O 25 de Abril de 1974 é, antes de mais, um marco de liberdade política. Mas reduzir a Revolução dos Cravos à conquista do direito de voto, de expressão ou de associação é esquecer uma das suas dimensões mais transformadoras: a económica e social, profundamente ligada à afirmação da classe trabalhadora em Portugal. Antes do 25 de Abril, o país vivia sob uma ditadura que reprimia não apenas a liberdade política, mas também os direitos laborais. Salários baixos, jornadas de trabalho extensas, inexistência de negociação coletiva efetiva e repressão sindical eram parte da normalidade.
O crescimento económico dos anos 60 beneficiava sobretudo grandes grupos económicos, enquanto a maioria dos trabalhadores permanecia na pobreza ou na emigração forçada. A economia crescia, mas o povo não. A Revolução abriu caminho a uma profunda reorganização económica. Nos meses que se seguiram, a classe trabalhadora tornou-se sujeito ativo da transformação social. Surgiram comissões de trabalhadores, multiplicaram-se greves e reivindicações, e a democracia entrou, pela primeira vez, nos locais de trabalho.
O direito à sindicalização livre, à contratação coletiva e à greve passou a ser reconhecido como pilar da nova ordem democrática. As nacionalizações de setores estratégicos — banca, seguros, energia e transportes — tiveram um papel decisivo na redistribuição do poder económico. Independentemente das leituras ideológicas, é inegável que essas medidas quebraram a concentração de riqueza e permitiram ao Estado assumir um papel central no desenvolvimento, no investimento público e na proteção social.
O Serviço Nacional de Saúde, a escola pública universal e a segurança social alargada são conquistas diretas desse período, profundamente ligadas à dignidade do trabalho. A Constituição de 1976 consagrou direitos inéditos: o direito ao trabalho, ao salário justo, ao descanso, à proteção no desemprego e à participação dos trabalhadores na gestão das empresas. Pela primeira vez, o trabalho deixou de ser visto apenas como um fator de produção e passou a ser reconhecido como base da cidadania económica. Cinco décadas depois, o legado económico do 25 de Abril enfrenta novos desafios.
A precarização laboral, a perda de poder de compra, o enfraquecimento da negociação coletiva e a orientação financeira da economia colocam em risco conquistas que muitos tomam como garantidas. Ainda assim, é importante recordar que os direitos existentes não nasceram da benevolência do mercado, mas da ação coletiva impulsionada pela Revolução. Celebrar o 25 de Abril é, portanto, mais do que celebrar a liberdade política.
É reafirmar que não há democracia plena sem justiça social, nem liberdade verdadeira quando o trabalho é desvalorizado. A Revolução dos Cravos ensinou-nos que a classe trabalhadora não é apenas destinatária da democracia — é uma das suas principais construtoras. Defender o seu legado é garantir que Abril continua vivo no presente e com futuro.













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