por | 24 Abr, 2026 | Opinião

O 25 de Abril de 1974 é, antes de mais, um marco de liberdade política. Mas reduzir a Revolução dos Cravos à conquista do direito de voto, de expressão ou de associação é esquecer uma das suas dimensões mais transformadoras: a económica e social, profundamente ligada à afirmação da classe trabalhadora em Portugal. Antes do 25 de Abril, o país vivia sob uma ditadura que reprimia não apenas a liberdade política, mas também os direitos laborais. Salários baixos, jornadas de trabalho extensas, inexistência de negociação coletiva efetiva e repressão sindical eram parte da normalidade.

O crescimento económico dos anos 60 beneficiava sobretudo grandes grupos económicos, enquanto a maioria dos trabalhadores permanecia na pobreza ou na emigração forçada. A economia crescia, mas o povo não. A Revolução abriu caminho a uma profunda reorganização económica. Nos meses que se seguiram, a classe trabalhadora tornou-se sujeito ativo da transformação social. Surgiram comissões de trabalhadores, multiplicaram-se greves e reivindicações, e a democracia entrou, pela primeira vez, nos locais de trabalho.

O direito à sindicalização livre, à contratação coletiva e à greve passou a ser reconhecido como pilar da nova ordem democrática. As nacionalizações de setores estratégicos — banca, seguros, energia e transportes — tiveram um papel decisivo na redistribuição do poder económico. Independentemente das leituras ideológicas, é inegável que essas medidas quebraram a concentração de riqueza e permitiram ao Estado assumir um papel central no desenvolvimento, no investimento público e na proteção social.

O Serviço Nacional de Saúde, a escola pública universal e a segurança social alargada são conquistas diretas desse período, profundamente ligadas à dignidade do trabalho. A Constituição de 1976 consagrou direitos inéditos: o direito ao trabalho, ao salário justo, ao descanso, à proteção no desemprego e à participação dos trabalhadores na gestão das empresas. Pela primeira vez, o trabalho deixou de ser visto apenas como um fator de produção e passou a ser reconhecido como base da cidadania económica. Cinco décadas depois, o legado económico do 25 de Abril enfrenta novos desafios.

A precarização laboral, a perda de poder de compra, o enfraquecimento da negociação coletiva e a orientação financeira da economia colocam em risco conquistas que muitos tomam como garantidas. Ainda assim, é importante recordar que os direitos existentes não nasceram da benevolência do mercado, mas da ação coletiva impulsionada pela Revolução. Celebrar o 25 de Abril é, portanto, mais do que celebrar a liberdade política.

É reafirmar que não há democracia plena sem justiça social, nem liberdade verdadeira quando o trabalho é desvalorizado. A Revolução dos Cravos ensinou-nos que a classe trabalhadora não é apenas destinatária da democracia — é uma das suas principais construtoras. Defender o seu legado é garantir que Abril continua vivo no presente e com futuro.

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Cool Dance levou dança e emoção ao Euro RX em Lousada

O grupo de dança Cool Dance, a convite do Clube Automóvel de Lousada (CAL), marcou presença no...

Chega setembro, regressam as aulas e, com elas, algumas das memórias de infância e juventude desse...

NOVOS BOMBOS EM LOUSADA (1)

Os Magnetenses: a tradição que ganha nova força Um novo grupo de bombos nasceu em Meinedo com 20...

O ESCUDO INVISÍVEL NO CIRCUITO INTERNACIONAL DE LOUSADA

ED4 levou a segurança no desporto automóvel ao patamar mundial Vamos falar de uma equipa que não...

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS” Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais...

Grande Entrevista a LUÍS MARINHO (CAL)

“Não procuro ficar na história, procuro continuar a fazer mais e melhor” Aos 38 anos,...

JULIANA COSTA, UMA ARTISTA QUE SE REVELA FORA DE LOUSADA

Das raízes em Figueiras à afirmação na arte texturizada Natural de Figueiras, no concelho de...

DECATHLON LIGA PRO JÁ COMEÇOU

Lousada e Aparecida entraram com o pé esquerdo num campeonato que se espera espetacular. Os...

Câmara reforça apoio ao CAL para o Euro RX

A Câmara Municipal de Lousada reforçou em 428.721,27 euros o apoio financeiro ao Clube Automóvel...

EURO RX PROMETE GRANDE ESPETÁCULO

Lousada decide títulos europeus de Ralicross com estreia de corrida noturna O Circuito...

Siga-nos nas redes sociais