AS AMORAS – Há uma altura do ano em que os caminhos dão sobremesa a quem passa. Há frutos que se comem com a boca, mas as amoras comem-se primeiro com os olhos, depois com as mãos e só no fim com a boca.
Chega o mês de julho e, quase sem darmos por isso, os caminhos começam a mudar de cor. Entre os muros antigos, nas bermas dos caminhos, junto aos campos, e nos terrenos que deixámos de cultivar, as silvas crescem, entrelaçam-se, amontoam-se, e ocupam espaço, muito espaço. Durante grande parte do ano, muita gente olha para elas apenas como mato. Picam. Prendem-se à roupa. Arranham-nos as pernas. Invadem os terrenos. E, quando crescem demasiado, queremos sempre cortá-las.
Mas depois, quando chegam as amoras, tudo muda!
De repente, aquela planta incómoda começa a oferecer pequenos frutos que passam do verde ao vermelho e do vermelho ao preto arroxeado e brilhante. O leitor sabe perfeitamente o que isso significa, uma sobremesa ali à mão.
Se estamos acompanhados, há sempre alguém que possa dizer:
— “Não comas muitas, que ainda te fazem mal.”
Mas como é que se explica a uma criança — ou até a muitos adultos — que deve parar quando ainda há amoras maduras e docinhas mesmo ali à frente?
Apanha-se uma, e depois outra. Uma porque parece maior, ou outra que está mais preta.
Normalmente a que está mais alta parece ainda melhor.
E, quando damos por nós, temos os dedos manchados, um pequeno arranhão provocado por um espinho e a sensação de que aquela amora que está um pouco mais longe, precisamente no sítio mais difícil de alcançar, deve ser certamente a melhor de todas!
Talvez seja esse um dos encantos das amoras: nunca foram apenas um fruto. Foram também uma pequena aventura e um jogo infantil.
Na minha terra, os mais velhos diziam para mim:
— “Se estão verdes, não colhas. Se estão vermelhas, não comas. Quando estiverem pretas, come, mas não estragues.”
A planta que nos oferece as amoras-silvestres é a silva (que em latim significa floresta). No nosso território, uma das espécies mais comuns é Rubus ulmifolius, pertencente à família das Rosáceas. É uma planta vigorosa, capaz de formar silvados densos nas margens dos caminhos, terrenos abandonados, sebes e orlas de bosques. As suas flores são brancas ou rosadas, e são visitadas por variados insetos que, mais tarde, dão lugar aos frutos que tão bem conhecemos. Aquilo a que chamamos uma amora é, botanicamente, um fruto formado pela reunião de muitas pequenas drupas, juntas naquele pequeno conjunto que levamos inteiro à boca.
Contudo quando perguntamos a um adulto ou a uma criança se conhecem as silvas, a resposta é inata: “são aquelas que picam”! Picam, sim, mas as silvas são muito mais do que isso!
Na verdade, durante séculos, as pessoas aprenderam a tirar partido de muito mais do que os seus frutos. Os caules das silvas, por exemplo, depois de preparados, serviam para fazer cordas, para amarrar coisas de improviso ou usadas como utensílios no quotidiano das pessoas. A sua flexibilidade e resistência tornavam-nas úteis em tempos difíceis e de escassez de materiais.
Também diferentes partes da planta foram utilizadas na medicina popular. Os rebentos e as folhas jovens aparecem associados a diferentes usos tradicionais, e as folhas da silva são conhecidas pela presença de taninos e pelas suas propriedades adstringentes, anti-inflamatórias e de regulação intestinal. As amoras têm propriedades antioxidantes o que me permite dizer, a quem me faz companhia nas caminhadas, que são ótimas para ter uma pele mais bonita, porque combate o envelhecimento celular. Antes de existirem farmácias em cada vila, medicamentos disponíveis em casa ou um produto específico para cada pequena maleita, muitas comunidades procuravam nas plantas que conheciam respostas para alguns problemas do quotidiano. No caso, a silva e a amora são excelentes exemplos.
Um silvado é muito mais do que um emaranhado incómodo de ramos e espinhos. Presta um serviço brutal no nosso ecossistema. As flores fornecem alimento a insetos polinizadores. Os frutos alimentam aves, mamíferos e, claro, pessoas. A vegetação densa oferece abrigo e proteção, e as próprias silvas podem funcionar como barreiras naturais ou servir de materiais para o quotidiano das pessoas. Aquilo que, aos olhos de alguém, parece apenas um sítio “por limpar” pode, para muitos animais, ser casa, esconderijo, maternidade ou até um restaurante natural!
E aqui começa uma das contradições mais interessantes da nossa relação com a Natureza.
Gostamos da amora. Mas nem sempre gostamos da silva que a produz!
Queremos o fruto, mas não queremos os espinhos!
Queremos as aves, mas nem sempre queremos o mato onde se escondem.
Queremos biodiversidade, mas continuamos muitas vezes a imaginar que uma paisagem saudável tem de estar completamente limpa, aparada e controlada.
Talvez a silva nos obrigue a refletir precisamente sobre isso: nem tudo aquilo que parece desorganizado está abandonado e, nem tudo aquilo que está “limpo” está cheio de vida.
Muito antes de existirem supermercados, pomares organizados ou embalagens de fruta, os seres humanos já procuravam alimento diretamente na paisagem. Durante a Pré-História, a recolha de frutos silvestres fazia parte das estratégias de subsistência das comunidades humanas. Os vestígios arqueológicos de frutos pequenos são difíceis de conservar e de encontrar, mas sabemos que a relação entre as populações humanas e os frutos do género Rubus é muito antiga.
Podemos, por isso, imaginar — com a prudência e cautela que a História exige — que as amoras acompanham a alimentação humana há muitos milhares de anos. No Paleolítico, conhecer os frutos silvestres disponíveis podia fazer a diferença entre comer e passar fome. Com o Neolítico e o desenvolvimento da agricultura, continuou-se a recolher aquilo que a Natureza oferecia espontaneamente. Entre as comunidades castrejas, os bosques, encostas e margens continuavam a complementar os campos cultivados. E os Romanos conheciam e utilizavam muito bem os frutos do género Rubus. Durante a Idade Média, as amoras continuaram a ser um alimento sazonal, acessível e gratuito. Agora reparem, mudaram os povos, as casas, os caminhos e as formas de produzir alimento, mas a amora continuou ali, na silva, à espera, todos os anos.
Estamos perante um alimento que não precisou de esperar pela invenção da agricultura para fazer parte da nossa história, e que também fez muito parte da minha.
Lembro-me perfeitamente das férias escolares, sobretudo dos meses de julho e agosto, quando as amoras apareciam e começava a apanhá-las. Escolhia as mais pretas, porque essas eram as maduras, e fazia aquilo a que chamava umas papas de amoras doces. Colhia muitas, lavava-as, colocava-as num prato e esmagava-as com um garfo.
E, como se as amoras maduras já não fossem suficientemente doces, ainda lhes juntava açúcar!
As primeiras colheradas eram deliciosas. Mas, quando era mais guloso e comia demasiadas, ficava enjoado de tão doce que aquilo estava.
Também fiz gelados de amoras. O processo começava praticamente da mesma maneira, mas depois colocava aquela mistura em copos de plástico de iogurte vazios, espetava um pau de gelado no meio e levava tudo ao congelador. Para uma criança, em férias de verão, aquilo era o suficiente para transformar numa sobremesa inventada em casa tal qual um chefe gourmet!
Hoje continuo a colher amoras.
Às vezes nem chegam a casa. Vou-me saciando delas junto às próprias silvas.
Outras vezes trago-as comigo e como-as como quem come pipocas, enquanto vejo um filme, um documentário, ou leio um livro.
Quando o meu filho era mais novo, também o levava a colher amoras. E, com ele, repetia alguns dos ensinamentos que tinham chegado até mim. Ensinava-lhe, por exemplo, a evitar os frutos demasiado baixos, junto aos caminhos, onde podem estar mais expostos à sujidade e à contaminação. Mas também lhe transmitia aquelas histórias que não pertencem propriamente à botânica e que, mesmo assim, fazem parte da nossa relação com a planta.
A minha mãe ainda me lembra que, a minha avó lhe dizia que, depois de 24 de agosto – dia de São Bartolomeu, de Penafiel, – sobretudo se começasse a chover, “já não se podiam comer as amoras porque o carrapato (o diabo) tinha feito xixi nelas!”
É evidente que o diabo teria muito trabalho se tivesse de percorrer todos os silvados da nossa região…
Mas a história ficou. Espero que continue viva.
E, talvez, como acontece com tantas crenças populares, esta história escondesse uma forma simples de transmitir um aviso. Com o avançar da estação, os frutos demasiado maduros começam a deteriorar-se, a fermentar e a perder qualidade. A lenda dava uma personagem e uma imagem fácil de recordar àquilo que a ciência e a nutrição agora ensinam.
Depois havia as brincadeiras:
— “Tu gostas de amoras?”
E, se alguém respondesse que sim, vinha imediatamente a sentença:
— “Então vou dizer ao teu pai que já namoras!”
Era assim que se brincava.
E era também assim, sem percebermos, que se criavam memórias ligadas às plantas, aos caminhos e às pessoas.
Mas nem todas as memórias das amoras são propriamente românticas.
Eu era um pouco lambão. E também gostava da brincadeira. Por isso, raramente levava uma bacia ou qualquer recipiente quando ia colher amoras. A solução parecia-me muito mais simples: segurava a parte da frente da t-shirt com uma mão, transformando-a numa espécie de cesto improvisado, e com a outra mão ia colhendo as amoras.
Funcionava muito bem. Mas apenas até chegar a casa…
A t-shirt ficava manchada de preto, azul e roxo, e as nódoas eram difíceis de retirar. Muitas vezes, a aventura acabava num ralhete dos meus pais ou dos meus avós e, em alguns casos, com a t-shirt no caixote do lixo. Ou então reutilizada como pano de limpar o pó!
As mãos também me denunciaram muitas vezes.
Os dedos e as unhas ficavam escuros e feios durante algum tempo, o que me dava algum mau aspeto e até alguma vergonha quando tinha de mostrar as mãos.
Mas, no verão seguinte, voltava a fazer exatamente a mesma coisa! Era desafiante e delicioso.
Talvez uma das primeiras regras que aprendemos sobre as amoras seja aquela que quase nunca conseguimos cumprir:
— “Não comas muitas, que ainda te fazem mal.”
E, neste caso, posso confirmar por experiência própria que os mais velhos tinham muita razão.
Comer muitas amoras pode provocar algum desconforto intestinal — aquilo a que, sem grandes rodeios, chamávamos ‘caganeira’, em algumas pessoas e, no meu caso, houve ocasiões em que a consequência foi exatamente aquela de que me tinham avisado…
As amoras foram, ao longo do tempo, comidas frescas, transformadas em doces, compotas, geleias, sumos e outras preparações. Mas talvez aquilo que mais tenha sobrevivido não seja uma receita específica, mas sim o gesto de parar, olhar para as silvas, escolher as amoras, esticar o braço sem ser picado, colher as amoras mais maduras e doces sem as ralar, e depois comer e saborear. Sem desperdício.
Hoje podemos comprar amoras numa pequena caixa no supermercado. Até podem ser mais bonitas, selecionadas, transportadas e colocadas cuidadosamente numa prateleira. E ainda bem que assim é.
Mas falta-lhes muita coisa.
Falta o caminho. Falta-lhes escolher com os olhos e esticar o braço.
Falta-lhes calcular onde colocar o pé e o susto e a dor do espinho que fica preso na pele ou se prende na camisola.
Falta-lhes olhar para os dedos e para os dentes e perceber que ficaram manchados.
Falta aquele sabor nostálgico do momento.
Ou até talvez falte também aquela t-shirt que não devíamos ter usado para as transportar.
Talvez seja por isso que uma amora apanhada diretamente da silva nunca saiba exatamente ao mesmo que uma amora comprada.
Acho eu que não é apenas o sabor que muda. É a história que vem agarrada ao fruto.
Conhecer uma silva não é apenas aprender o seu nome científico, as propriedades medicinais e conhecimentos botânicos.
É perceber que as suas flores alimentam insetos, que os seus frutos alimentam animais e pessoas, que os seus ramos oferecem abrigo e que, durante milhares de anos, os seres humanos aprenderam a reconhecer nela uma fonte de alimento, um recurso e uma parte da paisagem.
É compreender que o território não é apenas aquilo que construímos, mas antes aquilo que temos.
Aquilo que transmitimos aos nossos filhos…
Talvez, neste verão, quando passarmos junto a uma silva carregada de amoras, possamos parar por alguns segundos.
Colher uma amora e lembrar um par de histórias muito mais antigas do que nós.
Porque há frutos que se comem com a boca.
Mas as amoras comem-se primeiro com os olhos, depois com as mãos e, só no fim, com a boca.
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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