Vizinhos levantam problemas à construção de um Centro Hípico em Lustosa

A construção de um novo Centro Hípico, em Lustosa, está a criar alguns constrangimentos nos vizinhos, que afirmam “ter de viver com o mau cheiro dos cavalos” e que irá poluir as águas do Rio Mezio. Proprietário afirma ser um projeto licenciado e que não existirá nenhum constrangimento para a vizinhança. 

“Achei estranho fazerem um picadeiro junto das casas, a 20 metros de onde moro”, justifica José Matos, residente junto ao terreno da construção há 26 anos. Insatisfeito com a situação, apresentou queixa ao Ministério Público, tendo encaminhado o processo para o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) da Comarca de Porto Este. 

Para além da queixa, José Matos reuniu com a Câmara Municipal de Lousada, que afirmou ser um projeto licenciado e “dentro da lei”. “[A Câmara Municipal] Apresentou-me um documento em que omite as vivendas novas, omite onde estou a viver e o regato. Se toda a gente defende o meio ambiente, a Câmara vem com aqueles projetos do meio ambiente e faz isto aqui, que meio ambiente é que estão a defender?”, interroga. 

José Matos vive na casa ao lado do terreno onde será construído o Centro Hípico

José Matos contactou, ainda, a Agência Portuguesa do Ambiente, e “a pessoa que me atendeu disse que não sabe como aquilo foi aprovado, aqui alguma coisa estava errada”, assegura. 

“A construção vai prejudicar os vizinhos e até a venda das vivendas de alto padrão. Está a fazer um picadeiro, um pavilhão, que ainda não tem cavalos, os cheiros ainda não estão aí, mas vão chegar, porque este vizinho também tinha um cavalo e teve de tirar por causa dos cheiros”, comenta, acrescentando que o lixo poderá contaminar as nascentes de água do Rio Mezio. 

O morador afirma que o proprietário do Centro Hípico “encostou à minha casa um depósito a céu aberto, para mandar os excrementos dos animais para lá”. “Os animais urinam e essa urina vai para onde?”, questiona, expondo a existência de um lençol freático a três metros. 

A entrada e saída de cavalos preocupa o morador, que diz não compreender a aprovação do projeto. Como é que as pessoas podem viver lá com o cheiro dos cavalos, o movimento dos cavalos?”, reflete. 

Proprietário garante que higiene será respeitada 

O Centro Hípico terá alojamentos de cavalos e aulas de equitação e, segundo o Alvará de Licenciamento, foi aprovado pela Direção Regional da Agricultura e Pescas do Norte (DRAPN), Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), Câmara Municipal de Lousada, Unidade de Saúde Pública de Vale do Sousa Norte e Autoridade para as Condições do Trabalho.  

Questionado pelo “O Louzadense”, o proprietário afirma que o Centro não vai “dar problemas nenhuns” e que os animais “vão ser bem alojados”. “Não vai haver resíduos de nada. Pensam que vai haver aqui uma estrumeira, mas não. Os resíduos vão cair dentro de um contentor, que será despejado num terreno de um amigo que necessita”, explica Manuel Carneiro, proprietário do Centro Hípico. 

A questão das moscas, que também preocupa a vizinhança, será resolvida com máquinas dentro do pavilhão. “Também não as quero, porque não consigo lidar com os animais se eles tiverem moscas e não vejo o porquê de estarem a colocar problemas”, esclarece. 

Manuel Carneiro é proprietário do Centro Hípico

O terreno foi comprado há alguns anos, quando ainda não existia “praticamente nada”. Como o desenho do projeto demorou mais do que o esperado, começaram a ser construídas casas em torno da área do terreno. 

Ainda assim, Manuel Carneiro gostou da freguesia de Lustosa e é lá que pretende criar as futuras instalações do Centro Hípico para o filho continuar as suas pegadas e seguir a mesma profissão. 

“Estou em Freamunde há 22 anos, mas quero sair, porque o meu filho está a seguir a minha área de trabalho, não quero continuar a pagar rendas, quero criar outras condições. Aquilo é um local mais de trabalho, não de receber. E eu quero receber pessoas, ter uma tribuna quente, ter outras condições para as pessoas estarem bem”, revela. 

O proprietário das vivendas propôs a troca de terreno, porém, Manuel esclarece que ainda seria necessário negociá-lo e “era um lugar encostado a casas”. Por isso, “estava fora de questão e continuei com a obra, que já devia estar pronta”, alega. 

“Quando comprei o terreno, os vizinhos tiveram de assinar e toda a gente assinou”, lembra. O espaço será coberto e todo o lixo será colocado num contentor. “Não tenho espaço para depósito a céu aberto e não queria esse lixo também para mim. As águas são para lavar os animais e não para lavar a cocheira. Não é nenhuma pocilga, nem uma vacaria. Os animais dormem em camas secas, de serrim, não há urinas e é tudo apanhado de manhã, todos os dias”, menciona. 

Instalações do Centro Hípico

Nas saídas à rua, Manuel Carneiro garante que o tratador apanha os resíduos dos animais até chegar à montanha. “As pessoas podem estar descansadas que não vai haver nada. Se isto fosse uma pocilga, ou uma vacaria, mesmo com a higiene dá cheiro, agora os cavalos não. Os cavalos tomam banho, são lavados com shampoo, tudo. Não há cheiro”, confessa.

“Se não tivesse tudo legalizado não podia construir, mas vieram aqui as entidades e foi aprovado”, termina. 

Projeto está licenciado e foi debatido em Assembleia Municipal 

A problemática foi debatida na Assembleia Municipal, levantada por Armando Silva, presidente da União das Freguesias de Lustosa e Barrosas (Santo Estevão), que afirma que esta entidade não tem qualquer responsabilidade de intervir, “até porque não foi ouvida para nada”. 

“Se fossemos ouvidos dizia que não, que a junta não aceita que seja construído naquele local”, afirma, referindo que a medida tomada foi questionar a autarquia “no sentido de não estar no sítio certo, por ter 10 moradias em construção ao lado”. 

O autarca acredita que não é o sítio aconselhado, no entanto, “quem viabiliza e licencia o projeto é a Câmara. O facto de eu ir à Assembleia com essa abordagem é para, no futuro, se vier a existir algum problema, eu estar preparado, porque as pessoas dirigem-se sempre à Junta, não é à Câmara”, revela. 

Armando Silva garante que a Junta de Freguesia “fez o trabalho que tinha que fazer”. “O Centro Hípico está licenciado e em construção, não temos mais a fazer”, confirma.

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