Constituindo-se como um texto crítico sob a forma de diálogo, o texto de Oscar Wilde, O Declínio da Mentira, compõe-se de uma atitude profundamente irónica, através da personagem Viviam que apresenta a Cyril – figura que serve no corpo da história para a interpelar, ajudando o outro a escavar dentro das suas reflexões os argumentos que a sustentam – o modo como Arte, Natureza e Vida se relacionam. Viviam defende, num artigo corrosivo com o título “O Declínio da Mentira: Um Protesto”, que a literatura do seu tempo (século XIX) vive uma das suas maiores quedas – a desvalorização da Mentira como arte, ciência e prazer social. São dele as palavras reveladoras dessa verdadeira desolação: «Os historiadores antigos davam-nos sob a forma de factos uma ficção deliciosa; o romancista moderno apresenta-nos factos insípidos disfarçados de ficção» (Oscar Wilde). Deste modo, à personagem, parece-lhe fatal a cedência aos hábitos da exatidão, e o modo como se começa a escrever romances que se assemelham de tal modo com a vida que se torna inaceitável a sua credibilidade. Consequentemente, assegura ele, «se não se puder fazer alguma coisa para contrariar, ou pelo menos modificar, o nosso monstruoso culto dos factos, a Arte tornar-se-á estéril e a beleza desaparecerá da terra» (Oscar Wilde, p.18). Atentemos num excerto do texto de Oscar Wilde: «As únicas pessoas reais são as pessoas que nunca existiram, e se um romancista se degrada ao ponto de extrair da vida os seus personagens, deve pelo menos fingir que são criações, e não orgulhar-se da sua condição de cópias. […]» (p. 21). O que se salienta neste trecho pela voz da personagem Viviam, é que as circunstâncias imediatas do que nos rodeia não são Arte. «Passar da arte de um tempo a esse mesmo tempo é o grande erro que todos os historiadores cometem» – entende Oscar Wilde.
A Arte ultrapassa, portanto, a sua época e, estando à sua frente, precisará do juízo do futuro para vir a ser fruída e entendida. De um modo ou de outro, «a Vida imita a Arte, muito mais do que a Arte imita a Vida» (Oscar Wilde, p.49). A Arte, a Literatura, os espaços imaginados, vivem de uma inscrição numa «ordem e num tempo, e [ajudam-nos] a pensar sobre o significado dos nossos passos na terra» (Jorge, 2013: 14).













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