por | 7 Nov, 2024 | + Literacia, Educação

Um encontro que salvou vidas

Já sentiram aquela sensação de vazio? Aquela sensação que nos deixa inquietos por não sabermos qual é o sentido da nossa existência ou o porquê de termos vindo ao mundo? Aquela sensação de receio de que cada passo que dermos sirva apenas para confirmar a nossa insignificância?

Bem… Nem sempre eu senti isto. Tive uma infância feliz. Tinha uma família que me amava, tinha muitos amigos, gostava de estudar, e como qualquer criança, adorava brincar. Porém com o fim da infância, deixei de ser uma criança ingénua e inconsciente e tornei-me uma adolescente, e foi aí que a minha vida começou a mudar.

No final do nono ano, fui confrontada com uma decisão: se ia optar por um curso científico-humanístico ou por um curso profissional. Lembro-me de que, na altura, eu estava muito indecisa porque na minha infância sempre disse que queria ser atriz, hospedeira de bordo, sonhos passageiros de uma criança que desaparecem como um piscar de olhos. Nunca senti verdadeiramente que queria ser isso. Nessa altura, comecei a perceber que a maioria dos meus colegas sabia que profissão queria exercer, porém, eu tinha apenas a ideia de ajudar as pessoas de alguma forma. Eu acreditava que ao ajudar as pessoas eu conseguia sentir-me útil, pensava eu que esse era o meu propósito. Acabei então, por escolher o curso de ciências e tecnologias para poder ser médica e salvar a vida das pessoas e para, principalmente, poder, um dia, pertencer aos Médicos Sem Fronteiras. Apesar de dizerem que é normal baixar as notas no décimo ano, porque é um ano completamente diferente dos anteriores, as minhas notas baixaram drasticamente, o que me deixou desanimada e insatisfeita. Independentemente das notas que tirava, mostrava sempre os resultados aos meus pais, para que eles soubessem o que estava a acontecer comigo. A minha mãe, meu exemplo para tudo nesta vida, sempre me apoiava e fazia de tudo para me ajudar, já o meu pai nunca se interessou muito. Ultimamente, a nossa relação já não era muito boa, ele nunca acreditou na possibilidade de eu ir para a universidade, e chegou até mesmo a dizer que eu ia estudar durante anos para depois ir parar ao desemprego. Discutíamos por tudo e por nada, e às vezes até utilizávamos termos mais desagradáveis. Eu achava engraçado o facto de a minha mãe dizer que não nos dávamos bem porque éramos do mesmo signo e tínhamos a mesma teimosia, mas eu sempre soube que havia algo mais. Sempre senti uma certa incompreensão e até mesmo raiva porque ele nunca me perguntou como correu um teste, ou se perguntou, olhava imediatamente para mim e dizia que eu ia tirar negativa. Isto tudo provocou em mim sentimentos que eu nunca tinha vivenciado antes. Eu sentia-me ansiosa, insegura e duvidada de tudo. Por exemplo, relativamente ao facto de ser médica. Eu perguntava a mim mesma: “Será que quero mesmo seguir medicina?”, ou “Olha para ti, Maya, alguma vez vais conseguir ser médica?” ou “Tu não consegues fazer coisas simples, como tirar boas notas, como queres ajudar uma pessoa?”.

À medida que os anos iam passando, por não saber que profissão eu queria, sentia-me cada vez mais desmotivada, ansiosa, sem encontrar um sentido para a minha vida. Sentia-me um peixe fora d’água. Porém, nunca transparecia isso em casa ou perto das minhas amigas, porque não sabia como contar o que estava a acontecer comigo e também porque, lá no fundo, eu não queria destruir a imagem que elas tinham de mim, uma menina forte, segura, que nunca desiste e luta sempre pelo que quer. Acabei então, infelizmente, sem perceber, por substituir o vazio que sentia pela comida. Aqueles sentimentos perseguiam-me, quando eu só queria esquecer, nem que fosse por um momento, momento este que eu aproveitava para comer desmedidamente. Claro que não correu bem, porque logo depois, comecei a engordar significativamente. As minhas roupas deixaram de servir, eu não me sentia bem de biquínis, calções, saias, vestidos…. Acabei por me isolar, evitei sair com as minhas amigas e quase nunca ia para a praia ou para as piscinas. Estava constantemente a pesar-me na balança que deixava no meu quarto e a olhar-me ao espelho para criticar todo o meu corpo. Vai parecer muito clichê, mas recordo-me de que quando isto tudo aconteceu, eu gostava de um menino da minha turma, mas não era recíproco. Pelo contrário, ele gostava de uma menina da turma, que era magra. Não consegui perceber na altura, ou então não queria aceitar, mas eu estava com bulimia. Sempre que consumia algum alimento em exagero, sentia-me culpada e acabava por induzir o vómito.
Isto foi se sucedendo por vários dias, até que um dia, na escola, quando estava a dirigir-me à sala de aula, esbarrei-me contra um menino que aparentava estar no mesmo ano que eu, mas que eu nunca tinha visto, provavelmente, tinha entrado para a escola recentemente.

Nós deixamos cair os livros que tínhamos na mão e como eu estava atrasada para aula, peguei rapidamente no primeiro livro que vi, coloquei-o na mochila, pedi desculpa ao rapaz e fui para a sala. Ao anoitecer, já em casa, quando abri a mochila encontrei um pequeno livro roxo com o título que imediatamente me chamou a atenção Dieta da poesia, e que não me pertencia. Quando pensei sobre como o livro terá ido parar à mochila, lembrei-me de que talvez fosse do aluno com quem eu tinha colidido na escola. Voltei a pôr o livro na mochila para poder devolver ao seu dono e fui para a cama. O que eu não esperava era não conseguir dormir, porque não conseguia parar de pensar no livro.

– Como é que a palavra dieta se relaciona com poesia? – questionava-me.

Foi então, que num movimento rápido, me levantei da cama e me dirigi à mochila para pegar no livro. Confesso que hesitei um pouco, mas acabei por pegar nele e comecei a ler o livro para satisfazer a minha curiosidade. À medida que o lia, ia-me envolvendo cada vez mais com a história, principalmente pelo facto de o Bazulaque também comer em demasia, tal como eu. Porém, quando me preparava para acabar de ler todo o livro, houve algo que me chamou a atenção: uma página cinza com o título destacado: “Descrição da dieta”. Resumidamente, estava escrito que se andássemos sempre com um livro connosco e, quando sentíssemos aquela tentação por algum alimento começássemos a ler, então, “no caso de pretender perder peso, a dieta promete um emagrecimento de três a cinco quilos por mês, ou mais, no caso de leitores compulsivos, e ainda assegura o verdadeiro desiderato desta dieta: uma aura poética, ou seja, um incremento da beleza ou graça. Qualquer pessoa que siga esta dieta ficará, como comprovam todos os estudos, muito mais bonita e atraente.”. Ao mesmo tempo que ficara incrédula com o que acabara de ler e em dúvida sobre a sua veracidade, questionei-me também:

– Porque não seguir a descrição desta dieta para ver se realmente consigo perder peso e ficar mais atraente?

E foi nessa noite que eu decidi usar os livros como um meio para atingir um fim.

No dia seguinte, encontrei perto da minha sala de aula, o menino a quem pertencia o livro e, logo fui ter com ele para lho devolver. Nesse momento, ele perguntou-me diretamente:

– Gostaste do livro?

Eu tímida e cabisbaixa, sem entender como ele sabia que eu tinha lido, apesar de ter pensado em perguntar como ele sabia ou então simplesmente que não tinha lido, eu respondi que sim, que tinha lido porque o título me tinha chamado a atenção, mas que não devia ter pegado no livro dele.

– Não tem problema. Eu costumo ler bastante por isso, se quiseres posso indicar-te outros de que poderás gostar de ler! E já agora, eu sou o Lucas. – respondeu ele.

Nesse momento, percebi que poderíamos ser bons amigos e pensei imediatamente no que me tinha proposto fazer na noite anterior e por isso, respondi:

– Sim, eu gostaria imenso. E eu sou a Maya.

Entretanto, fui para a minha sala de aula porque estava prestes a começar a minha aula de matemática. Apesar de não ter descoberto nessa hora, o meu encontro com o Lucas não foi uma coincidência. À medida que o fui conhecendo, percebi que ele é uma pessoa muito atenta e que quer sempre ajudar os outros. Comigo não foi diferente. No dia em que coincidimos, ele atingiu-me propositadamente, de modo a trocarmos os livros. Isto tudo porque ele uma vez viu-me a sair da casa de banho, no fim da hora de almoço, a chorar e a enxugar a boca, e após me observar atentamente, percebeu que eu estava com distúrbios alimentares e então, pensou que “Dieta da poesia” me poderia ajudar a ter uma nova perspetiva sobre a vida. A sua irmã já tinha tido estes mesmos distúrbios alimentares, por isso, ele percebia os sinais e sabia o quão difícil era sair desta situação.

Nos dias que se sucederam, o Lucas recomendou-me vários livros, desde livros de autoajuda a livros de fantasia. À medida que os lia, entendi que cada um deles me fazia experienciar algo diferente. Comecei por ler a saga de livros do Harry Potter. Andava sempre com eles perto de mim, para que, quando sentisse aquele desejo de comer algo, o substituísse pela leitura. Para além de me impedir da gula, a leitura ajudou-me também a relaxar, porque permitiu-me escapar da minha realidade e vivenciar as aventuras fictícias das personagens.

Fui lendo cada vez mais, ler tornou-se um dos meus hobbies preferidos e cada vez mais me beneficiava. Entretanto, já eram as férias da Páscoa e o Lucas indicou-me um livro diferente do que os que eu já tinha lido, mas que ele considerava ser útil para me ajudar a resolver algumas situações delicadas. E uma das partes que mais me chamou a atenção foi: “O filho com quem você tem mais problemas, com quem mais discute e com quem é mais difícil ter uma conversa tranquila, é o filho que mais se parece consigo. Isso significa que é o filho que lhe vai mostrar o que precisa curar da sua infância e adolescência.”. Ao refletir sobre isto, percebi melhor o lado do meu pai relativamente às nossas discussões sobre o curso que vou seguir na faculdade. Ele discute comigo por isso, porque na sua adolescência os pais não o deixaram frequentar a universidade e obrigaram-no a trabalhar para ajudar nas contas de casa, impedindo-o de realizar o seu sonho. Não é por acaso que dizem que a leitura promove a empatia pelos outros, ou seja, a capacidade de nos colocarmos no lugar da outra pessoas. Com o passar do tempo, consegui expressar melhor o que sentia e ganhei coragem para resolver a situação com o meu pai.

Após alguns meses, eu reparei que a “Dieta da poesia” realmente era eficaz. Eu tinha já perdido uns quilinhos. Apesar de ter ficado satisfeita eu não dei assim tanta importância a isso, porque eu tinha aprendido a lição mais importante da minha vida. Já não fazia tanta questão de perder peso e ficar bem fisicamente porque eu estava aos poucos a ficar bem psicologicamente, tanto que, finalmente, decidi que profissão seguir: nutrição!

O que antes serviu como meio para atingir um fim, agora é a cura da minha vida.

(O som de aplausos propagou-se pela sala.)

– Pode parecer inacreditável para vocês, mas sim, os livros tiveram um papel fundamental na minha vida. Quem sabe não tenha também na vossa!

– Alguém tem alguma questão? – perguntei.

– Porquê nutrição? – questionou um aluno.

– Para além de querer ajudar os outros, quando eu me comecei a sentir bem comigo mesma, percebi o quão importante e prazeroso isso é. Entendi também que não queria que os outros passassem pelo que passei. Por isso, decidi tornar-me nutricionista para ajudar as pessoas a gostarem do seu próprio corpo, fornecendo-lhes métodos saudáveis para melhorarem o que julgam ser defeitos. Um deles é recomendar a leitura de vários livros, porque foi algo que me ajudou imenso. – respondi.

Ainda hoje faço como o Bazulaque: tenho um livro sempre à mão para tratar a compulsão!


Lara Pinto, ex-aluna do 12ºA_N, do Agrupamento de Escolas Dr. Mário Fonseca

Vencedora do concurso LER LOUSADA, na categoria secundário, em 2023.

Texto redigido para a atividade do Plano Municipal de Leitura de Lousada, com base na leitura do livro “Dieta da Poesia” do Afonso Cruz.

Lara Pinto e Prof.ª Sónia Moreira

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