O jornal O Louzadense começa nesta edição a destacar pessoas e factos de Lousada, de há 50 anos, que fizeram parte da caminhada de luta pela democracia, que culminaria na revolução de 25 de Abril de 1974. Chamamos a este trabalho de longa duração “Abril Louzadense” e contará com realizações de vária ordem, para fazer perdurar a memória sobre atos e gentes em prol da liberdade e democracia. Um desses eventos foi um célebre comício da oposição democrática ao regime fascista, que aconteceu em 24 de outubro de 1973, no salão dos Bombeiros Voluntários de Lousada.

A resistência ao fascismo fez-se sentir em Lousada através de uma minoria clandestina, mas muito ativa. Essa minoria foi crescendo e o célebre comício do Movimento Democrático Português, em 24 de outubro de 1973, no salão dos Bombeiros de Lousada, a abarrotar de gente, foi um marco histórico da luta contra o antigo regime, pelos bons e maus motivos.
Na génese desse comício esteve o Movimento Democrático Português (que englobava vários partidos clandestinos e tendências ideológicas, onde o PCP era uma das principais forças). Foi uma das mais importantes organizações políticas da oposição ao regime do Estado Novo em Portugal até ao 25 de Abril de 1974. O MDP foi fundado em 1969, atuando através de comissões democráticas eleitorais para concorrer às eleições legislativas, que o governo totalitário de Marcelo Caetano prometera realizar para a Assembleia Nacional.
Uma dessas comissões eleitorais reuniu no dito comício em Lousada, facto raro no interior do país, pois tais eventos tinham sobretudo palco nas grandes cidades. Por ser uma novidade, as autoridades estiveram mais atentas a este passo do MDP e destacaram para Lousada um forte contingente policial, vindo do Porto, para intimidar a participação popular. “Na praça em frente aos Bombeiros instalou-se um forte contingente de carros militares e até metralhadoras tinham”, recorda Jorge Mário Bessa, filho de Clemente Ribeiro de Bessa (1915-2000), que foi um importante opositor do antigo regime.

Pai e filho estiveram naquele comício da oposição democrática e presenciaram a brutalidade com que os militares da GNR do Porto carregaram sobre os populares que se deslocaram ao salão dos Bombeiros Voluntários de Lousada. “O salão estava cheio, o que me agradou particularmente porque fui dos que mais batalhou na distribuição dos panfletos nos dias anteriores. Percorri muitas freguesias e muita gente negava-se a pegar nos papeis, por receio de represálias e por ir contra a Igreja, que defendia o regime”, diz o engenheiro Jorge Mário Bessa. Este revela que foi um trabalho quase clandestino, porque apesar de ser um comício autorizado, mediante certas condições, havia muitas restrições das autoridades e desconfiança da população mais tradicional e iletrada, que predominava em Lousada. Em Meinedo, no café junto ao apeadeiro foi dos poucos sítios onde acolheram os panfletos com muito agrado”, recorda.
O comício estava marcado para as 22 horas. Porém, atrasou-se meia hora. Na mesa, entre outros, estiveram os lousadenses Arnaldo Mesquita e Clemente Bessa, acompanhados pelo médico portuense Cassiano de Abreu e Lima. Na fila da frente marcaram presença, entre habituais infiltrados da PIDE, vários democratas como o metalúrgico sindicalista António da Silva Mota e Berta Pereira Granja, a única mulher da lista do MDP concorrente à Assembleia Nacional.
“Não posso precisar com toda a certeza, mas sei que dois grandes combatentes contra o antigo regime em Lousada, Rui Feijó e o Dr Abílio Alves Moreira não estiveram presentes, mas, se não me falha a memória, esteve lá o irmão deste último, o Antero, que foi igualmente um destemido e valoroso promotor dos ideais democráticos”, declara Jorge Bessa.
“Fugirmos às bastonadas e coronhadas”
A sessão começou com os temas do costume: a carestia da vida, a horrenda Guerra Colonial, a liberdade de imprensa e a necessidade de mudança de rumo político. O tom do discurso não poupou a GNR que pretendia intimidar os presentes.

O sindicalista António da Silva Mota, que viria a ser deputado (pelo PCP) após o 25 de Abril, durante 12 legislaturas, tinha na altura 35 anos. Na sua casa, na Areosa (Porto) recorda esse comício com uma mistura de sentimentos: “por um lado sentimos orgulho por fazer um comício tão concorrido, numa terra do interior do distrito, em Lousada, e com isso passamos as nossas mensagens e incomodamos o sistema fascista, que mobilizou muitos militares e meios para nos intimidar e bater, houve até quem passasse muito mal, o que não foi o meu caso, pois recordo-me de alguém dos bombeiros ter aberto uma porta que serviu de escapatória para o Arnaldo Mesquita, eu e outros fugirmos às bastonadas e coronhadas”.
Outra que escapou ilesa foi a portuense Berta Pereira Granja, a jovem (de 24 anos) assistente social candidata do MDP: “eu tenho poucas recordações, mas lembro-me bem das tentativas dos infiltrados da PIDE no comício para impedir que se falasse na guerra colonial, mas não conseguiam calar tão importante tema, sobretudo quando era o Arnaldo Mesquita, tão adorado por todos nós, quem usava da palavra no seu estilo pujante e imparável”. Isso foi visto pelas forças da ordem como provocação e a gota de água viria a seguir.

Tudo se precipitou quando chegou a meia-noite e o responsável distrital da GNR deu ordens para que toda a gente se retirasse. Nesse momento, Arnaldo Mesquita tentou argumentar que deveriam dar tolerância, já que o comício havia começado meia-hora mais tarde. “Assim não o entendeu o oficial que mandou invadir a sala”, relatou o República, o único jornal que falou sobre o assunto.
“O cabo Monteiro, que era comandante da GNR de Lousada, estava lá à civil e até ele apanhou, porque os do Porto não sabiam quem ele era”, relata o antigo profissional de padaria, Francisco Peixoto Xavier.
Várias dezenas de militares que tinham barricado quase todas as saídas, espancaram as pessoas que tentavam fugir apavoradas. Há relatos de óculos partidos, calçado deixado para trás e roupas rasgadas. Mas também de muitos gritos e sangue, cabeças partidas, pânico e correrias desenfreadas.
“O meu pai, o farmacêutico Manuel Videira da Cunha, foi subitamente abordado por dois feridos desse comício, que lhe apareceram na Farmácia Fonseca depois da meia-noite, pedindo para lhes tratar dos ferimentos. Apercebendo-se da gravidade das feridas, o meu pai recomendou que fossem ao hospital, pois precisavam de ser suturados, mas um terceiro indivíduo, empunhando uma arma, exigiu que fossem feitos os curativos, pois diziam que no hospital estaria a GNR à procura deles. O meu pai lá os cozeu e eles no fim agradeceram muito”, recorda a filha, Manuel Magalhães Videira.
Um dos oradores da noite, o médico portuense Cassiano de Abreu e Lima, aborda estas ocorrências no livro “40 Vidas por Abril”, de 2015, revelando que no dia anterior ao comício tinha estado em Lousada com camaradas para ajudar na distribuição de panfletos e houve até quem pintasse “abaixo a ditadura” numa parede na praça do município, o que motivou uma ida ao posto da GNR. Naquele livro refere que, após o comício, ele próprio acudiu a pessoas feridas, tendo suturado algumas delas na via pública.
Mulher grávida foi hospitalizada
De Santa Eulália da Ordem foi ao comício Maria de Lurdes Alves, que estava grávida, mas não foi poupada pelos agressores e teve que ser transportada para o Porto. Algumas pessoas perderam os sapatos e correram descalças até casa. Houve um miúdo que se escondeu dentro de uma barrica de sulfato. Soubemos, entretanto, que se tratou de Agostinho Teixeira Ribeiro, atualmente a viver no Luxemburgo. Diz este emigrante que “foi um momento marcante da minha vida e da minha geração. Estive lá e assisti a tudo. Lembro-me de ver lá o Manel Rei (Manuel Afonso da Silva, fundador do jornal TVS), o Agostinho Mota, da padaria, o Arménio Novais, o Jorge Mário Bessa, o Augusto Teixeira “Marreta”. Mas é bom que se note que o cabo Monteiro nesse dia tinha-nos avisado que ia haver problemas. Nós todos fugimos a bom fugir quando se deu a invasão da GNR”.
Descreve Jorge Mário Bessa que “estava encostado às bilheteiras do cinema dos bombeiros e vi os GNR’s a entrar e a distribuir pancada com cassetetes e eu consegui sair de forma caricata porque caí e fui de gatas por entre as pernas das pessoas que estavam a levar porrada e a minha felicidade foi já fora dos bombeiros virei para o lado do Tojeiro e corri desalmadamente para longe dali. Mas quando parei só pensava no meu pai. Ele tinha ficado lá e eu estava preocupado. Felizmente ninguém incomodou o meu pai nem as pessoas que tinham estado na mesa”. Supostamente, segundo o jornal A República da época, houve ordens superiores para não bater nas pessoas mais importantes do evento.
Nas próximas edições desta iniciativa ABRIL LOUZADENSE mais será revelado sobre este comício histórico, assim como os eventos que o antecederam nas décadas de 1950 e 1960 e os que se seguiram, até ao 25 de Abril de 1974, não esquecendo o período após a revolução e implantação da democracia em Portugal.














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