O final de 2025, como acontece todos os anos, trouxe consigo os habituais discursos políticos dirigidos aos cidadãos, repletos de promessas, cenários otimistas e expectativas para o futuro. Um ritual previsível, onde as palavras se repetem e a esperança é, uma vez mais, convocada. No entanto, o tempo não recua e as decisões tomadas — acertadas ou erradas — deixam marcas profundas. Quem acaba sempre por pagar a fatura é o cidadão comum, com pouca margem de escolha e praticamente sem instrumentos para contrariar políticas que condicionam o seu quotidiano. Assim, o novo ano entra, mais uma vez, carregado de expectativas que rapidamente se desfazem perante a realidade.
Os aumentos anunciados para salários e pensões revelam-se, na prática, meramente simbólicos. Logo nos primeiros meses do ano, são engolidos pela subida generalizada do custo de vida. O chamado cabaz essencial — habitação, alimentação, saúde, água, eletricidade, gás e comunicações — continua a aumentar sem controlo, deixando trabalhadores e reformados cada vez mais asfixiados. Não se trata de escolhas supérfluas, mas de despesas inevitáveis, às quais ninguém consegue escapar.
A crise da habitação assume contornos dramáticos e exige uma resposta política séria e urgente, tanto por parte do Governo como das autarquias. Comprar ou arrendar casa transformou-se numa decisão de alto risco, inacessível para uma grande parte da população. Jovens veem-se impedidos de sair da casa dos pais, famílias adiam projetos de vida e idosos vivem com o receio constante de não conseguirem suportar rendas cada vez mais elevadas. Em Portugal, ter uma habitação digna deixou de ser um direito efetivo para se tornar um privilégio. Os despejos multiplicam-se, alimentados pela especulação imobiliária, empurrando milhares de pessoas para soluções precárias, como o arrendamento partilhado ou, em situações mais extremas, para a exclusão habitacional.
A realidade das pessoas em situação de sem-abrigo confirma a dimensão do problema social. Segundo os dados oficiais mais recentes, mais de 10.700 pessoas viviam nesta condição em Portugal, um número que expõe o fracasso das políticas de inclusão e de proteção social.
No contexto europeu, Portugal destaca-se negativamente num indicador essencial: o conforto térmico das habitações. O país apresenta a maior proporção de pessoas a viver em casas sem capacidade para serem adequadamente aquecidas, um sinal claro de desigualdade estrutural e de falhas profundas nas políticas sociais e habitacionais.
Os dados recentemente divulgados pela Pordata, no âmbito do Dia Internacional para a
erradicação da Pobreza, assinalado a 17 de outubro, traçam um retrato preocupante do país. A taxa de risco de pobreza atinge mais de 1,7 milhões de portugueses, sendo particularmente severa entre crianças e jovens, bem como nas famílias com dependentes. A pobreza intensifica-se: os pobres estão mais pobres, registando-se o maior aumento da intensidade da pobreza da última década. Um em cada dez trabalhadores, mesmo no exercício de atividade laboral, vive em situação de pobreza — um dado que desmonta o discurso de que o emprego, por si só, garante dignidade.
Os sucessivos governos têm adotado opções políticas que penalizam sistematicamente os mais vulneráveis. O Orçamento do Estado para o próximo ano não foge a esse padrão. Apesar da retórica otimista, continua a penalizar quem mais depende do trabalho e das pensões: trabalhadores da Administração Pública, pensionistas e também aqueles que aguardam aumentos salariais dignos no âmbito da concertação social. O discurso político promete um futuro melhor, mas a realidade insiste em mostrar que, a cada ano novo, continuam a reciclar-se velhas políticas — e que são sempre os mesmos a pagar pelos erros e falhanços das opções governativas.
A Greve Geral do passado dia 11 de dezembro, promovida pelas duas centrais sindicais, CGTP e UGT, bem como por outras organizações sindicais independentes, tornou clara a rejeição da esmagadora maioria dos trabalhadores face à proposta do Governo relativa às alterações ao Código do Trabalho. Os sucessivos governos, em vez de protegerem os mais frágeis, têm-se colocado ao lado das confederações patronais, apostando no corte de direitos, no emprego precário, nos baixos salários e no empobrecimento dos trabalhadores e reformados. Este é o receituário imposto aos mais vulneráveis, sob o argumento da competitividade e do crescimento económico, deixando as mãos livres aos mais ricos e poderosos.
A CDU exige mais investimento público que melhore efetivamente a vida de quem mais precisa: melhor emprego e valorização dos salários, reformas dignas e o fim das penalizações no cálculo das pensões. Defende a construção urgente de mais habitação pública para enfrentar a especulação imobiliária. Exige a construção de mais creches para responder às necessidades das famílias trabalhadoras, mais lares de idosos e mais centros de saúde. A CDU não está sozinha nesta exigência por melhores condições de vida. Este retrato centra-se não apenas na evolução da pobreza, mas também noutros fatores que a influenciam diretamente, como o preço da habitação em comparação com outros países europeus. Ano após ano, reciclam-se velhas políticas. E, como sempre, são os mesmos a pagar a fatura.
Alberto Torres
Ex-Candidato da CDU à Câmara Municipal de Lousada













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