por | 10 Set, 2026 | Desporto, Saúde, Sociedade

O ESCUDO INVISÍVEL NO CIRCUITO INTERNACIONAL DE LOUSADA

ED4 levou a segurança no desporto automóvel ao patamar mundial

Vamos falar de uma equipa que não se vê mas que é de uma importância imensa no Circuito Internacional de Lousada. A segurança no desporto automóvel em Lousada deu um salto gigante a partir de dois mil e vinte e dois. Em conversa com o jornal O Louzadense, Vítor Caldas, enfermeiro de urgência, responsável de segurança do Clube Automóvel de Lousada (CAL) e fundador do projeto extricationfourDriver (E4D), detalha o percurso de afirmação nacional e internacional de uma estrutura que nasceu para proteger vidas a alta velocidade e cujo maior sucesso é, precisamente, garantir que a segurança seja um “não assunto” no circuito.

Até então, de acordo com os regulamentos nacionais, o dispositivo médico era essencialmente assegurado por um médico de prova. A partir de 2022, o CAL passou a implementar uma estrutura composta por um carro médico, com médico e enfermeiro, e uma equipa de extração com cinco técnicos especializados. “Esse compromisso do CAL com a segurança, assumido desde o primeiro momento, foi fundamental para que este projeto pudesse crescer e evoluir”, explica Vítor Caldas, fundador da E4D e responsável pela segurança do clube.

Hoje, a extrication4Driver é uma equipa bastante mais estruturada, não só pelo número de elementos, mas também pelo nível de formação e certificação alcançado. Ao longo do percurso, foi chamada a prestar apoio em provas internacionais fora de Lousada e noutras modalidades para além do Rallycross. Paralelamente, tem desenvolvido ações de formação junto de equipas de primeira intervenção que prestam assistência a provas de automobilismo na região.

Quando se soube que Lousada iria receber uma prova internacional, a equipa percebeu que a experiência adquirida na prática não era, por si só, suficiente para assumir a responsabilidade pela assistência médica e de extração num evento daquele nível. A FIA estabelece requisitos específicos e eram necessárias duas certificações distintas.

A primeira dizia respeito à equipa de extração. Para esse efeito, os elementos da E4D realizaram formação no Circuito de Spa-Francorchamps, na Bélgica, num centro de treino de extração certificado pela FIA. Foi uma formação exigente, com componentes teórica e prática e contacto com técnicas aplicadas a diferentes tipos de veículos e modalidades, desde o off-road à Fórmula 1. “A componente prática teve um peso muito significativo, com exercícios constantes, avaliação contínua e feedback imediato dos formadores”, explica Vítor Caldas. A equipa concluiu a formação com distinção e ficou certificada pela FIA.

A segunda certificação estava relacionada com a função de Chief Medical Officer (CMO), o responsável médico pela estrutura de assistência à prova. Nesse caso, o responsável médico da equipa realizou formação e estágio integrado no Campeonato do Mundo de Rallycross, em Höljes, na Suécia, acompanhando a equipa médica local e todo o modelo de organização e resposta médica numa prova internacional.

“Foi uma experiência que permitiu adquirir os conhecimentos e competências necessários para assumir essa responsabilidade”, explica. Os dois processos de certificação, distintos mas complementares, permitiram garantir que a estrutura médica e de extração do CAL cumpria os requisitos exigidos pela FIA para uma prova internacional.

Da formação internacional à resposta em pista

Para Vítor Caldas, uma das grandes vantagens das formações internacionais está precisamente na partilha de conhecimentos e experiências. Embora existam orientações técnicas e procedimentos específicos, existe também abertura para que cada equipa adapte esses conhecimentos à sua realidade e aos recursos disponíveis. Em Spa-Francorchamps, a formação começou pela componente teórica e passou depois para uma vertente essencialmente prática, aplicando e aperfeiçoando técnicas que a equipa já conhecia e treinava.

“Uma equipa não chega a este tipo de formação para aprender tudo do zero. Deve existir previamente uma base sólida de conhecimentos, técnicas bem estruturadas e treino regular para diferentes cenários. A formação internacional serve para consolidar esse conhecimento, introduzir novas metodologias e avaliar a capacidade da equipa de aplicar esses procedimentos num contexto exigente.”

Apesar do crescimento da E4D, Vítor Caldas prefere não afirmar que a equipa é uma referência nacional. “Não cabe a nós fazer essa avaliação. Aquilo que podemos afirmar é que temos procurado, desde o início, fazer o melhor possível e preparar-nos para prestar o melhor cuidado aos pilotos e restantes intervenientes, independentemente do cenário que possamos encontrar.”

Essa preocupação passa também pela partilha de conhecimento. A E4D organizou a 1.ª Meeting E4D, que contou com a participação de equipas dos Bombeiros e da Cruz Vermelha locais, e realizou posteriormente uma formação teórico-prática, a convite da Proteção Civil de Santo Tirso, dirigida aos três corpos de bombeiros da região que integrariam o dispositivo de segurança do Rally de Santo Tirso.

Na resposta às ocorrências, existem duas estruturas distintas, mas complementares. O carro médico, tripulado por um médico e um enfermeiro, está equipado para a primeira abordagem, avaliação e estabilização avançada do doente, podendo responder a situações clínicas de diferentes níveis de complexidade. Já o carro de extração está vocacionado sobretudo para situações de trauma e para a remoção das vítimas das viaturas, dispondo de material de imobilização e dos equipamentos necessários à extração. Dispõe ainda de um saco de primeira abordagem, permitindo iniciar de imediato os cuidados e, se necessário, abordar uma segunda vítima em simultâneo.

Com o aumento do número de provas, também a equipa foi crescendo. Atualmente, Vítor Caldas está sobretudo ligado à coordenação das equipas e à gestão da resposta em pista, em articulação com a Direção de Prova. Habitualmente encontra-se no Race Control, acompanhando o decorrer da competição e coordenando os meios de emergência perante as diferentes ocorrências.

A E4D conta atualmente com quatro enfermeiros, todos com experiência na área da urgência e emergência, quatro médicos, com experiência em VMER e formação na área de Anestesiologia, e cerca de 15 técnicos de extração. Estes são, essencialmente, Bombeiros Sapadores do Regimento de Sapadores Bombeiros do Porto e Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar do INEM, profissionais com experiência relevante na resposta a situações de emergência e trauma.

Apesar da evolução dos equipamentos de segurança, uma intervenção num carro de competição continua a exigir conhecimentos específicos. “Felizmente, os carros de competição são atualmente viaturas extremamente seguras e, na maioria das situações, os ocupantes não sofrem lesões com gravidade que obriguem sequer a uma extração assistida, mesmo que a impressão inicial assim o sugira.”

No entanto, as velocidades e as energias envolvidas são muito elevadas e os sistemas de segurança utilizados — como roll bars, capacetes, fatos e sistemas de proteção cervical — são muito diferentes dos encontrados num veículo convencional. “Não basta saber prestar cuidados a uma vítima de trauma; é necessário perceber como o piloto está protegido, como está posicionado dentro da viatura e quais são as limitações e particularidades que esses equipamentos podem criar durante a avaliação e, eventualmente, durante a extração.”

Segurança: o trabalho que ninguém vê

Ao longo dos anos, foram inúmeras as intervenções realizadas, mas Vítor Caldas não destaca uma em particular. Para si, todas têm importância. Nas situações mais graves, é essencial reconhecer rapidamente as lesões, estabilizar a vítima e garantir uma extração segura, evitando agravar uma lesão já existente. Nas situações aparentemente mais simples, uma avaliação adequada pode permitir identificar fatores de risco que inicialmente não são evidentes.

“Acho que o mais importante é perceber que cada ocorrência tem a sua importância. O objetivo é sempre o mesmo: avaliar corretamente, intervir quando necessário e garantir que o piloto sai da viatura nas melhores condições possíveis e com o menor risco adicional.”

Também a parceria entre o Clube Automóvel de Lousada e o Hospital de Lousada surgiu com esse objetivo de reforçar a segurança. Para o CAL, a colaboração representa um aumento da capacidade assistencial da estrutura médica, através da articulação com uma instituição de saúde com acesso a equipamentos e recursos para responder a situações de maior complexidade. Para o Hospital de Lousada, significa uma aproximação ao automobilismo local, uma atividade profundamente ligada à comunidade e à identidade do concelho.

No fundo, considera Vítor Caldas, trata-se de uma união de competências e recursos com um objetivo comum: contribuir para eventos mais seguros e para uma melhor resposta perante qualquer situação de emergência.

E é precisamente na segurança que coloca a prioridade máxima. “A segurança tem de ser, na minha opinião, uma prioridade absoluta no automobilismo.” A modalidade atrai multidões e proporciona grandes espetáculos, mas, felizmente, na maioria das vezes tudo corre bem. A questão, sublinha, é o que acontece quando não corre.

“É precisamente nesse momento que se percebe a importância de existir uma estrutura de segurança bem preparada.” Para o responsável da E4D, tem de existir um compromisso claro das organizações com a prevenção, a formação e a capacidade de resposta. No caso do CAL, esse investimento passa pelos comissários de pista, pelas equipas médicas e de extração, pela formação contínua, pelos equipamentos de proteção individual e pela capacidade de primeira intervenção.

A criação de um centro médico e de estruturas médicas e de extração cada vez mais diferenciadas contribui, na sua opinião, para que a segurança se torne quase um “não assunto” para quem participa no evento.

“O piloto deve poder concentrar-se na competição, o público deve poder desfrutar do espetáculo e as equipas devem poder trabalhar, sabendo que existe uma estrutura preparada para responder caso alguma coisa aconteça. Quando a segurança está bem preparada, idealmente ninguém dá por ela. Mas é essa preparação que faz toda a diferença quando realmente é necessária.”

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

NOVOS BOMBOS EM LOUSADA (1)

Os Magnetenses: a tradição que ganha nova força Um novo grupo de bombos nasceu em Meinedo com 20...

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS” Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais...

Grande Entrevista a LUÍS MARINHO (CAL)

“Não procuro ficar na história, procuro continuar a fazer mais e melhor” Aos 38 anos,...

JULIANA COSTA, UMA ARTISTA QUE SE REVELA FORA DE LOUSADA

Das raízes em Figueiras à afirmação na arte texturizada Natural de Figueiras, no concelho de...

DECATHLON LIGA PRO JÁ COMEÇOU

Lousada e Aparecida entraram com o pé esquerdo num campeonato que se espera espetacular. Os...

Câmara reforça apoio ao CAL para o Euro RX

A Câmara Municipal de Lousada reforçou em 428.721,27 euros o apoio financeiro ao Clube Automóvel...

EURO RX PROMETE GRANDE ESPETÁCULO

Lousada decide títulos europeus de Ralicross com estreia de corrida noturna O Circuito...

Há palavras que, quando entram na linguagem politica, correm o risco de perder o seu verdadeiro...

Quando caminhar é andar à descoberta, um desafio ou um estilo de vidaHá quem caminhe para fazer...

Alunos desenvolvem projeto sobre Neuroplasticidade – capacidade cerebral

Os alunos do 12.º E (Diana Leal, Matilde Pacheco, Maria Moura, Margarida Ribeiro e Guilherme...

Siga-nos nas redes sociais