por | 16 Set, 2026 | Ambiente, Património Cultural

Chega setembro, regressam as aulas e, com elas, algumas das memórias de infância e juventude desse período. Entre elas está um fruto especial: o marmelo.
O final das férias de verão era marcado pela colheita de marmelos diretamente das árvores. Aquele fruto duro, azedo, pesado, coberto de pelos e feio, acabava nas mãos da minha avó para ser transformado em marmelada e em geleia.
À volta daquela mesa, púnhamos várias bacias. Numa delas estavam os marmelos colhidos. Com uma faca descascávamos e, para outra bacia, iam as cascas. Noutra colocava-se o fruto já descascado. Em cima da mesa colocava-se uma toalha ou um pano e, aí, ficavam as sementes. Era um serão demorado e duro. Descascar marmelos fazia calos nos dedos e nada se desperdiçava. A parte carnuda do fruto era para fazer a marmelada, as cascas serviam para fazer a geleia e as sementes eram levadas para alimentar as galinhas da minha avó. Hoje, sem a presença dela, a tradição continua na casa da minha mãe. Ainda este setembro foi assim em nossa casa.
Numa panela grande, o peso de marmelos e quase o mesmo peso de açúcar, lume brandinho e duas horas de espera. Depois acontece a magia: o fruto amolece e ganha aquela cor vermelho-alaranjada. Aquele perfume espalha-se pela casa e a varinha transforma tudo numa pasta. Aí, chega o momento mais divertido dos mais novos – roubar a marmelada do tacho com os próprios dedos e lambuzar os lábios enquanto ainda está quente. Depois, a marmelada vai para as malgas (hoje, utilizam-se tupperwares); umas ficam simples, outras recebem noz triturada, ou amêndoa laminada, ou bocadinhos de avelã. Depois de arrefecer, há ainda o velho segredo que a minha mãe também usa para a conservar: coloca um papel fino por cima e, de seguida, pincela com um pouco de água-ardente, e mais um segredo que não posso revelar aqui. Assim, bolores e fungos não atacam e a marmelada dura mais tempo.
Fazer marmelada é um excelente entretenimento e, no fim, o paladar fala por si!
O marmeleiro (Cydonia oblonga), pertence à família das Rosáceas. É considerada uma pequena árvore ou arbusto de grande porte, originário da região do Cáucaso e da Ásia Central. É  cultivado pelo ser humano há milhares de anos e percorreu antigas rotas até chegar ao Mediterrâneo, à Europa e a Portugal. O fruto, rico em açúcares e pectinas, além de duro, é ácido e adstringente quando cru, mas transforma-se completamente quando cozinhado.
A história do marmelo é, acredito eu, uma história de pessoas, natureza e tradição. Os gregos e os romanos já o conheciam e, em diferentes culturas antigas, o fruto esteve associado ao amor, à fertilidade, à felicidade e ao casamento.
O marmelo é um fruto muito interessante, mais que um simples alimento. É toda a planta em si e o cunho ancestral que ela carrega.
O marmeleiro também é património natural. Dá sombra, abrigo, alimento, presta um excelente serviço de ecossistema, contribui para a produção de oxigénio, para a regulação do ambiente, e tantas outras coisas. E ainda nos oferece madeira dura, resistente e suficientemente flexível para tantos usos tradicionais.
Foi aqui que, na minha infância, o marmeleiro teve outra função. Lembro-me de que, quando fazia alguma asneira, ouvia muitas vezes: “Vou buscar um pau de marmeleiro que tu vais já aprender!” E uma fustigada de pau de marmeleiro doía… e doía muito! Ou então aquela expressão “anda cá meu marmelo que tu vais ver”, quando nos armávamos em “chico-esperto”. Mas o mesmo pau podia ser transformado num cajado de pastor, auxiliar na ordenha do gado e das ovelhas nas montanhas, ou servir como instrumento de defesa contra cães vadios ou assaltantes. O marmeleiro também é uma madeira muito apreciada para o antigo jogo do pau, reconhecida pela sua resistência e flexibilidade.
Outra lembrança, do marmelo e da marmelada, que tenho ligada à minha juventude, está relacionada com o tempo em que eu praticava futebol e karaté. E isto acontecia quase sempre. Antes das competições ou durante os intervalos, os treinadores davam-nos bolachas com bastante marmelada. Diziam que era energia para jogar melhor. Hoje, curiosamente, o marmelo continua presente em minha casa, mas de outra forma: a sobremesa preferida da minha esposa é o famoso “Romeu e Julieta” — queijo com marmelada.
E há ainda uma expressão que, na minha aldeia, se costuma dizer: “Fazer marmelada”, não é só preparar marmelos, pode ser uma forma popular de dizer… fazer o amor. Por isso, quando chega a época da marmelada, a piada lá em casa é quase obrigatória: “Então, hoje vais fazer marmelada?” Outra expressão muito engraçada, que se ouvia antigamente, era dizer às raparigas que: “têm uns marmelos grandes”, o que significa que é avantajada por ter mamas grandes!
Talvez seja por tudo isto que gosto no marmelo. O fruto que pode ser muito mais do que o próprio fruto. Pode ser comida, medicina tradicional, madeira, ferramenta, brincadeira, castigo, profissão, linguagem, amor e memória.
Quando hoje passeio, sozinho, ou acompanhado, gosto de relembrar o marmelo, contar histórias e outras curiosidades sobre este fruto. E gosto ainda mais de ouvir as histórias dos outros. Porque é assim que percebemos que a natureza também faz parte da pessoa que somos hoje.
Falar de marmelos, de marmelada ou de um simples pau de marmeleiro é falar dos nossos antepassados, é mantê-los vivos na nossa memória, assim como os seus conhecimentos, as suas necessidades, os seus costumes e a forma inteligente como aprenderam a aproveitar aquilo que a terra lhes dava.
E talvez seja esse o património interessante que nos pode apaixonar pelas coisas: aquilo que recebemos da natureza, aquilo que aprendemos com quem veio antes de nós e aquilo que ainda conseguimos transmitir.
E o marmelo, tenho a certeza, e por vários motivos, nunca será esquecido.

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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