por | 18 Mai, 2025 | Espaço Cidadania, Sociedade

Um Beneditino de corpo e alma

FREI FERNANDO CASTRO BORGES NETO

Há um lousadense na antiquíssima irmandade dos Monges Beneditinos, em Singeverga, na freguesia de Roriz, do concelho de Santo Tirso. Muito dirão “Ah, aquela ordem de monges que faz um licor delicioso!”. Sim, de facto é essa. Assim como as freiras de Arouca desenvolveram a doçaria conventual, os monges beneditinos de Singeverga dedicaram-se ao licor monástico. O mosteiro foi um colégio muito conceituado no século XX e ali estudaram várias gerações de alunos, entre os quais inúmeros lousadenses. Nos recursos humanos do mosteiro há ainda hoje um cidadão oriundo de Lousada que hoje evocamos nesta página.

Natural de Silvares, onde nasceu há 85 anos, Fernando Castro Borges Neto, filho de José Borges da Silva Neto, natural de Silvares, Lousada e de Arminda da Conceição Castro Borges, natural de Vilar de Andorinho, Vila Nova de Gaia, foi o sétimo filho na ordem de filiação de dez irmãos, entre os quais Maria José Castro Borges Neto, viúva de um antigo líder do CDS de Lousada, Joaquim Couto dos Reis, da Casa da Bouça.
Tratado pelo prefixo Irmão ou Frei, Fernando é um Monge Beneditino não sacerdote, membro da “Província Portuguesa da Ordem Beneditina”. A avançada idade, associada à cegueira total de que padece, juntamente com alguma debilidade da condição física, não permitiram a entrevista que desejávamos fazer-lhe. Estivemos à fala com ele por telefone num destes dias e mantém o espírito jovial e ativo que lhe é reconhecido. A audição foi recuperada, para sua alegria, graças a um aparelho moderno quase invisível, que agora existe. Mas a visão, essa a ciência não lhe consegue devolver. Está a iniciar tratamentos para debelar um problema de saúde que o acometeu. Talvez depois disso possamos realizar a tão desejada entrevista.

Para já, socorremos-nos de uma biografia que gentilmente nos foi cedida por pessoa amiga, para extrair um resumo da inusitada carreira eclesiástica e do testemunho de cidadania de Frei Fernando.

Comecemos pelos estudos primários: frequentou a Escola de Silvares, junto aos Bombeiros, de 1947 a 1952, concluindo com aprovação o exame da quarta classe, feito na Escola de Cristelos, no dia 23 de Julho de 1952. Em Agosto de 1952 foi submetido ao exame de Admissão na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, tendo sido aprovado e admitido, com 12 anos de idade.

No dia 13 de Novembro de 1956, Festa de Todos os Santos da Ordem Beneditina, recebeu pela primeira vez o hábito de São Bento. No dia 23 de Julho de 1959, emitiu os seus primeiros votos, já na Igreja do Mosteiro Novo, perante o nosso Abade D. Gabriel de Sousa, que o admitiu na Comunidade como Professo. No dia 24 de Julho de 1962, após 3 anos de experiência, Fernando Borges Neto fez os seus votos Perpétuos na Igreja de São Bento de Singeverga.

Frei Fernando fez o recenseamento militar na freguesia de Roriz, Santo Tirso, em 1960. Concluída a formação monástica, com a Profissão Solene, foi recrutado e incorporado no Serviço de Armas e na Classe “Tropa sem instrução”, depois de ter jurado bandeira, no dia 26 de Janeiro de 1963, no tribunal militar do Porto, situado, nessa altura, no Mosteiro de S Bento da Vitória (Rua das Taipas), ficando assim incorporado definitivamente como “reservista”.

ENVIADO PARA AS MISSÕES

Em Agosto de 1963, o Irmão Fernando foi convidado e posteriormente enviado para as Missões beneditinas em Moxico, Angola, como o 61º missionário da Comunidade, para acompanhar D. Francisco Esteves Dias, monge beneditino daquele mosteiro, nomeado primeiro bispo da recém criada Diocese do Luso, distrito do Moxico, Província de Angola.
No dia 23 de Outubro de 1963, o Irmão Fernando fez a sua despedida litúrgica na Igreja de S. Bento de Singeverga, à hora de Vésperas, a quem lhe foi imposta a Cruz Missionária pelas mãos do D. Abade D. Gabriel de Sousa, como enviado da Comunidade.
No dia 29 de Novembro de 1963, o Ir. Fernando parte de Singeverga para Lisboa e embarca para Angola no dia 5 de Dezembro no paquete “Príncipe Perfeito” e chega a Luanda no dia 15 de Dezembro e cinco dias depois seguiu de comboio no Caminho de Ferro de Benguela, em direção ao Luso. Estabeleceu-se na residência episcopal e tomou a seu cargo trabalhos na Secretaria, no jornal O Moxico, na Cáritas Diocesana, entre muitas outras ocupações.

Uma retinitine pigmentária atacou-o fortemente, provocando-lhe perda progressiva da visão, até à cegueira total. Regressou a Portugal e a Singeverga a 12 de fevereiro de 1979, onde se encontra. O seu percurso faz inteiramente jus à Ordem dos Beneditinos, ou Ordem de São Bento, que é conhecida pela sua contribuição para a cultura, educação e economia.


Frei Fernando com 85 anos, totalmente cego.

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