“Rasgar o Desemprego, a acumulação de Cargos e o Capitalismo”

Opinião de Assunção Neto

O capitalismo está eticamente nu. Sendo ele representativo de valores, o que efetivamente comporta em termos de valor(es) para a sociedade, para o Outro? Coberto maioritariamente pelo Eu (Indivíduo/Empresa).

Para rasgar eticamente o capitalismo e promover a dignidade no trabalho em prol de uma sociedade mais justa, precisamos de repensar teorias e práticas de gestão, assentando-as na mutualidade e no sentido dos deveres e da centralidade no Outro.

Temos alicerçado a defesa do statu quo no argumento meritocrático, mas a igualdade de oportunidades, que faça jus a esse ideal, é uma miragem para muitos. O equilíbrio competição-colaboração tem dado lugar a um excesso de competição, que abandona à sua sorte amplas franjas da população, sem condições para afirmarem o seu mérito.

Assim, faz emergir, a discussão sobre o salário mínimo, necessário, mas irrelevante para muitos. Muitos empresários e gestores reconhecem que o salário mínimo nacional é exíguo, mas remetem a resolução do problema para o aumento da produtividade. Porque não se usa o argumento justificativo das remunerações dos executivos? Subir salários para motivar pessoas e aumentar a produtividade. Mostrar sensibilidade social, sem adotar ações corretivas concretas, é ilusório e alimenta narrativas de responsabilidade social. Porém, aquém de resolver um problema humano crítico, sombrio, avolumado pela pandemia, a indignidade da vida de quem tem que se sustentar com salários ausentes de valores dignos.

O reflexo do atributo de valores mínimos é sustentado, em parte, por quem nada faz e nada quer fazer, mas também daqueles cuja luta persiste e não obtém resposta, a esses o papel do Estado deixa no agregado familiar para fazer jus à resposta que deveria ser do Estado. Com este acrescer da pandemia, há um incremento acentuado de despedimentos e de alocação de questões socias diversas de cariz negativo. A incerteza da viabilidade económica de muitas empresas levou muitos para o desemprego, por razões diversas, por incapacidade de resposta financeira, por incapacidade de desenhar alternativas, pelo fim de si mesma, sem soluções de reporte presente, porém outras enriquecem significativamente. E estas andam escondidas, não tendo resposta para a população desempregada. Quem suporta a riqueza ou o capital gerado sem fundamento e sem fim à vista? Ninguém quer ver, ou tudo passa ao lado, sem deveras ações precisas.

Os argumentos usados para defender tais práticas são, alegadamente, repletos de racionalidade económica, mas não deixam de ser desprezíveis. Qual o propósito da racionalidade económica? Tem em vista o salário em função da produtividade, o emprego em função da necessidade, a empregabilidade em função das competências/habilidades. A oferta é insuficiente, o motor da economia não produz, não busca soluções? Os resultados e os lucros, são para investir, ou de reporte à empregabilidade ao capital pessoal? Ninguém pensa, ninguém quer pensar, é difícil soluções, creio que mais difícil são decisões que remetem ao “corte” do Eu. Talvez esta última tenha mais força.

A resposta não precisa de ser procurada, é encontrada entre executivos que acumulam cargos, em profissões de ordem tal, em regalias infinitas. Porquê a existência destes, porquê a ausência de um patamar de acumulação de cargos em prol de valores salariais limites. Este e outros impedem a empregabilidade de alguns e provavelmente de justos empreg(ad)os. Que critérios são tidos em conta? Seremos uns mais iguais do que outros?

Do que precisamos é de estabelecer, com equilíbrio, um chão mais justo. De apurar o nosso sentido de justiça, equidade. Hoje, mais do que nunca!

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