por | 10 Set, 2026 | Património Cultural

Quando caminhar é andar à descoberta, um desafio ou um estilo de vida
Há quem caminhe para fazer exercício. Há quem faça caminhadas para chegar a algum lugar. E há quem caminhe para descobrir o lugar onde está. Diria que caminhar é um exercício de exploração e descoberta do mundo que nos rodeia e de nós mesmos.
O final de agosto e o início de setembro marcam o período de retoma da rotina depois das férias e, também, são tempo de caminhadas. Uns procuram um trilho para conhecer uma paisagem, outros uma árvore monumental, uma serra, um rio ou simplesmente um caminho onde possam andar, sem pressa. E Portugal está cheio deles. As Pequenas Rotas, os caminhos antigos e tantos percursos que atravessam o nosso território são verdadeiros corredores de descoberta, onde saúde, natureza e património se encontram a cada passo, em cada olhar.
Numa caminhada podemos encontrar flores que só existem num determinado território, um animal escondido ou apenas os sinais da sua passagem: uma pegada, uma pena, um tufo de pelo, um excremento, um osso. Podemos caminhar à procura de veados, corços ou gamos no Parque Natural de Montesinho, tentar avistar um lince na Reserva Natural da Serra da Malcata, encontrar uma raposa ou um texugo no Vale do Sousa, seguir o voo de um grifo em Trás-os-Montes ou até uma osga-comum pelas zonas rurais do Algarve.
Mas também podemos caminhar à procura de outras marcas. E, na nossa região, isso acontece muito. Caminhar por um velho caminho, um moinho abandonado, um forno romano, uma necrópole, um castro, um muro ou uma casa onde alguém viveu. E há ainda quem procure os monumentos vivos: um carvalho centenário, um freixo antigo, uma nogueira, um teixo, um sabugueiro e árvores que atravessaram gerações e que, por vezes, ficaram ligadas ao nome das próprias famílias — do Sr. Pinheiro, do Sr. Carvalho, de D. Margarida.
Há caminhadas que encontram animais, outras procuram ruínas. Há quem queira chegar ao alto da montanha, atravessar um bosque, seguir um vale ou descobrir uma pequena queda de água. Mas talvez todas as caminhadas procurem, sem o saber, a mesma coisa: parar por algum tempo.
Porque caminhar também é uma forma de arrumar pensamentos. É uma maneira de desabafar com a própria consciência, de pensar sozinho, de voltar a uma questão que parecia sem resposta e, tantas vezes, encontrar uma solução quando já não estávamos propriamente à procura dela. A natureza tem essa capacidade. Obriga-nos a abrandar.
Não é por acaso que cada vez mais se fala dos benefícios do contacto com a natureza para o bem-estar. O médico até já prescreve as caminhadas como se de um medicamento se tratasse — para a diabetes, para a tensão arterial, para os problemas emocionais e psicológicos, etc. Caminhar pode ser exercício, descoberta, terapia ou simplesmente uma forma de respirar melhor. E é por isso que uma caminhada nunca é apenas uma caminhada.
Para mim, pelo menos, nunca foi.
Seja sozinho, acompanhado, por prazer ou em trabalho, caminhar é sempre uma oportunidade de voltar a olhar ou sentir. A mesma flor que já vimos mil vezes pode parecer outra quando a encontramos de novo. Uma pena caída no chão pode transformar-se numa conversa. Uma pegada pode levantar uma pergunta. Uma árvore pode deixar de ser apenas uma árvore para passar a ser testemunha de uma passagem. E uma ruína pode deixar de ser um conjunto de pedras velhas para nos fazer imaginar quem ali viveu, o que comeu, onde dormiu, como sobreviveu e quanto improvisou para construir uma vida.
É talvez por isso que gosto muito de caminhar: a possibilidade de redescobrir aquilo que julgávamos ser e conhecer — exercitar o corpo, a mente e a alma.
Em Lousada, podemos caminhar pela Mata de Vilar, pela Serra de Campelos, junto aos moinhos de Pias ou pelos espaços verdes do concelho. Em Paços de Ferreira, podemos subir à Citânia de Sanfins, procurar o dólmen de Lamoso, seguir os moinhos de Arreigada ou perdermo-nos entre as árvores e arbustos do Bosque das Quintãs. E, em cada um destes lugares, há sempre mais qualquer coisa para ver. Mas também podemos caminhar pelas ruas da nossa freguesia, pelos caminhos da nossa infância, pelos mesmos trilhos dos nossos avós, pelos passeios da nossa memória.
Porque, quando caminhamos, encontramos também histórias. Encontramos formas antigas de viver, de trabalhar e de sobreviver. Encontramos a natureza que alimentou comunidades, a água que moveu moinhos, a pedra que construiu casas, os caminhos que aproximaram pessoas. E, por vezes, encontramos um simples fruto ou uma planta que nos faz viajar no tempo e lembrar como a vida dos nossos antepassados dependia daquilo que a terra lhes conseguia oferecer.
Para mim, caminhar é perceber que a história não está apenas nos livros e que o património não está apenas dentro dos museus. Está debaixo dos nossos pés.
E talvez, no fim, caminhar seja uma forma de nos lembrarmos de que a vida também é feita de caminhos. Uns levam-nos para longe, outros fazem-nos regressar. Alguns mostram-nos o mundo. Outros mostram-nos quem somos.
Por isso, nesta crónica, deixo uma mensagem ao leitor: quando tiver oportunidade, caminhe. Não precisa de ir longe. Não precisa sequer de conhecer o caminho.
Saia de casa e veja, faça perguntas a si próprio!
Talvez descubra uma coisa que sempre esteve ali. Um momento, uma memória, uma árvore, uma pedra, uma flor, uma ruína, um animal ou simplesmente o silêncio — porque o nada (ou a falta de resultados) também é importante, digo eu!
Porque, talvez, algumas vezes, para encontrarmos o mundo, basta começarmos a caminhar.
Porque caminhar faz bem.
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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