O Plano de Recuperação e Resiliência é, à partida, uma boa notícia. Traz investimento, permite acelerar projectos e dá às autarquias uma margem que normalmente não têm. O problema não está no dinheiro. Está na forma como se decide gastá-lo. Há uma ideia simples que qualquer pessoa percebe: construir acontece uma vez, manter acontece todos os dias. A obra tem um custo imediato. A conta fica para sempre, na manutenção, na electricidade, nos recursos humanos, nas reparações inevitáveis. No orçamento da autarquia. No bolso de todos nós.
Por isso, cada decisão de investimento não é apenas uma escolha sobre o que fazer. É também uma escolha sobre o que fica por fazer. E quando decidimos mal, não perdemos apenas dinheiro. Perdemos a oportunidade de resolver problemas reais. Em Lousada, isso é visível de forma concreta. A escola de Pias com necessidades evidentes. Estradas em Nevogilde, Lustosa e no Torno em estado de degradação avançado. L
ixeiras a céu aberto na serra de Campelos. Piscinas municipais com instalações longe do mínimo aceitável. Não é falta de investimento. É falta de critério. Ao mesmo tempo, surgem projectos de utilidade questionável: estruturas que existem mas não são usadas, intervenções com visibilidade mas sem impacto, iniciativas que não geram actividade nem resolvem problemas, mas que geram custos permanentes.
A raiz do problema está nos incentivos. Quando estes estão alinhados com o curto prazo e com o calendário político, o resultado é sempre o mesmo. O que prevalece é o que tem visibilidade imediata, mesmo que crie encargos amanhã. A obra feita vale mais do que a obra útil. As decisões são tomadas para mostrar, não para durar. Nem todo o investimento é igual. Um equipamento bem pensado pode atrair utilizadores, gerar receita e ajudar a suportar os seus próprios custos, libertando margem para investimentos de cariz social que, pela sua natureza, não geram retorno directo. Outros investimentos apenas existem. E quando assim é, passam a ser apenas mais uma despesa.
E aqui está o ponto que não pode ser ignorado: o PRR vai acabar. Não há no horizonte qualquer previsão de um novo ciclo de fundos europeus com esta dimensão. Quando isso acontecer, as autarquias ficam entregues aos seus próprios meios. Às transferências do Estado central. Às receitas próprias.
À capacidade que tiveram, ou não, de construir uma base económica local que sustente o concelho e os serviços que este tem obrigação de prestar. Se os investimentos feitos agora não gerarem actividade económica, não atraírem empresas, não fixarem população, não criarem condições para que o concelho cresça, então o dia em que os fundos acabam será também o dia em que os problemas se tornam insolúveis. Não haverá dinheiro para manter o que foi construído. Não haverá margem para o serviço social que o município tem de garantir. Haverá apenas estruturas a degradar e promessas por cumprir. Sem critério e sem alinhamento de incentivos, o desfecho é uma consequência, não uma surpresa.
O investimento vai acumulando sem sustentabilidade, a despesa vai crescendo sem retorno, e surgem os sinais conhecidos: dificuldade em manter o que já existe, degradação do essencial, pressão crescente sobre os orçamentos. Em Lousada, como no país, fomos habituados a uma forma de governar orientada para o anúncio, para a obra visível, para o ciclo político. Fazer agora, resolver depois.
O problema é que o “depois” não desaparece. Vai acumulando. E quando chega, já não há fundos extraordinários. Há apenas escolhas que não foram feitas a tempo. As pessoas não vivem de inaugurações. Vivem de escolas que funcionam, de estradas em condições, de serviços que respondem. E vivem, acima de tudo, num concelho que precisa de ter futuro.
O PRR pode ser uma oportunidade única. Mas só o será se for tratado como o que é: não uma dádiva sem consequências, mas a última grande janela de investimento de que dispomos. Usá-la bem significa decidir não pelo que é mais visível, mas pelo que é mais útil. Não pelo que rende hoje eleitoralmente, mas pelo que sustenta o concelho daqui a dez ou vinte anos. Porque construir é fácil. Difícil é tudo o que vem depois. E o depois, desta vez, está mesmo a chegar.













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