite controlar a água e, ao lado, uma levada leva-a lentamente em direção a um moinho, um reservatório de água ou aos campos. Nas margens crescem plantas espontâneas. Ouvem-se rãs, insetos, pássaros e o correr da água que transborda o pequeno açude.
Foi precisamente nestes lugares que ficaram algumas das minhas melhores memórias de infância.
Durante as férias de verão, quando ia para casa da minha avó, de vez em quando fugia para o rio e para as represas. A minha preferida era a que ficava entre o Centro Paroquial de Sousela e a Escola do Bairral, hoje já não existe. Foi ali que vivi alguns dos momentos mais engraçados e também mais desafiantes da minha infância.
Lembro-me de fazermos canoas e jangadas com garrafões de lixívia, paus e muita fita-cola castanha.
Com duas estacas roubadas da horta da minha avó, passávamos cada uma pelas pegas de três ou quatro garrafões. Emparelhávamos as estacas, juntávamos os garrafões e prendíamos tudo com fita-cola castanha. Muita fita-cola! Para os remos, uma estaca e metade de um garrafão cortado de cima abaixo.
Duas estacas. Oito garrafões de lixívia. E tantos quantos rolos de fita-cola pudéssemos roubar da minha avó, que dobrava compressas e usava a fita-cola larga e castanha para fechar e selar as caixas de cartão para enviar para a fábrica do Neto!
E pronto, tínhamos um barco! Lá íamos nós, eu, com o meu irmão, ou com os meus primos, ou os vizinhos, para a represa. E a verdade é que a canoa flutuava!
O problema era durar. Passado pouco mais de uma hora, a fita-cola molhada começava a descolar-se. Primeiro soltava-se uma coisa, depois outra e, quando dávamos por ela, os garrafões já flutuavam sozinhos e as estacas andavam cada uma para seu lado.
Nós sabíamos perfeitamente que aquilo ia acontecer. Dava um trabalho enorme construir uma canoa para durar tão pouco tempo. Mas não interessava. Durante aquela hora tínhamos um barco, imaginávamo-nos uns ilustres marinheiros, exploradores e pescadores, prontos para navegar em águas profundas!
Sim, naquela altura, a ideia com que ficávamos é que as represas eram profundas… Hoje olho para aquela represa e sorrio. Na altura parecia-me enorme e funda. Hoje sei que, em muitos pontos, não deveria ter mais do que 50 centímetros!
Mas foi ali que também comecei a aprender a nadar. Saltávamos da margem para o meio da represa, sempre com algum cuidado por causa do lodo. Os pés enterravam-se naquela lama e parecia que alguma coisa nos sugava para baixo. E depois havia aquela sensação estranha de sentir coisas a mexer junto aos pés. Ou pelo menos nós achávamos que mexiam!
No fundo havia paus, pedras, lodo, muita lama e bichos. Mergulhar de cabeça? Nem pensar! Atirávamo-nos de pés ou fazíamos uma “bomba”. “Aí vai bomba!” E splash!
A água, que momentos antes estava relativamente limpa, ficava completamente turva. A terra e o lodo levantavam-se do fundo e deixávamos de ver fosse o que fosse.
Havia dias em que saía da água com sanguessugas agarradas à pele, alfaiates por perto, escaravelhos-de-água nos calções ou nas cuecas e aquelas moscas chatas que pareciam ficar de birra connosco: quanto mais as enxotávamos, mais queriam pousar e picar no corpo molhado.
Foi assim que aprendi a “nadar à cão”. Tal e qual! Pouco a pouco, tirava os pés do lodo —mais por medo dos bichos do que por vontade de aprender — e fazia aquele movimento que os cães fazem quando nadam. O importante era manter a cabeça de fora de água e tocar o menor número de vezes possível no fundo.
E assim, sem aulas, sem piscina e sem perceber muito bem como, fui conseguindo aguentar cada vez mais tempo a flutuar. Era muito fixe nadar à cão!
As represas eram também pequenos mundos de biodiversidade. Havia girinos, rãs, larvas de mosquito, alfaiates, barqueiros, escaravelhos-de-água, larvas de libélulas e libelinhas e muitos outros organismos que, naquela altura, eram simplesmente “bichos”. E havia ainda as temíveis cobras-de-água!
Naquela altura eram temíveis para nós, claro. Hoje sei que aquelas cobras, coitadas, provavelmente tinham muito mais razões para fugir de nós do que nós delas.
E havia outras represas. Em Covas, perto da igreja, existia uma que para nós já parecia um verdadeiro tanque: maior, mais funda e com menos lodo. Ali já dava para fazer mergulhos de cambalhota, e mortais para dentro de água. Na Quinta de Lourosa havia outra grande, mas essa evitávamos. A água chegava diretamente da mina e era tão fria que nos fazia pensar duas vezes antes de ir para lá.
Mas as represas não pertenciam apenas às brincadeiras das crianças. E eu tinha essa noção. Eram lugares de trabalho.
Serviam para armazenar e distribuir água para a rega dos campos, eram obras de engenharia e arquitetura rural simples, mas extraordinariamente eficientes.
O Projeto MUNHOS inventariou 140 açudes no concelho de Lousada e identificou 216 levadas. Dos açudes caracterizados, 65% utilizavam exclusivamente granito, testemunhando soluções concebidas para aproveitar o desnível natural do terreno e a força da gravidade.”
E algumas represas eram também lugares onde as mulheres lavavam a roupa.
Há uma, muito pequenina, no lugar de Eira Vedra, que ainda hoje gosto particularmente de visitar. Tem a sua levada, um pequeno e rústico açude, uma comporta de madeira que permite controlar o volume da água e uma bonita laje de pedra utilizada para lavar roupa. Há ainda um arame preso entre os esteios de uma ramada e já ali vi roupa estendida.
Já levei o meu filho a conhecer aquele lugar. Queria que ele visse aquilo que eu vejo: não apenas pedras, água e uma construção velha, mas um testemunho de uma forma de viver e de uma relação com a água que marcou várias gerações.
Talvez por isso, quando hoje encontro uma represa antiga, gosto de parar. Observo a construção, a engenharia, a arquitetura e a paisagem. Escuto a água. Reparo nos cheiros característicos destes ambientes e no tipo de vegetação. Procuro perceber de onde vem a levada, para onde segue a água, onde estaria a comporta, quem a utilizaria.
E faço quase sempre a mesma pergunta: Como seria este espaço naquele tempo?
As lições que aprendi nas represas foram muitas. Aprendi a conhecer a biodiversidade e o nome de alguns animais e plantas. Aprendi a respeitar aqueles reservatórios de água que eram essenciais para regar os campos dos lavradores. Aprendi a ultrapassar medos e a desafiar-me. Aprendi a nadar. Aprendi a construir barcos com garrafões de lixívia e jangadas com paus encastelados uns em cima dos outros. Aprendi a brincar com os meus amigos. Aprendi a lidar com frustrações, expectativas, receios e ansiedades. E, sobretudo, aprendi a ser feliz com muito pouco.
Talvez seja por isso que hoje não consigo olhar para uma represa apenas como um reservatório de água.
Uma represa é água para os campos. É trabalho e esforço dos agricultores. É o encontro das lavadeiras. É brincadeira de crianças. É habitat para plantas e animais. É engenharia popular. É paisagem. É memória.
E talvez seja também um dos exemplos mais simples daquilo que procuro contar nesta Saga Património e Natureza.
Porque construir uma represa foi encontrar uma maneira de satisfazer uma necessidade humana aproveitando aquilo que a natureza oferecia. O Homem reteve e conduziu a água para garantir a sua subsistência e, nesse mesmo espaço, criou novas condições para a presença de vida.
Uma espécie de simbiose perfeita entre o Homem e a Natureza.
É por isso que, quando hoje me sento junto de uma represa e me deixo envolver pelo som da água, pelo tempo e pelo espaço, não vejo apenas aquilo que está à minha frente. Vejo e imagino também aquilo que já lá aconteceu. Porque, para mim, uma represa é uma sala de aula ao ar livre.
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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