Há coisas tão presentes na nossa vida que deixámos simplesmente de olhar para elas. Os muros antigos de pedra são um desses exemplos. Com o tempo, deixámos de olhar para eles com a mesma atenção. Continuam ali, nos caminhos rurais, junto às bouças, nas margens dos campos, ao lado das casas antigas e das levadas, mas já não são a mesma coisa. E talvez por isso valha a pena voltar a falar deles. A verdade é que nunca foi tão interessante voltar a olhar para uma parede.
Enquanto éramos novos, os muros eram muito mais do que pedras empilhadas. Eram aventura. Eram desafio. Eram brincadeira. Lembro-me de olhar para os buracos entre as pedras para ver que bichos estariam escondidos ali. Depois, esses mesmos buracos, serviam para escalar, testar a força dos braços e andar em cima dos muros a testar o equilíbrio sem cair.
Hoje, olhar para esses mesmos muros dá aquela nostalgia do tempo de criança. Continua a existir aquela vontade quase infantil de os trepar outra vez, mas agora o olhar é diferente. Hoje o olhar vai à procura de outras coisas: a cor que eles têm, o estado em que eles estão, se tem lagartixas a aquecer o corpo ao sol, salamandras escondidas na humidade, se tem pequenas cobras entre as fendas, ou ninhos de mochos ou corujas, umbigos-de-vénus agarrados às pedras e margaridas para comer as pétalas, ou a “planta-do-betadine” para pintar ou, simplesmente, se tem musgos para apalpar enquanto se está por ali.
E realmente, se olharmos com atenção, cruzarmos os braços e inclinarmos a cabeça como quem presta atenção, podemos até vir a sentir que “um muro antigo nunca é apenas um muro”.
É património construído. É memória. É biodiversidade. É história. E é também um pequeno ecossistema vertical cheio de vida.
Durante séculos, os muros antigos de pedra ajudaram a organizar e a moldar a paisagem das aldeias, vilas e cidades. Delimitavam propriedades, protegiam culturas, seguravam terras agrícolas e marcavam caminhos e divisões familiares. Foram construídos pelo esforço humano, através do encaixe paciente da pedra, aproveitando as pedras e os calhaus existentes no território e o conhecimento passado entre gerações.
Afinal, os muros ainda nos contam histórias. Ora pela forma como a pedra foi colocada, ora pela altura, pela largura ou pelo tipo de construção, muitas vezes conseguimos perceber a função que tiveram e até a época em que poderão ter sido erguidos. Até podemos adivinhar se o proprietário era mais rico ou mais humilde…
Talvez por isso seja tão interessante observar os muros quando estou no terreno com o meu colega Luís. É curioso perceber como duas pessoas podem olhar exatamente para o mesmo muro… e ver coisas completamente diferentes.
O biólogo, começa imediatamente a procurar fetos, musgos, líquenes, plantas e animais associados a este habitat. Já o meu olhar vai tentando perceber porque foi aquele muro construído, quem o terá feito, época, que função teria e que histórias estarão escondidas naquela parede antiga.
Duas pessoas com olhares distintos, mas o mesmo muro. O mesmo propósito. Talvez uma simbiose perfeita de interpretar património e natureza ao mesmo tempo.
Talvez, uma das plantas mais fascinantes destes muros seja a douradinha (Ceterach officinarum), um pequeno feto raro na nossa terra, Lousada, mas muito comum em Paços de Ferreira. Discreta, resistente e lindíssima, cresce nas pequenas fendas da pedra, muitas vezes em locais aparentemente impossíveis.
A douradinha (na fotografia em baixo) tem uma particularidade extraordinária: quando seca, enrola-se sobre si própria e parece morta. Apresenta-se com um tom amarelo-dourado, daí o nome da planta. Mas basta regressar a humidade e a chuva para voltar a abrir e recuperar a sua cor verde. Uma verdadeira lição de evolução adaptativa.
Além dela, os muros antigos suportam uma enorme diversidade de vida como musgos, líquenes, heras, pequenos fetos, insetos, aranhas, escaravelhos, caracóis, lagartixas, cobras e até anfíbios em zonas mais húmidas. As pedras acumulam calor, criam sombra, retêm humidade e funcionam como abrigo para inúmeras espécies.
Um muro antigo de pedra não é apenas uma parede velha. É património material e imaterial de uma comunidade.
Infelizmente, muitos destes muros vão desaparecendo. O abandono da agricultura, as obras, o alargamento de caminhos e estradas, e a substituição por materiais modernos e cimento fazem com que percamos não apenas aquele património construído, mas também a biodiversidade e identidade da paisagem rural.
Porque quando desaparece um muro antigo… desaparece muito mais do que as pedras ali postas. Desaparecem habitats. Desaparecem memórias. Desaparece conhecimento. E desvanece a relação entre as pessoas, a natureza e o território.
Quando ficamos a observar um muro destes e temos tempo para refletir um pouco, talvez nos apercebamos que a natureza não existe apenas nas florestas ou nos grandes espaços naturais. Às vezes vive escondida numa pequena fenda entre as pedras, num musgo ou num feto que quase ninguém vê.
Agora pensa:
Há quanto tempo não observas um muro antigo com atenção?
E quantos pequenos mundos estarão escondidos nas coisas que passamos todos os dias sem reparar?
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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