por | 8 Dez, 2025 | Economia, Sociedade

Em Lousada fala-se há vários anos da implementação desta iniciativa, mas sem concretização. A proposta já fez parte de programas eleitorais. O presidente da Cooperativa Agrícola, José Babo Magalhães, o engenheiro agrónomo da AderSousa, Agostinho Magalhães, assim como os lousadenses Luís Cunha (biólogo) e Ernesto Gonçalves (gestor do património), destacam-se neste tema. Estes dois últimos coordenam uma horta urbana em Paços de Ferreira, amplamente referenciada e elogiada. Os especialistas falam das vantagens e dos contras, defendendo a adesão de Lousada a este tipo de empreendimento.

Tem-se assistido a um crescimento das hortas comunitárias, espaços urbanos que permitem aos cidadãos cultivar os seus próprios alimentos e estreitar laços com a comunidade. Estas iniciativas, espalhadas por diversos centros urbanos, refletem uma tendência crescente de valorização da agricultura urbana e da sustentabilidade. Além do Porto, Maia e Valongo, o projeto estende-se também a Gondomar, Matosinhos, Espinho, Póvoa de Varzim e Vila do Conde.

O especialista em agricultura e presidente da Cooperativa Agrícola de Lousada, José Babo Magalhães, é defensor deste tipo de empreendimento. “O setor primário precisa cada vez mais de ações que o renovem e revitalizem, e as hortas urbanas ou comunitárias, como se queira chamar, são uma forma de conseguir isso”, afirmou ao O Louzadense.

O dirigente acrescenta: “Certa ocasião, eu disse ao anterior presidente da Câmara, Dr. Pedro Machado, que a autarquia podia apostar nisso. É uma forma de fazer a agricultura continuar mesmo em centros urbanos e, além disso, dá rendimento extra às famílias. Mas, por falta de tempo ou de oportunidade, por estar em final de mandato, esta ideia não avançou. Vamos ver como será no futuro.”

O engenheiro agrónomo da ADERSOUSA e antigo presidente da junta de freguesia de Meinedo, Agostinho Magalhães, disse ao O Louzadense que as hortas comunitárias “são essenciais em meios urbanos, pois, para além do objetivo principal — produção de hortícolas para consumo próprio — têm ainda outro: a socialização”.

Para este especialista, os empreendimentos desse género “são lugares de convívio, lazer e aprendizagem para os seus utilizadores e para a comunidade local. Costuma-se dizer que, para além de legumes, cultivam-se comunidades em torno de um interesse comum: alimentação, saúde e bem-estar”.

As hortas comunitárias “são espaços agrícolas atribuídos aos munícipes a título gratuito para produção hortícola para consumo. Em primeiro lugar, é preciso que existam esses espaços nas proximidades dos meios urbanos, sejam eles de propriedade pública ou privada”, e diz também que “a proximidade facilita a mobilidade e a sustentabilidade ambiental”.

A seu ver, são necessários dois passos fundamentais: haver procura pelos munícipes e, posteriormente, regulamentação da utilização por uma entidade gestora do processo, com titularidade do terreno. “Objetivamente, para que funcione, terá que se avaliar a procura para depois se proporcionarem as condições da oferta (terreno e entidade gestora)”, salvaguarda Agostinho Magalhães.

Reportando-se aos casos de sucesso, este entendido na matéria explica que “partiram sempre da gestão municipal ou empresas municipais, pois estes têm capacidade para adquirir terrenos e meios humanos e financeiros para gerir todo o processo. O município de Cascais é um bom exemplo, com a criação das hortas comunitárias inseridas na empresa municipal Cascais Ambiente”.

Há muito que se fala em implementar uma horta em Lousada, mas Agostinho Magalhães considera que “a ideia de criar uma horta comunitária em Lousada foi sempre abordada de forma superficial”. Admite que ainda não se avançou na concretização por falta de três premissas principais: densidade populacional em meio urbano, interesse da população em aderir e existência/propriedade de terrenos agrícolas. “Com a conjugação destas três condições, qualquer entidade poderá pensar em alavancar o processo”, seja uma autarquia ou uma associação.

“A minha dúvida é se Lousada terá essas condições, pois, a pensar na execução, seria apenas na zona urbana da vila, onde há maior densidade habitacional. Mas a proximidade de freguesias periféricas, onde a capacidade e existência de produção hortícola é considerável, poderá ser um outro condicionalismo”, conclui o engenheiro agrónomo.

Dois lousadenses e uma horta exemplar

Em pleno coração de Paços de Ferreira, um espaço do parque urbano transformou-se, desde 2017, num verdadeiro laboratório de vida, aprendizagem e convivência: as hortas urbanas. O projeto, promovido pela Câmara Municipal, rapidamente conquistou os habitantes da região, criando um espaço que vai muito além do cultivo de vegetais. A gestão está a cargo de Luís Cunha, biólogo, e Ernesto Gonçalves, gestor de património, ambos naturais de Lousada, que acompanham de perto as atividades, zelam pelo equilíbrio ecológico e promovem o intercâmbio de conhecimentos entre os participantes.

“Temos uma adesão brutal, listas de espera, e as pessoas gostam de vir, passar tempo na natureza, conviver com outros participantes e aprender sobre plantas”, conta Luís Cunha ao O Louzadense. Durante o dia, muitos idosos passeiam, observam os trabalhos de cultivo, trocam experiências e cumprimentam os vizinhos. Pequenos grupos partilham sementes, histórias e técnicas, ou simplesmente conversam enquanto mexem a terra e regam as hortas que ocupam uma parte central da cidade.

O projeto não apenas promove a interação social, mas oferece benefícios económicos concretos. Muitos hortelões produzem alimentos que substituem compras no supermercado e participam em trocas informais de produtos, fortalecendo relações de confiança. Além disso, cultivar exige atividade física regular, algo essencial para a maioria dos participantes, cuja idade ultrapassa os 60 anos. “É uma verdadeira prescrição de saúde”, comenta Ernesto Gonçalves.

Outro ponto central das hortas é a transmissão de conhecimento cultural e ambiental. Os participantes plantam espécies tradicionais e medicinais, muitas vezes aprendidas com os avós ou através de experiências familiares. “Aprendemos uns com os outros”, explica Luís Cunha. Toda a produção é biológica, e a preservação da fauna local é uma prioridade. Cobras, por exemplo, desempenham um papel fundamental no controlo de pragas, como ratos, mantendo o equilíbrio do ecossistema urbano.

Gerir 120 talhões não é tarefa simples. Entre os desafios mais frequentes está o armazenamento de ferramentas. Inicialmente, o município construiu pequenas casas de apoio distribuídas pelas hortas, mas estas rapidamente se revelaram insuficientes. Ferramentas desapareciam, portas ficavam abertas e o desgaste era constante. Para contornar o problema, os hortelões construíram pequenas casinhas próprias, algumas feitas com materiais reciclados, integradas na paisagem para minimizar o impacto visual.

Outro desafio é lidar com a curiosidade e, por vezes, a imprudência dos visitantes, que ocasionalmente colhem frutas ou ervas sem autorização. Para o controlo de pragas, utilizam métodos ecológicos, evitando produtos químicos e respeitando a fauna, reforçando o caráter educativo e ambiental do projeto.

O projeto também promove inclusão cultural e social. A maioria dos participantes é portuguesa, mas famílias ucranianas, brasileiras, colombianas e venezuelanas fazem parte da comunidade. A diversidade cultural enriquece o intercâmbio de saberes e fortalece o caráter comunitário da horta. Segundo os entrevistados, o modelo é replicável em Lousada. “Há espaço, há vontade, e a matriz urbana não é muito diferente da nossa”, explica Luís Cunha ao O Louzadense. Hortas urbanas seriam vantajosas para famílias em apartamentos, oferecendo-lhes a oportunidade de cultivar, aprender e socializar.

O projeto também tem impacto na saúde mental. Para muitos participantes, o contato com a natureza, a rotina de cuidar das plantas e a convivência com outros hortelões funcionam como terapia. A paz do parque, a segurança e a constante interação social contribuem para um envelhecimento ativo e saudável. Pequenos projetos de educação ambiental são frequentemente promovidos, transformando a horta num espaço de aprendizagem contínua.

O O Louzadense já destacou várias vezes o projeto, sublinhando-o como exemplo de sustentabilidade urbana e de coesão social. A publicação realça que iniciativas deste tipo podem ser modelo para outros municípios, promovendo hábitos de vida saudáveis, integração cultural e respeito pelo meio ambiente.

Em resumo, as hortas urbanas de Paços de Ferreira combinam sustentabilidade ambiental, benefícios económicos, saúde física e mental, educação cultural e coesão social. Cada canteiro, cada planta e cada troca de saberes representa um pedaço de comunidade e de história viva. O projeto evidencia que pequenas iniciativas locais podem gerar impactos significativos, criando uma cidade mais verde, coesa e sustentável, e servindo de exemplo claro para Lousada.

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