Um nespereirense de mil talentos

ANTÓNIO AUGUSTO MOREIRA PEIXOTO DE MAGALHÃES

Porventura não serão mil, mas isso pouco importa, pois a frase aqui usada para caracterizar este cidadão é uma força de expressão, que condiz com a sua dimensão nas artes e associativismo. António Peixoto é um expressionista, que se recorre das artes para manifestar sensibilidades e ideais. O seu pai foi o famoso cesteiro lousadense António Peixoto de Magalhães, um talentoso criador de arte manual. No caso de António Augusto, também as manualidades (escultura) ganharam espaço, mas foi sobretudo no teatro onde se agigantou, como ator, dirigente, encenador, cenógrafo, aderecista e guionista.

A herança e o legado de um artista

Com uma capacidade de expressão e comunicação dignas de realce, António Peixoto (é assim que se apresenta e assina) falou-nos da sua vida. Por ter saído muito novo de Lousada e ter feito vida na metrópole portuense, não é devidamente reconhecido aqui. Contudo os ecos das façanhas que empreendeu chegaram até nós, motivando esta entrevista biográfica.

Nasceu em Lodares, viveu em Nespereira e reside no Porto. Fala do seu percurso de vida com uma vivacidade que demonstra empenho e prazer em tudo o que faz.

Começou muito cedo a “fazer-se à vida”. Aos 13 anos “já conduzia tratores” e isso valeu-lhe o primeiro emprego, que recorda assim: “também se chamava António Augusto (Ribeiro Meireles), de Tejores, em Nespereira, onde fazia criação e transporte de gado para as feiras. Ele era boa pessoa, mas tinha um feitio um bocado difícil, pela maneira como falava, muito rude, até que um dia chateei-me e deixei aquele trabalho”.

Depois disso, foi “para as obras de construção da Fabinter”, com o seu irmão mais velho, José Peixoto. Mas não esteve ali muito tempo. Certo dia, “o sogro da filha do Tristão, um negociante de gado, de Belos Ares, era feitor numa quinta na Prelada, no Porto, e arranjou-se maneira de eu ir para lá. Foi em meados de Fevereiro de 1970. Tinha eu 15 anos. Fui trabalhar com tratores, nessa quinta”. Foi de abalada para o Porto “sem olhar muito para trás, mas custou-me um pouco, pois era jovem, deixava a família e certas atividades de que eu gostava, como era o caso do folclore”.

Aos 14 anos, revelou-se um excelente elemento no Rancho Flores da Primavera, em Nespereira, onde foi dançarino, cantor e tocador. “O José Raposo, que trabalhava no Porto, em 1974, trazia-me para ir atuar com o rancho em festivais e romarias”, recorda António Peixoto.

Depois da lavoura na tal quinta da Prelada, foi trabalhar novamente na construção, em Santa Cruz do Bispo. E, mais tarde, foi metalúrgico em Vermoim, na Maia, onde se manteve durante oito anos.

“Aos 31 anos entendi que devia começar uma nova etapa na minha vida e fui para os CTT. Um amigo trouxe-me uma ficha de inscrição para ser carteiro e em 1985 fui colocado em Vila do Conde, na distribuição de correspondência. Foi uma fase extraordinária. Gostei imenso desse trabalho. Eu conhecia praticamente toda a gente em Vila do Conde. Entretanto, fui para os CTT da Maia, em 1990, e mantive-me nesta profissão até dezembro de 2017”, relata António.

SINDICALISTA E DIRIGENTE ASSOCIATIVO

Paralelamente ao trabalho, desenvolveu atividades em inúmeras áreas, tantas quantas a sua imensa energia e versatilidade lhe permitem. As artes absorveram-lhe “muita atenção e tempo”. Mas também a vida associativa, política e sindical. Nesta altura em que o partido comunista não tem o fulgor e expressão doutros tempos, afirma-se ainda assim como “fiel militante número 30 mil e tal”. Participou em inúmeros atos e campanhas, “nomeadamente com o Álvaro Cunhal” e foi cabeça de lista pela CDU à junta de freguesia de Ramalde (Porto), uma das “mais progressistas do Porto”, onde conseguiu eleger dois elementos para a Assembleia de Freguesia. Ao mesmo tempo, foi membro da Comissão de Trabalhadores dos CTT e pertenceu ao Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Correios e Telecomunicações.

Pouco depois da sua chegada a Ramalde, em 1972, tornou-se membro da Associação 26 de Janeiro, uma prestigiada coletividade centenária daquela freguesia do Porto. “Até ’85 não fiz grande coisa, mas desse ano em diante entrei no grupo de teatro e no rancho de folclore que nesse ano foi ali fundado. Eram tempos fantásticos de criatividade e vida associativa, onde se destacou o trabalho de Silvino Costa, que convidou-me para o grupo de teatro”, relata o entrevistado.

ESTREIA NO TEATRO AOS 13 ANOS

Essa não foi a sua estreia nas artes cénicas. O gosto pelos palcos já tinha sido experimentado amplamente em Nespereira e arredores: “aos 13 anos eu já tinha participado pela primeira vez numa peça no Salão Paroquial de Nespereira. Foi uma peça ensaiada por António Bessa e chamava-se Lobisomem, de Camilo Castelo Branco”, recorda com agrado. De igual modo lembra aquela que terá sido “o primeiro grande êxito, em 1986, que chamava-se Cama, Mesa e Roupa Lavada, uma comédia de costumes dos anos 20. Gostei imenso, fui muito elogiado e a partir dali dediquei-me imenso ao teatro”.

Após 1992 começou a dedicar-se “a fundo, na Associação 26 de Janeiro, já comigo na direção. Começamos a organizar o AMAS Porto, o Festival de Teatro Amador de Porto, que no dia 6 de Abril vai iniciar a sua 25ª edição”, salienta António Peixoto, que foi presidente em 15 dos últimos 20 anos da coletividade.

Entre 2016 e 2019 fez “uma espécie de celibato”, mas não me afastei totalmente, pois fiz cenografia para teatro. Dediquei-me essencialmente à escultura em madeira, figurado. E fiz uma exposição nos 100 anos da Associação. O corpo humano é o meu tema preferido nesta arte que desenvolvi durante a pandemia”. E revela que adora “encontrar troncos de madeira na praia e fazer esculturas naquilo que surge, que se adapta, que se proporciona”.

Em 2021, “a direção convidou-me para pegar no teatro, que tinha ficado sem encenador. Com Nelson Leitão fizemos uma peça que muito me encantou: Perdidos na Noite, de Plínio Marcos, um ensaísta brasileiro, que foi, digo com alguma vaidade, a melhor produção da Companhia Teatral de Ramalde, e curiosamente foi a mais barata”. O enredo anda à volta de dois sem abrigo, que viviam debaixo da ponte. “Eu deixei crescer a barba e o cabelo, para encarnar na plenitude e pormenor, o personagem que eu interpretava. Foi um trabalho que me deu muito gozo fazer”, exulta com satisfação.

No plano familiar, António Augusto Peixoto é casado com Maria Irene Marques Fernandes Magalhães, desde 27 de Novembro de 1977, e têm dois filhos: Cristina Isabel Fernandes Peixoto de Magalhães, de 44 anos, e João Filipe Fernandes Peixoto de Magalhães, 37 anos. Os netos também são dois e chamam-se Santiago Filipe, de 10 anos, e Dânia Filipa, de cinco anos. Dos descendentes diz que “são, o meu orgulho e a certeza da continuidade”.

A teatralidade é uma paixão

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