Cativar crianças e jovens para a cultura etnofolclórica é o desafio

“As Lavradeiras do Vale do Sousa” é um grupo folclórico e cultural que nasceu em 1982 e representa a cultura etnofolclórica da região do Vale do Sousa, principalmente da freguesia de Meinedo, onde tem a sua sede social.
Membro efetivo da Federação do Folclore Português desde 1990, tem levado além-fronteiras as tradições, modas e cantares, usos e costumes da região.

Em 2012, foi oficializado o Grupo de Teatro Flor do Linho das Lavradeiras do Vale do Sousa, um projeto que se centra na cultura do linho e que ganha corpo com os elementos do grupo folclórico, que exploram, através desta vertente, outras capacidades e talentos.

Telma da Silva, de 34 anos, é presidente desta coletividade e fala-nos das atividades em curso e dos projetos para o futuro.

Fale-nos um pouco do seu percurso no grupo “As Lavradeiras do Vale do Sousa”.

Enquanto presidente, o meu percurso é ainda muito pequeno. Estou na liderança da direção desde janeiro deste ano, na sequência de uma necessidade de reestruturação de cargos que ocorreu na vertente diretiva e, naturalmente, assumi o cargo com “espírito de missão” e de salvaguarda da continuidade do projeto, até que outras alternativas possam surgir agora no final do ano, uma vez que o meu mandato chega ao fim.

Telma da Silva, presidente do Grupo Folclórico
“As Lavradeiras do Vale do Sousa”

Não obstante, faço parte do grupo desde os meus sete ou oito anos de idade. Os dois grandes responsáveis pela minha entrada e posterior permanência no grupo foram a nossa querida e saudosa Ana Perdigão e o meu tio Carlos Ferreira, ambos ligados à fundação do grupo (juntamente com mais pessoas) e também ambos com experiência diretiva no grupo.

Apresente-nos “As Lavradeiras do Vale do Sousa”, para aqueles que não conhecem o vosso trabalho.

Atualmente, o grupo tem cerca de 45 elementos, distribuídos pela dança, canto, festada e figurinos. Temos desenvolvido, ao longo de todos estes anos, um trabalho muito focado no ciclo do linho e, nesse seguimento, participado, inclusive, em vários projetos de estudo, em parceria com universidades portuguesas e a nível europeu, no sentido de preservar a cultura do linho e, ao mesmo tempo, dar continuidade a pesquisas que fundamentem as nossas apresentações/recriações.

As recolhas do grupo remetem-nos a uma época situada em meados de 1930. Representa a região de Entre Douro e Minho, concelho de Lousada, freguesia de Meinedo. As nossas recolhas incidem por isso nesses três vetores geográficos, naturalmente sendo as especificidades da nossa freguesia que marcam a identidade do grupo.

Ainda dentro da nossa associação, destaco dois projetos, o Teatro Flor do Linho d´As Lavradeiras do Vale do Sousa e a Escola Infantojuvenil “As Lavradeiras do Vale do Sousa”.

O Teatro Flor do Linho permite aos nossos elementos explorar/ experimentar outras vertentes culturais e de alguma forma ter outras vivências além do folclore. É, sem dúvida, um fator motivador que influência de forma positiva a continuidade dos elementos no grupo, mesmo reconhecendo que, por vezes, é complicado termos agenda para nos dedicar de forma mais ativa a esta componente.

Em relação à Escola Infantojuvenil “As Lavradeiras do Vale do Sousa”, temos vindo a trabalhar no sentido de voltar a ter uma atividade contínua. Este projeto teve um retrocesso por ausência de crianças/jovens e consideramos importante o esforço para a sua “reativação”, uma vez que é uma forma eficaz para incutir o gosto pelo folclore nos mais novos e desde tenra idade. A recolha de modas e trajes é diferente da recolha do grupo adulto, uma vez que nos remete aos anos 50. Temos estado em contacto com as escolas locais e cooperado inclusive com alguns projetos de forma a podermos cativar as crianças para a Escola Infantojuvenil.

Somos grupo bastante procurado para permutas. A nossa agenda é sempre bem preenchida, o feedback da nossa presença nos inúmeros festivais em que participamos é muito positivo. Fazemos um esforço muito grande para cumprir e estar à altura das exigências da Federação do Folclore Português (FFP) e consequência disso é o resultado bastante positivo que obtivemos na avaliação feita pela federação ao nosso grupo.

Caracterize o atual momento do Grupo Folclórico e Cultural “As Lavradeiras do Vale do Sousa”.

Uma vez que a época terminou e a agenda naturalmente também acalmou bastante, atualmente, o grupo encontra-se numa fase mais de estudo, maturação de conhecimento, correção de alguns detalhes nos trajes, reformulação da forma de nos apresentarmos em palco, digamos que numa fase de “trabalho de casa”. Na nossa agenda, passa a constar o calendário de ensaios para isso mesmo.

Paralelamente, está a desenvolver um trabalho mais direcionado à pesquisa, na sequência do novo formato de trabalho adotado pela FFP no que concerne à avaliação de todos os grupos que fazem parte desta entidade, com objetivo de assegurar que os grupos de folclore sejam o mais genuínos possível e fiéis às origens do povo, sem deturpar a sua essência. Um dos fatores de avaliação é a criação de um processo técnico, que consiste em elaborar um documento onde conste toda história do grupo, recolha fotográfica, documental, entre outros elementos, que fundamentem/justifiquem os nossos trajes, cantares, representações, etc… Para isso, é necessário dedicar muito tempo e aproveitar a época de inverno, que é quando nos é possível dedicar-nos a estes detalhes para, quando a nova época iniciar, estar tudo em conformidade.

Que tipo de atividades desenvolvem ao longo do ano?

Considero que, para um grupo Folclórico, temos um plano de atividades bastante alargado e interessante, que não foca só a etnografia ou o folclore. É a nossa forma de conseguirmos estar próximos de toda a comunidade, sem exceção. Dessa forma, ao longo do ano, organizamos atividades desportivas, como é o caso do “Lavradeiras com Pedalada”, jantares temáticos, que nos permitem ter animações, desde o fado a artes circenses, promovemos espetáculos de teatro, e mais exemplos teria para enumerar. Além dessas atividades, organizamos o festival anual de Folclore e a Festa das Colheitas.

Para si, quais foram os momentos mais importantes do vosso grupo?

37 anos de atividade trazem muitas histórias e “marcos” inesquecíveis para todas as pessoas, que, ao longo destes anos, tiveram oportunidade de fazer parte, de alguma forma, desta casa. No entanto, tendo que realçar algumas datas importantes. Destacaria o ano em que o grupo entrou para a Federação do Folclore Português, em 1990, a data de inauguração da sua sede social, em 2000, a panóplia de saídas ocorridas além-fronteiras, nomeadamente a Itália, Suécia, Espanha, França e ilhas Madeira e Açores, sendo que nos Açores o grupo esteve duas vezes, Ilha do Pico, em 2012, e ilha Graciosa em 2017. As participações televisivas em canais nacionais como RTP 1, RTP Madeira, RTP Açores e a nível internacional RAI Italiana, TV Sueca, BBC Inglesa são também experiências marcantes. Depois, num prisma menos agradável, se me permitem a expressão, mas que faz parte da história deste grupo, uma data que muito marcou todos os elementos, antigos elementos, sócios e todos aqueles que tinham ou têm contacto com a história do nosso grupo, foi o desaparecimento da Dª Ana Perdigão e, na sua pessoa, lembramos também o desaparecimento de outros nomes que foram marcantes na história do grupo e que evidentemente deixam sempre um vazio que nos marca a todos.

Os elementos do grupo “As Lavradeiras do Vale do Sousa” na ilha do Pico

Quais são as principais dificuldades?

Tirando a dificuldade financeira, julgo que depois as dificuldades que surgem são ultrapassáveis com muita paciência, persistência e “amor à camisola”, uma vez que passam muito por falta de tempo e, por vezes, quase que somos obrigados a “fazer magia com o relógio” para conseguirmos conciliar a nossa vida profissional, pessoal/familiar com a atividade do grupo. Adicionalmente e numa ótica mais diretiva, obviamente que a gestão de conflito existe, não fossem as associações compostas por muitas pessoas, diversas faixas etárias, diferentes formas de pensar, agir, estar e encontrar equilíbrio nisso tudo. É um desafio constante.

Quais os priancipais objetivos para o futuro?

Para o futuro, enquanto diretora, garantir que o grupo de jovens que compõem o nosso grupo atualmente sejam a continuidade deste projeto. A continuidade de geração em geração é extremamente importante e esse é, sem dúvida, um objetivo imprescindível. Enquanto grupo, continuar com a cooperação com instituições universitárias no desenvolvimentos de projetos com temáticas ligas ao folclore e etnografia, continuar a levar os nossos cantares e modas o mais longe possível e desse modo dar a conhecer Meinedo, Lousada e os usos e costumes da nossa terra; insistir com o trabalho de captação de crianças para a Escola Infantojuvenil; dedicar-nos com outro ritmo ao nosso museu etnográfico, que está a ser criado na antiga Escola Primária de Romariz e, naturalmente, manter os nossos elementos motivados a permanecer no grupo para que tudo isto seja possível.

Considera importante o facto de o vosso grupo ser federado?

Consideramos que estar integrados na Federação de Folclore Portuguesa nos permite ter mais consciência da nossa missão: preservar o património material e imaterial do povo português e perceber que folclore não é só cantar e dançar. O próprio “requisito” que é necessário para integrar a FFP é muito trabalhoso e de certo modo exigente. No entanto, respeitamos muito os grupos não federados e todo o trabalho que desenvolvem. Para nós, um grupo não federado tem o mesmo mérito e, no nosso caso, promovemos atividades que nos permitem integrar esses grupos. Trata-se de uma opção que cada grupo é livre de tomar e respeitamos.

Estão satisfeitos com o apoio das entidades públicas e privadas?

Satisfeitos nunca estamos, atendendo a que, nos dias de hoje, os apoios das entidades, sejam públicas ou privadas, são cada vez menores, naturalmente justificados pela conjuntura económica dos dias de hoje.

Ainda assim, no nosso caso, não podemos, nem tão pouco era justo da nossa parte, deixar de reconhecer que, no que diz respeito a ajudas/apoios, a população magnetense tem um carinho de tal forma especial pelo rancho da terra que sempre que procuramos ajuda junto das pessoas, de forma pronta, nos “abrem a porta” e ajudam.

Temos ainda algumas pessoas ligadas a empresas no concelho que nos recebem e apoiam, dentro do que é possível, quando solicitamos.

É também um erro associar a palavra “ajuda e/ou apoio” neste contexto, apenas e só a ofertas monetárias. Todo o tipo de ajuda para nós é bem-vinda, seja monetária, seja em géneros, como é o caso do nosso festival ou outros eventos promovidos por nós.

Paralelamente, temos o subsídio anual atribuído pela Câmara Municipal de Lousada e a cedência de transporte para as nossas deslocações sempre que possível, também através da Câmara Municipal, facto esse que muito apreciamos, uma vez que nos deslocamos muito para participar em festivais e a necessidade de utilização de autocarro é grande. Se tivéssemos que o contratar sempre, os gastos disparavam.

Analisando tudo isto, apesar de tudo o que referi ser muito positivo e reconhecido por nós, claramente é insuficiente e cabe-nos a nós diretores criar uma boa dinâmica de grupo para conseguirmos promover eventos que compensem financeiramente.

Deixe uma mensagem final.

Não posso deixar passar esta oportunidade para manifestar alguns agradecimentos. Em primeiro, quero agradecer ao jornal O Louzadense por “dar voz” às associações locais e permitir também aos grupos folclóricos existentes no concelho, dar a conhecer o trabalho que desenvolvem e que a nossa comunidade, por vezes, nem imagina. Para isso, a ajuda dos órgãos de comunicação social é crucial e, por isso, o nosso verdadeiro reconhecimento ao jornal por esta iniciativa.
Agradeço, ainda, em nome de toda a direção e elementos do grupo, à população de Meinedo, pela forma generosa com que acolhem as nossas solicitações, aumentando ainda mais sentido de responsabilidade quando representamos a nossa freguesia.
Não me querendo alongar, endereço uma palavra de amizade e companheirismo aos restantes grupos de folclore do concelho de Lousada, pelos quais tenho grande estima e consideração e desejo-lhes muito sucesso.
Por fim e não menos importante, deixo um agradecimento profundo a todos os elementos do G.F.C. “As Lavradeiras do Vale do Sousa” pela dedicação, zelo, carinho e entrega ao grupo. São eles que fazem toda a diferença neste projeto e, sem eles, não teríamos “escrito 37 anos de história”.
À direção, que presidirei até final do ano, grata pela colaboração incansável de todos, sem exceção. Encerro esta entrevista com uma palavra de amizade ao presidente que me antecedeu, António Moreira, uma vez que se manteve na equipa e continuou a cooperar. Muito grata a todos: “Somos Lavradeiras!”

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