António Castro: a pessoa para além do autarca

António Coelho de Castro nasceu no dia dois de janeiro 1940, na freguesia de Lordelo – Guimarães, “numa família numerosa e humilde, que trabalhava a terra, seu principal rendimento familiar”. 

Como se define? 

Sou um cidadão comum, pai de dois filhos e avô de quatro netos, ainda com desejos e com objetivos nem todos realizados, porque ainda estou vivo.

Como foi a sua infância? 

A minha infância foi passada na escola até à 4.º classe e a brincar com os meus nove irmãos ou a ajudar os meus pais nas tarefas da lavoura. O meu pai era um homem bom e tinha uma presença forte, mas muito humilde. A minha mãe era muito doce, encantadora. Recordo-os com muita saudade. 

Entrei para a escola muito tarde, já tinha oito anos, portanto saí aos 12, idade em que me empreguei como caixeiro. Mais tarde fui vendedor comercial, até à entrada para o serviço militar, em 1961/1963, período da Guerra Colonial. 

Na minha juventude, envolvi-me em várias atividades a nível de freguesia, mas a que mais me marcou pela positiva foi quando exerci a presidência da JOC (Juventude Operária Católica). Este movimento tinha grande destaque junto da classe operária e era muito vigiado pelo regime de então. Foi um despertar para perceber o que era a vida e o que era o sistema. 

A partir deste movimento tomei consciência de que éramos governados para que tivéssemos a felicidade de ser pobres, trabalhadores e obedientes ao sistema. Foi esta e outras experiências que me levaram a contestar a Guerra Colonial de que fui vítima, como grande parte da juventude dessa geração e seguintes. A Juventude Católica era um bocado revolucionária, era um organismo religioso que o sistema facilitava um bocadinho. Reparem que uma boa parte dos sindicalistas saíram da ação católica, no pós-25 de abril, porque tornavam-se pessoas muito bem informadas, até politicamente na altura, embora não tivessem formação académica.

A informação era sempre pouca, não havia aquela que há hoje, de maneira nenhuma, mas já eram pessoas mais esclarecidas e o sistema dava alguma margem de liberdade à juventude. Tínhamos um jornal, que era o “JO”, que falava dos problemas dos jovens, do trabalho e no qual as pessoas se expressavam com algum à vontade.

Depois disso, comecei discretamente a envolver-me em atividades que, para a época, eram supostamente proibidas. Escrevia no jornal “Notícias de Guimarães”, como correspondente que assinava “Pilatos na Varanda”. Eram artigos que fazia muitas vezes criticando situações que achava menos boas na freguesia. Não olhava a nomes: se fosse preciso, criticava a junta de freguesia, o padre, o regedor e a própria guarda republicana, que caía em exageros e abusos.

Fui advertido várias vezes pela redação, que me responsabilizava por aquilo que escrevia. Tinha 19/20 anos e, quando temos essa idade, sabemos tudo. Quando chegamos aos 80, continuamos a aprender alguma coisa. É a grande diferença que encontro nestas coisas, a juventude na sua idade sabe tudo. 

Gosta da infância que teve? 

Gosto, até porque, naquele tempo, não havia melhor. Era um tempo difícil, não havia infância melhor, só para os privilegiados da época. 

Gostava de ter prosseguido os estudos? 

Sem dúvida que sim. Nessa impossibilidade, nos tempos livres dediquei-me à leitura, continuando a ler todos os dias. Ainda hoje estou a aprender. Agora mexo no computador, vejo emails, uso aplicações no telemóvel e gosto de andar sempre informado, lendo os jornais e acompanhando as notícias diárias.

Como foi passado o período da Guerra Colonial?

Como não podia deixar de ser, com muitas dificuldades próprias de um estado de guerra. Eu não fui à Guerra Colonial. Estive três anos na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, e, claro, nessa altura, embora não tenha ido à Guerra, percebia perfeitamente o que é que se passava, porque a minha especialidade era radiotelegrafista. Por causa disso, tomava conhecimento das coisas que aconteciam. 

De Tancos eram mobilizados muitos jovens. Assisti várias vezes as pessoas a embarcarem com muita tristeza. Muitas mães, umas verdadeiras, outras carpideiras, iam para ali chorar para dramatizar ainda mais, até porque na altura, isto em relação ao Estado Novo, havia muita gente que não concordava com a Guerra Colonial, como eu, e então faziam tudo para mostrar e para incutir o descontentamento. As carpideiras eram para isso, para causar embaraço ao sistema, para criarem um ambiente de dor e revolta de cada vez que seguiam jovens para África. 

Não fui à Guerra, felizmente, mas fui sacrificado com outros serviços no Quartel. Estava de serviço 10, 12 ou 16 horas por dia. Ganhava 90 escudos por mês e era graduado, já era Primeiro Cabo. 

Porque escolheu Lousada para se fixar? 

Em maio de 1958, jovem de 18 anos, num dos meus passeios de domingo à tarde, passei acidentalmente por Sousela e numa breve paragem fiquei encantado por uma jovem e pela beleza da freguesia, que lembrava um jardim de grandes dimensões. Oito anos depois casei-me com os dois encantos que encontrei nesse domingo e aqui permaneço a fazer-lhes companhia. 

Em 1968, a viver em Sousela, criei uma empresa de raiz, uma empresa de transformação de mármores e granitos, na minha terra natal, Lordelo. Continua hoje em plena laboração e eu ao comando. Entretanto criei e mantive outras atividades em Sousela. 

Refere que criou e manteve outras atividades em Sousela. Quais?

Criei e mantive, durante 30 anos, um comércio alimentar e uma empresa têxtil de confeções. O comércio começou em 1976 e as confeções em 1980. 

Venho do comércio, e se calhar a lógica seria continuar no comércio. Lembro-me muito bem de ser vendedor comercial e percorrer o país todo a vender têxteis-lar e pronto-a-vestir. Conheci o país na sua maior pobreza. Eu e outros viajantes, também vendedores comerciais, encontrávamo-nos sempre a três ou a quatro nesta e naquela terra. Passávamos por algum sítio, queríamos dormir e não tínhamos onde, porque era um país pobre, pequenino e as cidades eram pequenas. As aldeias também, mas eram muito bonitas. 

Conheci o país todo. Hoje chega a acontecer o seguinte, e não é de agora, já acontece há uns bons anos: se sair para algum lado, por exemplo a Valpaços, chego lá e já não reconheço a localidade. Para me orientar e saber onde estou verdadeiramente, tenho de ir à parte antiga que conhecia. Muitas vezes tomo por referência a pensão onde antigamente ficava e depois é que começo a reconhecer a cidade, porque cresceu imenso, porque os autarcas fizeram todos muitas coisas, umas bem, outras mal, mas fizeram muitas coisas.

Fundou a sua própria empresa. Esse era um sonho?

O meu sonho passava por qualquer empreendimento que me realizasse, contrariando aqueles que tinham perdido a esperança de um nível de vida melhor. Nesse tempo de dificuldades e pobreza, muitas pessoas não tinham a iniciativa de procurar algo melhor e de criarem objetivos de melhoria de vida. Outros tiveram a iniciativa de emigrar e fizeram muito bem.

Que marcas deixou no concelho? 

Antes de escolher Lousada, escolhi o casamento e com isso veio naturalmente Lousada. Em relação a deixar algumas marcas por cá, comecei por Sousela, quando assumi a Presidência da Assembleia da Junta de Freguesia, seguindo-se em lista de independentes dois mandatos como Presidente da mesma, de 1979 a 1985. 

Uma vez eleito, apresentei com a minha equipa um programa de atividades que previa as principais e muito necessárias infraestruturas básicas, nomeadamente: o edifício escolar, vias de comunicação, luz pública, a sede da Junta e outros arruamentos de primeira necessidade. Além destas carências, a freguesia estava em total isolamento no que dizia respeito a vias de comunicação. Vejamos: estávamos a quilómetros de Paços de Ferreira, Freamunde, Raimonda e Lustosa, pouco tempo depois ficámos a metros destas localidades.

Fiz umas escolas com quatro salas e salão polivalente. Começámos a criar luz pública, fizemos a sede da Junta, ligámo-nos por estrada aos concelhos de Paços de Ferreira e de Lousada. Criei muitos alargamentos para dar acesso a lugares onde as pessoas tinham habitação, mas não tinham caminho. 

Mas nem tudo são vitórias, porque estas infraestruturas muito necessárias e muito básicas vieram, mais tarde, permitir uma total descaracterização da freguesia, com construções diversas de volumetria elevada e, por último, um viaduto nada compatível com a beleza ambiental da freguesia que primava pelo verde e pelo florido. Isto é o pecado do desenvolvimento sem limites.

Quais foram as maiores dificuldades de estar ligado à Junta de Freguesia e, ao mesmo tempo, quais foram as maiores marcas que se orgulha de ter deixado?

A grande dificuldade foi convencer alguns moradores a cederem terrenos necessários à abertura das estradas e outras infraestruturas. Naquele tempo as pessoas eram humildes. Nesta freguesia só havia meia dúzia de carros e portanto as pessoas não entendiam a necessidade de alargar caminhos e construir estradas. Trinta anos depois, aqueles que não tinham carro e diziam que não precisavam de estradas, têm hoje, algumas, mais do que uma viatura. Era o que eu dizia nessa altura às pessoas: daqui por uns tempos vão dar-me razão, porque todos terão carro. 

Por outro lado, as autarquias também não tinham muito dinheiro nessa altura. Só começou a haver dinheiro quando a Comunidade Europeia começou a apoiar projectos de desenvolvimento. Nessa altura começou a haver fundos e fizeram-se muitas coisas. 

Tive sorte, porque na altura o Presidente da Câmara de Lousada, Amílcar Neto, partilhava as minhas ideias e colaborou nas obras que lancei na freguesia, atrás referidas. 

Quem conheceu o passado e conhece a atualidade, perdoa muitas vezes alguma má gestão dos políticos. É que, apesar de ter havido alguma má gestão, os políticos sempre fizeram obra e o país progrediu muito, sem dúvida nenhuma. Pode haver muita pobreza, mas fizeram-se grandes progressos.

Que cargos exerceu em Lousada? 

O meu percurso político em Lousada começa com o convite do Sr. Amílcar Neto, que muito fez por Lousada sem ter muitos recursos, para fazer parte da sua lista às próximas eleições, que se avizinhava. Estávamos em 1985. 

Como era esperado, ganhámos as eleições e foi-me atribuído o pelouro das Obras Particulares. É um dos pelouros mais difíceis para qualquer Câmara, e sei porquê. 

Nas eleições seguintes, candidatei-me à Presidência da Câmara, apoiado pelo PSD, e fiquei em 2.º lugar, por ter havido uma rutura com o CDS. Com este resultado, entregámos, e muito bem, a Câmara ao PS, na pessoa do Dr. Jorge Magalhães.

Durante esse mandato, fiquei como vereador sem pelouro, defendendo sempre qualquer proposta que fosse de interesse para o concelho, sem nunca me preocupar quem era o seu autor. Assumi o lugar de vereador para servir o concelho e não os partidos.

Ajudei no que pude durante esse mandato. No conjunto, a vila desenvolveu imenso e, por arrasto, o concelho também.

Memórias que guarda do tempo ligado à política

Terminado o mandato, afastei-me totalmente da política e de Lousada. Afastei-me da política porque tive oportunidade, com tristeza minha, de entender que nesta área jogam-se grandes interesses e muitas traições. E por vezes pouco serviço público. Para mim, serviço público é mais do que gestão corrente, é atender aos munícipes sempre que necessitam de acompanhamento e solução para os seus problemas e não complicá-los com artigos, portarias, decretos ou atrasos inaceitáveis que o cidadão comum não entende. 

No meu tempo de vereador cheguei a perceber que serviços e soluções se complicavam e prolongavam para que o utente reconhecesse que estava perante um poder a respeitar. E mais não digo. 

De Lousada, tenho boas e más recordações. As más já as esqueci, as boas recordo-as um pouco à distância sem me esquecer dos bons e leais amigos que sempre me acompanharam sem qualquer interesse pessoal. Para eles a minha infinita gratidão. Ídolos ou amores, só a minha família. 

Embora não tenha nascido em Lousada, define-se como um lousadense orgulhoso e apaixonado pelo concelho?

Nunca fui dado a grandes paixões, para evitar grandes sofrimentos. 

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