As histórias da liberdade

25 de Abril de 1974. De madrugada com cravos na mão. Os portugueses desejavam que o país voltasse a uma democracia, com eleições e liberdade. E conseguiram. Por todo o país, os capitães de abril derrubaram a ditadura que durante 48 anos oprimiu, na sua maioria, a população. Passados 47 anos, continuará abril a ter o mesmo significado? 

Ao som de Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, foi através da rádio que, naquela noite, ao ocupar os estúdios da Rádio Clube Português, o Movimento das Forças Armadas (MFA) explicou à população que pretendiam que o país fosse de novo uma democracia, com eleições e liberdade de toda a ordem.

Formação de partidos políticos, poder de voto, inclusive as mulheres, os mesmos direitos para todos, liberdade de expressão sem polícia política, salário mínimo nacional, imprensa livre e fim da Guerra Colonial: foram as mudanças imediatas que a Revolução dos Cravos trouxe a Portugal. 

Com tudo isso, a Revolução dos Cravos pôs fim ao isolacionismo a que Portugal estava sujeito há já vários anos e ajudou ao nascimento de novos países independentes. Constituindo-se o movimento pioneiro de transformações democráticas em todo o mundo e demonstrando que as Forças Armadas não estão condenadas a ser um instrumento de opressão, podendo, pelo contrário, ser um elemento libertador dos povos.

Em 1950, nascia Joaquim Oliveira que, com 21 anos viria a fazer parte do Regimento de Paraquedista de Tancos. Em 1971, com a 4.ª classe, foi escolhido para ser treinador de cães de guerra da raça Pastor Alemão e foi mobilizado para a Guiné onde, com os seus cães, fazia a ronda ao Palácio onde residia o General António de Spínola. 

“Era uma vida muito difícil para os pais ver os filhos partir. Houve muitos pais que perderam filhos e filhos que perderam pais.” – Joaquim Oliveira 

“Os pais criavam os filhos e sabiam que quando tivessem 20 anos que iam para a Guerra, sem saber o que iam fazer. Só sabíamos que nos mandavam para lá. Era uma vida muito difícil para os pais ver os filhos partir. Houve muitos pais que perderam filhos e filhos que perderam pais. Quando chegou a minha vez também fui para as tropas especiais de paraquedistas. Passado um ano de estar na tropa na metrópole, fui para a Guiné”, recorda o ex-militar. 

Joaquim Oliveira

Enquanto esteve na Guiné, a partir de 1972, recorda, “assistíamos a coisas horríveis, como a morte de muitos colegas nossos. Antes de se dar o 25 de abril regressei à metrópole, porque o meu trabalho na Guiné era fazer segurança ao Governador António de Spínola. Como já havia os preparativos para se fazer o 25 de abril o general foi mandado regressar a Lisboa e eu também vim. A minha missão era aquela. Regressei ao meu quartel, mas estava longe de saber que se preparava um 25 de abril. Até que aconteceu”. 

Nesse dia, os militares “ficaram contentes, porque sabiam que, pelo menos, a Guerra ia acabar. A revolução foi feita por militares, porque estavam cansados de guerra, de morrer, de ver morrer. Foi um dia de festa para nós”, lembra. 

“As tropas reuniram-se todas e chegaram ao consenso de ir para o Quartel do Carmo, onde supostamente estava Marcello Caetano, que teve de se refugiar, e vários militares do país tomaram o quartel e Marcello teve de se render. A minha função na revolução começa aí: a minha função foi ir para o aeroporto para fazer revistar todos os aviões que chegavam do estrangeiro. Havia sempre o medo que houvesse um ataque”, relata. 

A primeira missão foi soltar os presos políticos “que já estavam presos há muito tempo”, explica, acrescentando que “eram coisas que nós, militares, nem sabíamos, porque eramos militares só durante três anos, depois vínhamos embora. Era um regime muito fechado e nem nos apercebíamos de muitas atrocidades que se faziam”. 

O Governo seguinte decidiu levar o ex-primeiro ministro, Marcello Caetano, para a Madeira, para evitar que fosse atacado. “A mim calhou-me ir fazer segurança e levá-los à Madeira. Levamos o primeiro-ministro e mais três ou quatro ministros”, testemunha.  

Joaquim Oliveira fez segurança na prisão de Caxias, onde estavam a soltar os presos políticos e ajudou a fazer buscas às instalações da PIDE e à Legião Portuguesa, onde eram apreendidos documentos pelos chefes militares. Em junho de 1974 terminou o seu serviço militar e regressou a casa. 

“Os ideais de abril eram: mais trabalho, mais educação e mais formação, mas ainda não temos tudo.” – Joaquim Oliveira  

“As nossas condições, os horários de trabalho e os salários começaram a melhorar, as mulheres passaram a ter direitos, eram colocadas de lado e não votavam. Hoje as mulheres já têm lugares de topo, principalmente em Portugal mudou significativamente. Quando aconteceu a revolução nem sabiamos se era bom ou se era mau. Sabiamos que era bom, porque não iamos mais para a Guerra, mas estavamos numa incerteza”, conta. 

As mudanças aconteceram mais significativamente na vida civil. “Éramos um país muito triste, pobre. O 25 de abril foi feito para muito mais do que isto que estamos a viver. Hoje tinhamos de estar muito melhor economicamente. Mas estamos mais alegres. Os ideiais de abril eram: mais trabalho, mais educação e mais formação, mas ainda não temos tudo”, garante. 

Entre a ditadura e a democracia

Paulo Gonçalves é perito avaliador, nasceu a 25 de abril de 1968 e pouco se lembra daquele anos. “Do dia concreto, não tenho uma imagem muito definida, recordo-me de, com o meu avô, sairmos de casa para viver algum alvoroço que havia junto à Câmara. Teria seis anos à época”, testemunha. 

Paulo Gonçalves

“Andaria na escola primária e lembro-me que Lousada era uma vila muito pobre, vivia à base da agricultura. Não vivi intensamente esse dia, mas tive o privilégio de fazer parte de uma geração que lucrou com esta revolução que, acima de tudo, nos trouxe liberdade e democracia”, refere. 

Desses tempos, Paulo Gonçalves recorda alguns aspetos como “haver uma fotografia na escola de alguém que não consigo definir de quem seria, de haver regras muito rígidas em relação ao estar na escola. Depois fui estudar para um colégio interno e essas regras que se viviam na escola pública ainda se aplicavam no colégio”. 

“A liberdade e a democracia também trazem responsabilidade. Foi uma grande vitória que nunca mais podemos perder.” – Paulo Gonçalves 

“O que o 25 de abril representa na sua essência é um sonho que nunca mais pode ser perdido. Foi uma conquista que todos nós tivemos e que todas as gerações vão lucrar com o que ele nos trouxe, incluindo todas as responsibilidades que isso nos traz. A liberdade e a democracia também trazem responsabilidade. Foi uma grande vitória que nunca mais podemos perder”, menciona. 

E acrescenta: “parece uma coisa que aconteceu há muito tempo, mas só foi há 47 anos. É importante que tenhamos sempre presente todos estes beneficios que a revolução nos trouxe. Tudo aquilo que ganhamos e que hoje podemos usufruir é uma conquista que ainda se vem fazendo”. 

Utilizando a expressão “25 de abril, Sempre”, Paulo Gonçalves explica: “este sempre é no sentido de dizer sempre à liberdade, sempre às conquistas que tivemos, sempre à democracia, que nos traz estas coisas boas de vivermos numa vila fantástica, de sermos muito boa gente”. 

“Uma conquista que foi muito importante, que ainda hoje se luta por isso, é a igualdade de género, antes não existia. Em 1 000 pessoas havia uma médica e uma advogada. O facto de podermos usufruir da vida naturalmente, de podermos circular livremente, não termos restrições, não termos recolher obrigatório. O que passamos agora com a pandemia, que nos retiram um pouco da nossa liberdade, mas claro que por outras razões”, revela. 

As lembranças imediatamente após a revolução 

Hugo Santos, diretor técnico da Federação Portuguesa de Hóquei, nasceu a 25 de abril de 1979. A Revolução dos Cravos tinha acontecido recentemente e as mudanças ainda não eram significativas. Não tendo vivido a época anterior à revolução, afirma que “é uma data muito especial, sempre foi uma data que tenho memórias desde criança de se festejar esta data em Lousada”. 

“A nível familiar, tenho a história de vida do meu pai que esteve na Guerra do Ultramar e que nessa altura estava no hospital por ter sido atingido por um tiro em Angola. Viveu essa revolução com mais revolta, estava contrariado, como todos, que ninguém quer ir para a Guerra”, conta. 

Hugo Santos

Acrescenta, ainda, que são diversas as lembranças do seu avô materno, “que fazia questão de dizer-me que os foguetes e a banda que iam tocar em frente à Câmara eram para mim, porque fazia anos. Trazia-me sempre um cravo e isto são recordações que me dizem muito” . 

“É sempre um orgulho ter nascido no dia 25 de abril e acho que isso também faz de mim um revolucionário.” – Hugo Santos 

“É uma data bastante marcante. É sempre um orgulho ter nascido no dia 25 de abril e acho que isso também faz de mim um revolucionário, que acho que sou. E é cada vez mais importante continuar a celebrar esta data. E acho que precisavamos de uma revolução cívica, porque estamos numa pandemia e grande parte de ‘culpa’ é pela falta de civismo e de educação”, lamenta. 

Apesar de considerar que foi importante para garantir a liberdade de expressão, pensa que “ao mesmo tempo chegamos a uma fase que se abusa dessa liberdade. As pessoas entendem que vale tudo e convém que levem mais a sério esta data. Que pensem no real sentido que teve esta revolução. Foi uma liberdade para evoluirmos e para sermos um país mais avançado”. 

“São poucos os que ligam à história. Era preciso investir nesta parte histórica e celebrar esta data com mais responsabilidade. Fizemos uma revolução pacifica, que ninguém consegue, só nós em Portugal, até nisso somos um país diferente. É isso que se devia reforçar junto das gerações mais novas”, menciona. 

Filhos de abril 

Sérgio Magalhães é já um “filho de abril”, que nasceu a 25 de abril de de 1999, mas que sempre nutriu um interesse por conhecer as motivações e a realidade da revolução. “Sempre tive um notório interesse em conhecer o passado e saber um pouco mais da nossa história. O 25 de Abril de 1974 é uma dessas datas sobre as quais desde muito novo procurei saber o seu contexto ao detalhe”, conta.

Sérgio Magalhães

Apesar de ter nascido após a revolução e de os pais também já terem nascido depois dessa data, “cresci a ouvir histórias de avós e tios sobre tempos difíceis, sobre pobreza, sobre o medo de falar e expressar opinião. Tendo eu nascido também a 25 de Abril, não de 1974 claro está, mas na virada do século, em 1999, este dia e o motivo da sua celebração é duplo e foi ganhando cada vez mais significado à medida em que fui crescendo e enveredando de várias formas pelo mundo artístico.”

“É de especial importância a liberdade de expressão, inclusive para as artes, nas suas mais variadas vertentes, não esquecendo a sua importância no contexto político de forma mais direta e na própria vida quotidiana de cada um e em sociedade”, refere. 

“Temos sempre algo a aprender com a história e felizmente as gerações mais novas têm, em geral, essa visão.” – Sérgio Magalhães 

O jovem acredita que “temos sempre algo a aprender com a história e felizmente as gerações mais novas têm, em geral, essa visão, tornando-se assim datas como esta de especial relevância, mesmo nos dias de hoje, por nos darem espaço a um questionamento sobre algumas posições que vão surgindo, sobre o nossos direitos e deveres e sobre a importância de os defendermos”. 

“Passaram 47 anos desde que acabamos com a mais longa ditadura da Europa ocidental do século XX, mudaram-se os tempos, mudaram mentalidades e estamos sem dúvida mais abertos à opinião, ao diálogo e mais conscientes de que ainda há um caminho a percorrer. Faz-nos a arte de anos que lá vão viajar até esses tempos, dão-nos as músicas e os cartazes a realidade de uma época que lá vai e reflito para mim sobre a máquina do tempo chamada Cultura bem como a necessidade de a alimentar e de a manter viva”, termina. 

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