O Dia Mundial do Cuidador Informal é assinalado, todos os anos, a 5 de novembro. É de extrema importância abordar este tema tão atual e recordar todos aqueles que muitas vezes se esquecem de cuidar de si porque têm outra pessoa de quem cuidar, 24 horas por dia, durante 7 dias por semana.
Dedicar a vida pessoal aos cuidados de alguém é uma função com uma sobrecarga física, emocional e social. Desta forma, é urgente haver projetos que procurem ajudar os cuidadores informais nas mais variadas vertentes.
O assunto em questão tem vindo a ser, cada vez mais, acarinhado a nível nacional. A experiência de ser cuidador é um desafio que, por vezes, se torna uma atividade invisível, porém a vila de Lousada muito tem feito para contornar este ponto.
A Santa Casa da Misericórdia de Lousada implementou o Centro de Apoio ao Cuidador Informal de Lousada, o conhecido CACIL, como resposta social para apoiar os cuidadores informais.
O Louzadense entrou em contacto com Sílvia Alves, Coordenadora e Assistente Social do CACIL, na qual esta com toda a sua amabilidade nos prestou esclarecimentos acerca da iniciativa que é responsável.
O Centro de Apoio ao Cuidador Informal de Lousada surgiu em fevereiro de 2019, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lousada, José Carlos Bessa Machado, pediu para se desenhar uma resposta para os cuidadores informais. Numa primeira fase, o objetivo do projeto era fazer o levantamento dos cuidadores existentes na vila, ou seja, mapear e quantificá-los. Porém, de acordo com Sílvia Alves, foi uma tarefa complicada devido à falta de referenciação.
Como o próprio nome indica, é um serviço de auxílio dirigido apenas ao cuidador informal. No entanto, consoante as respostas que oferecem estas alargam-se à pessoa cuidada pois ao ajudá-las estão, naturalmente, a ajudar também o cuidador. De acordo com Sílvia Alves, o foco principal é facilitar o dia a dia do lesado ao implementar diversos suportes.
O CACIL rege-se por vários e significativos serviços, nomeadamente: atendimento de informação e orientação aos cuidadores informais; apoio e acompanhamento psicossocial; apoio psicológico; entre outros bastante úteis a quem deles beneficia.

Além dos acima mencionados, este projeto engloba Grupos Psicoeducativos onde o objetivo passa pela capacitação dos cuidadores, isto é, dotá-los de estratégias e técnicas ao nível dos cuidados. Também funcionam na perspetiva de estes criarem relações uns com os outros e aperceberem-se – por vezes isso não é possível dada a exposição que se encontram – que não estão sozinhos. É primordial este entendimento pois saber que existem outras pessoas com problemas semelhantes acaba por ser um reforço e alavanco positivo. “No fundo, os cuidadores sentem que alguém entende a sua linguagem”, reforça Sílvia Alves.
De ressaltar, o Psicoeducativo está programado em 10 sessões para cuidadores informais e é dinamizado por profissionais das mais variadas áreas. O mesmo resulta de um programa de parceria com o “cuidar de quem cuida”. Após este serviço, permanece um grupo de autoajuda onde existe encontros menos regulares, comparativamente, ao começo.
Ademais destas funções, o CACIL preocupa-se com os Direitos e subsídios existentes em termos nacionais, especificamente, com o Estatuto do Cuidador Informal. Portanto, facilita o trabalho do cuidador para que este não perca tempo a tratar da parte burocrática necessária.
O trabalho árduo e fundamental na assistência ao cuidador compreende e alberga outras tarefas. “Levando em consideração toda a nossa experiência e por sentirmos que os cuidadores estavam muito sobrecarregados, não possuindo períodos de descanso e lazer para cuidar deles próprios, criamos uma bolsa”, salienta Sílvia Alves. Inspirados no “Matosinhos a Cuidar”, em parceria com a Câmara Municipal de Lousada, no ano transato, este projeto implementou a chamada bolsa que ficou operacional em maio de 2021. Esta deriva da existência de uma colaboradora, com formação na área, que substitui o cuidador informal uma vez por semana, caso o mesmo entenda essa premência. “Cada vez mais existe uma maior adesão ao serviço”, sublinha Sílvia Alves.
O compromisso com a mais alta qualidade é a principal prioridade do Centro de Apoio ao Cuidador Informal de Lousada. O saber ouvir, o saber estar, o saber compreender e o saber colocar-se no lugar do cuidador são premissas deste projeto.
“Tentamos sempre que o tempo de espera para o atendimento não seja longo”, afirma Sílvia Alves. Este desejo, segundo declara a própria, foi possível de concretizar até ao final do ano passado. Todavia, no corrente ano tiveram que restruturar e estipular dias de atendimento. Isto deveu-se à elevada procura e como se regem sempre na perspetiva da qualidade de serviço optaram por tomar estas medidas.
Ainda na lógica da qualidade, sempre que entrevistam um cuidador aplicam um protocolo de avaliação, uma espécie de inquérito que permite caracterizar o perfil deste e, consequentemente, da pessoa cuidada. Seguidamente deste processo, utilizam a Escala de Zarit, avaliada cientificamente, que pretende medir o grau de sobrecarga subjetiva dos cuidadores. Em virtude de, anualmente, o CACIL realiza um relatório que permite espelhar o seu trabalho, quer o perfil dos cuidadores informais e das pessoas cuidadas em Lousada.
“O papel fundamental do cuidador é prestar todos os cuidados necessários à pessoa que ficou dependente por questões de saúde ou inesperados e depende de terceiros, além de proteger e representar os direitos e necessidades”, sublinha Sílvia Alves.
Recentemente, o CACIL conjuntamente com as ERPIs (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas) e o SAD (Serviço de Apoio Domiciliário) da Santa Casa realizaram uma candidatura para um projeto apelidado (Re)Aprender. Este permitiu a contratação de uma fisioterapeuta que se dirige aos domicílios para capacitar os cuidadores. O intuito é melhorar a funcionalidade do utente que está dependente e de capacitar o cuidador para através de recursos existentes na habitação conseguir trabalhar a motricidade da pessoa cuidada.
Desde o início, a equipa do Centro de Apoio ao Cuidador Informal de Lousada já cresceu e à medida das respostas que procuram dar diversificam os membros dentro dos vários setores.
“O que nós sentimos nos cuidadores é uma relação de afeto, de amor”, evidencia Sílvia Alves. A dominância é pais a cuidar de filhos ou vice-versa, porém há também outras relações familiares.

Algumas práticas e testemunhos pessoais importantes
Maria Luísa Teixeira Santos
Dos 49 anos de existência, Maria Santos é há 20 anos cuidadora informal dos seus pais.
Em novembro de 2001, inesperadamente, a sua progenitora sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Segundo afirma Maria, esta ficou em estado vegetativo derivado ao acontecimento sofrido. Além da falta de consciência e incapacidade para interagir com o que estava à sua volta, a sua mãe apresentava outros sinais que persistiram cerca de 10 meses. Após este tempo, com muita insistência da parte de Maria, a sua mãe começou a dar os primeiros passos.
Quando esta situação aconteceu na vida da cuidadora, esta ainda permaneceu uns meses de baixa familiar, mas, rapidamente, percebeu que seria uma recuperação de anos. Por conseguinte, Maria deixou o emprego que tinha.
A vida da cuidadora nunca mais foi a mesma e inúmeros episódios se sucederam após o AVC da sua mãe. Logo 3 anos depois, o seu pai foi diagnosticado com cancro do estômago, mas venceu com distinção a batalha. No entanto, o pior ainda estava por vir. Em 2008, detetaram cancro da tiroide em Maria e, mais tarde, apareceu-lhe um novo problema, o cancro da mama.
Pelo meio destas dificuldades, o seu pai foi diagnosticado com Parkinson, afetando-lhe, sobretudo, as partes musculares. Dado isto, foram anos muito complicados para Maria, mas segundo afirma a própria a força de ter de cuidar dos seus pais deu-lhe alento para enfrentar de cabeça erguida todas as adversidades.
Entretanto, o seu progenitor faleceu há dois anos e, nos dias de hoje, cuida apenas da sua mãe. “Após o falecimento do meu pai, o meu trabalho como cuidadora ficou mais leve pois a minha mãe ainda tem alguma autonomia”, declara Maria.
O Centro de Apoio ao Cuidador Informal de Lousada tem sido importante para cuidar de si mesmo, de acordo com Maria. Esta frequentou o serviço de apoio psicológico e acredita que as consultas lhe forneceram outra perspetiva de vida e fizeram-na perceber que as suas angústias não passam disso mesmo. “Nutriu bastantes resultados”, sublinha a cuidadora.
Maria afirma que a todo o momento o CACIL está disponível para falar com os cuidadores e, por consequência, ajudá-los nas suas preocupações.
Quando questionada sobre como se sentia ao cuidar da sua mãe, Maria anunciou solidamente que se sentia bem e que dava o melhor de si para o bem desta. “Devemos tudo aos nossos pais”, evidencia. No entanto, reconhece um cansaço físico e psicológico.
Maria considera essencial o cuidador informal cuidar de si. “Vou sempre fazer uma caminhada no descanso da minha mãe após o almoço”, finda com a convicção que essa distração é fundamental para levar o resto do dia avante.

Cláudia Sabina Freire Sousa
A vida de Cláudia deu uma volta de 180 graus. No dia 26 de maio de 2020, o seu marido sofreu um acidente de mota. Desde o ocorrido, deixou de andar sozinho, de ter conversas coerentes, entre outras coisas que o afetaram, principalmente, a nível cerebral.
A partir desse momento, a cuidadora dedicou-se a 100% ao mesmo. “Praticamente, eu vivo em função dele”, afirma Cláudia visivelmente emocionada.
Esta, por amor, zela pelo bem-estar, saúde, alimentação e higiene pessoal do seu marido. Cláudia, nem por um segundo se arrepende de nada e conforme a própria não se vê de outra maneira. Sente-se cansada psicologicamente e fisicamente, mas declara estar bem somente por se encontrar ao lado do seu adorado.
Movida pela fé em Deus, acredita que este lhe deu uma segunda oportunidade e evidencia que a irá agarrar com todas as forças necessárias.
Cláudia acha primordial cuidar de si para, consequentemente, dar o melhor ao seu marido. Contudo, apesar da mesma exercer esta noção acaba por esquecer-se de si e não tirar tempo de qualidade para manter-se sana.

Maria Rita Moreira Machado Mota
Maria Mota é cuidadora informal do seu filho, David, desde o seu nascimento. Posteriormente, tornou-se também da sua irmã de 53 anos e, assim sendo, tem à sua inteira responsabilidade duas pessoas.
Hoje em dia, David tem 22 anos e desde que se conhece sofre de cromossomopatia. Maria revela ao Louzadense que sempre lutou muito pelo filho, havendo este andado em consultas de todos os tipos de especialidades com o intuito de melhorar. Todavia, quando o mesmo tinha 8 anos disseram-lhe que já não valia a pena continuar.
Quando a mãe de Maria faleceu, esta ficou encarregue de cuidar da sua irmã que também tem um problema de nascença que a impossibilita de falar e realizar tarefas sozinha.
“É muito difícil cuidar de duas pessoas pois eu quero ir a qualquer lado e não consigo”, salienta Maria.
Sempre a pensar no melhor para o seu filho e a sua irmã, Maria afirma piamente que faz tudo o que for preciso por eles. Na altura em que o David andava na escola e regressava da mesma para as férias de verão, Maria sempre procurou estimulá-lo ao máximo. “Quando o meu filho regressava em setembro para um novo ano letivo, as professoras diziam que eu era uma autêntica terapeuta porque sentiam diferenças significativas na evolução do David”, declara.
Com o propósito bem presente na sua vida de lutar pelo filho, vive rodeada de animais, uma vez que, o mesmo adora e, como resultado, acaba por desenvolver muitas capacidades.
“Há dias e até semanas que me sinto alegre, mas por vezes o desânimo toma conta de mim”, sublinha Maria. Esta acredita ser uma boa cuidadora tanto para o seu filho como para a sua irmã.













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