Chega a reta final do ano, as luzes se acendem oficialmente, as montras brilham com mensagens de “descontos imperdíveis” e “ofertas de Natal antecipadas”. A época natalícia, que outrora se centrava no reencontro familiar, na partilha e na pausa, tornou-se o grande palco do consumismo moderno. Em Portugal, onde o poder de compra tem vindo a ser corroído pela inflação e pela subida dos preços, esta contradição é cada vez mais visível.
As famílias portuguesas enfrentam um dilema, manter a tradição de oferecer presentes e mesas fartas, ou adaptar o Natal à nova realidade económica. Segundo dados recentes, o crédito ao consumo cresce todos os anos no último trimestre, um sinal claro de que muitos continuam a comprar mais do que podem pagar. A pressão social é forte, quem não oferece parece menos generoso, quem recusa o jogo do consumo é visto como “anti-natalício”.
Mas vale a pena perguntar: quanto do nosso Natal é verdadeiramente escolha, e quanto é imposição? A publicidade começa cedo, apelando ao sentimento, ao medo de falhar e à ideia de que a felicidade se mede em embrulhos. Contudo, os gestos que mais marcam, um jantar simples, uma conversa demorada, uma lembrança feita à mão, continuam a custar pouco ou nada.
Num país em que o salário médio pouco ou nada acompanha o custo da habitação e dos bens essenciais, insistir num Natal de abundância artificial é alimentar um ciclo de frustração. Talvez seja tempo de redescobrir o Natal como espaço de afeto, e não de consumo, de repensar o valor, não o preço, das coisas.
Não se trata de moralizar o consumo, mas de recuperar o equilíbrio. Comprar pode ser prazeroso e legítimo, desde que não substitua o essencial, a partilha, a presença, o tempo. Num contexto em que o poder de compra é limitado, talvez o gesto mais consciente seja dar menos, mas dar melhor.
Este Natal, em vez de seguir a corrida das luzes e das promoções, talvez devêssemos ouvir a pergunta que raramente se faz nas filas das lojas: “Isto é mesmo necessário?”
Pode ser que a resposta nos devolva o espírito que andamos a tentar comprar há demasiado tempo.













Comentários