por | 17 Jun, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

O silêncio, a música e a palavra.

 Eni Puccinelli Orlandi refere que o silêncio é o “fôlego” da respiração, afirmando ainda que “se a linguagem implica silêncio, este, por sua vez, é o não–dito visto do interior da linguagem”. O silêncio não é mero complemento de linguagem, ele tem significância própria. De facto, deslumbrados que estamos com a festa da palavra, relegamos o silêncio para o plano da loucura, do vazio ou do suicídio da voz. Estar em silêncio, no entanto, não supõe perder as palavras, mas mergulhar nos seus interstícios e aceitar o seu enigma legitimando o questionamento, a dúvida, a essência da nossa identidade. Importa, por isso, lembrar o que diz ainda  Le Breton quando este sintetiza que “o silêncio questiona os limites de qualquer palavra, recorda que o sentido está contido entre barreiras estreitas em face de um mundo inesgotável, que está sempre atrasado em relação à complexidade das coisas.”

A perceção de que as palavras são poucas, de que estão gastas e envelhecidas (não cumprindo, com frequência, o seu propósito último enquanto veículo de comunicação) é também confessada por António Lobo Antunes (embora o autor lhe dê aqui um sentido um pouco diferente). E cito as palavras de Lobo Antunes: “Quando mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor. (…) Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras…”.

Também a música precisa de silêncio e tem dentro de si silêncios. A relação entre palavra e música é inequívoca da obra de Saramago, sobretudo na forma como Scarlatti (compositor de cravo da corte de  D. João V) e Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão se tornam cúmplices de um entendimento único, gerado pela singularidade que os define. É a música de Scarlatti, o elemento que completa os saberes conjugados (trabalho, ciência e magia) que fazem elevar-se a passarola nos céus de Mafra. É nas malhas do silêncio, que se urde o sonho.

Diz Eduardo Lourenço que “sentir é o grau ínfimo da apropriação”,  por isso, ouvimos música e ela ativa em nós sentimentos capazes de criar uma energia única. Em certa medida, a leitura tem esse mesmo potencial gerador de imaginação, de ritmos e de emoções. O espaço da música é, por isso, também o espaço da leitura. E de silêncio.

Conceição Brandão

Professora

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