COMO ESTÁ O COMÉRCIO EM LOUSADA? – “Os processos de transformação aplicados a lugares de representação no tempo”
Refletir acerca dos processos de transformação do território leva-nos a apoiar ou contrariar as dinâmicas instaladas ou previstas. Esta ideia prende-se a um cenário de enorme complexidade e de múltiplas perspetivas. Assiste-se com frequência a grandes intervenções e que nos leva a questionar quanto à eficácia na aplicação dos instrumentos de regulação urbanística. No sentido de melhor compreender e interpretar a coerência dos traçados reguladores, sabemos hoje que uma intervenção pode ter significados que ultrapassam a premência da sua construção. Por isso talvez já não interesse apenas a mera regulação das intervenções, mas acima de tudo novas abordagens, as quais poderão passar pela reconfiguração da rede de atores envolvidos, apoiando assim um modelo de gestão urbanística mais interventivo e, sobretudo, mais acessível.
Potenciar relações de proximidade poderá passar por esta atitude, num processo de verdadeira auscultação local, na tradução de elementos identitários, de desenho, proporção e escala. Luís Cunha fazia planos com a arquitetura para garantir a exequibilidade. E ele deu esse passo, o da flexibilidade. Mais importante do que os factos urbanos em si, será, indubitavelmente, os factos urbanos entre si. E esta relação jamais poderá perder-se. Ela concentra informação, revela as leituras imagéticas que os lugares apresentam, paradigmas e lapsos da sua compreensão.
É importante demonstrar a unidade na diversidade que emerge na interpretação de cada um dos lugares. Em face da estrutura simbólica ou icónica, das constantes de arquitetura, a matriz herdada é inesgotável na sua significação, sob pena de anular o carácter identitário dos lugares. E, portanto, ela terá de refletir os modelos propostos; o meio é a mensagem, pelo que o desenho terá de acompanhar o discurso não como ideia de suporte, mas sim da própria composição da estrutura.
Não menos importante será a dimensão imaterial do território e tudo o que ela comporta. Está pouco presente. E deve ser tratada como o projeto, o futuro, o processo. Parece evidente que teremos de encontrar ferramentas diferentes, aplicáveis às dissonâncias do território. Necessário atribuir uma certa dimensão tácita; o conhecimento objetivado para responder a questões de interpretação, tal como dizia Sola Morales. Análises impressivas: ir ao local, atribuir sentido à programação e às intervenções mais estruturado, alicerçado numa lógica abrangente e menos fragmentada. Este é o papel do arquiteto.
Há dias comentavam comigo a propósito da denominada “Rua Direita”, ou “Rua Central”, tidas como eixos originários da Vila de Lousada e conhecidos pela sua importância no contexto do comércio de rua. Diziam que “perdeu centralidade, identidade e importância comercial”… E assim começa a espoletar o interesse corporativo com a participação ativa dos munícipes, contribuindo de uma forma decisiva para a construção de uma visão partilhada de futuro, viabilizando relações de proximidade. Intervir num eixo fundamental fortemente conectado à memória colectiva e alicerçado no comércio de rua leva a questionar as “novas centralidades”.
«Os centros já não são históricos e os centros históricos já não são centros», palavras citadas por um colega na faculdade e que não consigo lembrar-me do autor. Mas que refletem a realidade circundante. Temos hoje uma localidade com mais urbanização e, porventura, com zonas de comércio substancialmente maiores – em área e número – fruto da edificação em massa que temos vindo a assistir.
A leitura de André Corboz a partir da publicação intitulada ‘El Territorio como Palimpsesto’, quando escreve que “o território é o resultado de vários processos”, amplia a ideia de que as mais variadas leituras da chamada ‘cidade herdada’ vão ditando as posições de quem procura fundamentar os processos de renovação, conservação ou revitalização.
É necessária uma visão estrutural dos problemas urbanos para que estes se transformem em soluções simples e de fácil resolução. Das relações de tempo e espaço resultam fenómenos que acabam por dificultar imaginar o acontecimento sem a referência ao lugar. Aprendendo a interpretar aqueles fenómenos vamos adquirindo saberes que muitas vezes informam a memória e que permitirá a evolução das operações a executar. Trata-se do processo de apropriação e de adaptações simbólicas que procuram não mais do que estimular a criatividade e concorrer com a valorização do património, fruto da memória e da partilha colectiva.













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