por | 12 Dez, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

Misericórdia, de Lídia Jorge: O magma poético.

Com a aproximação da quadra natalícia, faz sentido recuperar o romance de Lídia Jorge, publicado em 2022, onde a poética do amor redimensiona a vida até ao seu minuto final.

Em Misericórdia, de Lídia Jorge, todas as palavras são pesadas até encontrarem, na sua relação com as outras, o equilíbrio entre a solidão radical do ser humano e o deambular incessante no sonho sem esquecer a relação inevitável com o outro. É um exercício constante entre a matéria e a transcendência humanas. Ordenar a escrita até ela ser linguagem é o exercício exigido neste texto, uma ressonância da expressão antuniana “quando a carne se transforma em som aonde a carne e aonde o som?”. Recordamos aquilo que no pensamento moderno, segundo Foucault, será fazer falar a linguagem o mais perto possível do que nela se diz, sem ela.

À mão invisível da cortina que fecha a vida, resiste o conhecimento e o amor encostado aos dias, que assim se junca às coisas, fazendo-as falar à beleza por cima de tudo, até da própria morte. Uma articulação só conseguida nesta fluidez da narrativa que frui de um dizer lírico, sem que tal se formule como objetivo romanesco, antes persiga o substrato reflexivo que se expande no texto muito por via da litania. Um sublinhado da ideia de Kundera, quando enuncia que o romance é capaz de abarcar «todos os meios intelectuais e todas as formas poéticas» (Milan Kundera, A Arte do Romance, 2017) para fazer eclodir aquilo que segundo Broch só o romance pode descobrir: a essência humana.

Misericórdia é o livro que nomeia o tempo humano, alarga o seu entendimento, através da experimentação da vida tocada pelo murmúrio irrecusável da beleza, até ao fim. Neste romance de Lídia Jorge é a vida que se impõe na curiosidade, no erotismo, na beleza, no compromisso com o outro, no amor pela arte. A par das pausas poéticas no final dos capítulos, é o olhar ativo sobre a realidade e a sensibilidade para o pormenor, que revelam uma disponibilidade para o assombro e para a beleza. No fundo, este livro reafirma o morrer como um tempo de intensidade. Muito mais do que um ser para a morte, o ser humano é um ser até à morte, na síntese luminosa de Daniel Serrão. E será também Alberti, que resgata esta que será a ideia lapidar de Misericórdia: “estar viva é lembrar-me dos movimentos do tempo e do ritmo da floração” (cap.19, “Exílio”, 121).

Conceição Brandão
Professora

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