por | 22 Dez, 2025 | Opinião

Chega a reta final do ano, as luzes se acendem oficialmente, as montras brilham com mensagens de “descontos imperdíveis” e “ofertas de Natal antecipadas”. A época natalícia, que outrora se centrava no reencontro familiar, na partilha e na pausa, tornou-se o grande palco do consumismo moderno. Em Portugal, onde o poder de compra tem vindo a ser corroído pela inflação e pela subida dos preços, esta contradição é cada vez mais visível.

As famílias portuguesas enfrentam um dilema, manter a tradição de oferecer presentes e mesas fartas, ou adaptar o Natal à nova realidade económica. Segundo dados recentes, o crédito ao consumo cresce todos os anos no último trimestre, um sinal claro de que muitos continuam a comprar mais do que podem pagar. A pressão social é forte, quem não oferece parece menos generoso, quem recusa o jogo do consumo é visto como “anti-natalício”.

Mas vale a pena perguntar: quanto do nosso Natal é verdadeiramente escolha, e quanto é imposição? A publicidade começa cedo, apelando ao sentimento, ao medo de falhar e à ideia de que a felicidade se mede em embrulhos. Contudo, os gestos que mais marcam, um jantar simples, uma conversa demorada, uma lembrança feita à mão, continuam a custar pouco ou nada.

Num país em que o salário médio pouco ou nada acompanha o custo da habitação e dos bens essenciais, insistir num Natal de abundância artificial é alimentar um ciclo de frustração. Talvez seja tempo de redescobrir o Natal como espaço de afeto, e não de consumo, de repensar o valor, não o preço, das coisas.

Não se trata de moralizar o consumo, mas de recuperar o equilíbrio. Comprar pode ser prazeroso e legítimo, desde que não substitua o essencial, a partilha, a presença, o tempo. Num contexto em que o poder de compra é limitado, talvez o gesto mais consciente seja dar menos, mas dar melhor.

Este Natal, em vez de seguir a corrida das luzes e das promoções, talvez devêssemos ouvir a pergunta que raramente se faz nas filas das lojas: “Isto é mesmo necessário?”

Pode ser que a resposta nos devolva o espírito que andamos a tentar comprar há demasiado tempo.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Cool Dance levou dança e emoção ao Euro RX em Lousada

O grupo de dança Cool Dance, a convite do Clube Automóvel de Lousada (CAL), marcou presença no...

Chega setembro, regressam as aulas e, com elas, algumas das memórias de infância e juventude desse...

NOVOS BOMBOS EM LOUSADA (1)

Os Magnetenses: a tradição que ganha nova força Um novo grupo de bombos nasceu em Meinedo com 20...

O ESCUDO INVISÍVEL NO CIRCUITO INTERNACIONAL DE LOUSADA

ED4 levou a segurança no desporto automóvel ao patamar mundial Vamos falar de uma equipa que não...

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS” Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais...

Grande Entrevista a LUÍS MARINHO (CAL)

“Não procuro ficar na história, procuro continuar a fazer mais e melhor” Aos 38 anos,...

JULIANA COSTA, UMA ARTISTA QUE SE REVELA FORA DE LOUSADA

Das raízes em Figueiras à afirmação na arte texturizada Natural de Figueiras, no concelho de...

DECATHLON LIGA PRO JÁ COMEÇOU

Lousada e Aparecida entraram com o pé esquerdo num campeonato que se espera espetacular. Os...

Câmara reforça apoio ao CAL para o Euro RX

A Câmara Municipal de Lousada reforçou em 428.721,27 euros o apoio financeiro ao Clube Automóvel...

EURO RX PROMETE GRANDE ESPETÁCULO

Lousada decide títulos europeus de Ralicross com estreia de corrida noturna O Circuito...

Siga-nos nas redes sociais