A democracia fundamenta-se na premissa de que cada voto possui o mesmo valor. Independentemente da posição social, académica, económica ou geográfica (local de residência), cada cidadão possui um voto com o mesmo peso, uma expressão direta de igualdade e participação. Este princípio de igualdade é o coração da democracia, conferindo dignidade a qualquer processo eleitoral.
Vem isto a propósito das recentes eleições americanas. Numa entrevista recente à TSF, a propósito dos resultados eleitorais das presidenciais americanas deste ano, Richard Zimler, um escritor norte-americano que vive no Porto há vários anos, disse: “Se olharmos para o mapa dos EUA, todos os estados com maior escolaridade votaram na Kamala. Com menos escolaridade, votaram no Trump. Quase todas as zonas urbanas – as cidades com mais de 100 mil habitantes – votaram em Kamala e todos os condados rurais votaram em Trump.” O entrevistado, mais do que analisar a polarização entre urbano e rural, mais e menos escolaridade, não se conteve em dizer que há “muita gente ignorante” que votou em Trump.
Estas declarações qualificam a existência de votos bons e maus; inteligentes e ignorantes; de elite e de massas; urbanos e rurais. Ou seja, sugerem que o valor de cada voto não é igualmente legítimo ou digno de respeito, mas sim condicionado por características sociais e educacionais dos eleitores.
Essa interpretação, para além de simplificar em demasia a complexidade do eleitorado, desafia diretamente o princípio fundamental da democracia, onde a igualdade de todos os votos é o que garante uma verdadeira representatividade e inclusividade.
A democracia existe precisamente para acolher essa pluralidade, garantindo que um agricultor e um médico, um operário e um empresário tenham o mesmo poder ao votar. Dito por outras palavras, o verdadeiro valor do voto numa democracia não está apenas no ato em si, mas também na sua diversidade, que reflete a riqueza da sociedade e fortalece o sistema. A democracia é exatamente o sistema que procura abarcar e harmonizar essa diversidade.
Quando introduzimos a ideia de que certos votos são superiores, criamos uma hierarquia que coloca em risco o próprio sistema democrático. A democracia é fortalecida pela coexistência de diferentes vozes e realidades, o que permite uma constante adaptação e evolução do sistema político. Independentemente da ideologia ou preferência de cada eleitor, a democracia só se sustenta plenamente quando todos os votos, sem exceção, são considerados igualmente válidos e respeitáveis. O desafio é transformar essa diversidade numa força de coesão, onde todos se sintam representados e respeitados. Se assim não acontecer, o maior risco para a democracia será a própria democracia.













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