por | 10 Set, 2026 | Economia, História, Sociedade

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS”

Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais marcantes da história agrícola e cooperativa de Lousada. A 11 de agosto de 1956, o Jornal de Lousada publicou o anúncio do concurso público para a construção da Adega Cooperativa de Lousada, dando início a uma obra que viria a tornar-se um marco na história da vitivinicultura nacional.

A Adega Cooperativa de Lousada já foi uma verdadeira inovação. Os números dos produtores (1.963) e das 9.064 pipas de vinho mostravam porque fazia sentido construir uma adega cooperativa precisamente em Lousada, há 70 anos. São dados interessantes que reforçam a importância económica da viticultura no concelho. Foi a primeira adega cooperativa construída na Região Demarcada dos Vinhos Verdes e constituiu uma experiência pioneira na industrialização dos processos de vinificação, adaptando métodos modernos às particularidades de um vinho reconhecido pela sua delicadeza e sensibilidade.

Segundo Catarina Ruivo, em “Adega Cooperativa de Lousada” (Arquitectura Aqui, 2025), a memória descritiva do projeto de construção, datada de 15 de junho de 1956, revela a importância atribuída à obra pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CRRVV). Elaborado em estreita colaboração com os seus serviços técnicos e com a direção da cooperativa, o projeto procurou conciliar inovação e prudência. Os próprios arquitetos reconheciam que optaram por soluções conservadoras, justificando que “dadas as especialíssimas características enológicas do vinho verde, que o tornam um produto extremamente sensível, não quiseram os técnicos da Comissão de Viticultura abandonar, para já, certos princípios consagrados pela prática, nem ainda abalançar-se e adaptar esquemas demasiado revolucionários na ordenação dos vários elementos da Adega”.

O terreno escolhido, situado junto à vila de Lousada, apresentava um declive acentuado que permitiu desenvolver o edifício principal em dois pisos, ambos com acesso direto ao exterior, uma solução funcional para a receção das uvas, vinificação e armazenagem. O complexo previa três edifícios distintos: a adega propriamente dita, uma destilaria e a habitação destinada ao adegueiro. O edifício principal integrava ainda serviços administrativos, laboratório, sala de reuniões, arrecadações e instalações sanitárias, enquanto um torreão servia de depósito de água com capacidade para 30 mil litros.

A organização dos espaços refletia uma preocupação constante com a eficiência dos processos produtivos. O sistema de receção e transporte das uvas dispensava o tradicional “togão”, substituído por pequenos pontos de descarga distribuídos ao longo do cais coberto. Foi ainda criado um piso intermédio destinado às máquinas de esmagamento e desengace, permitindo otimizar o circuito de produção. Os projetistas dedicaram igualmente especial atenção ao isolamento e à ventilação, procurando assegurar as melhores condições para a conservação do vinho verde.

Os estudos preparatórios tiveram em conta a realidade agrícola do concelho. Com base em dados de 1950, estimava-se a existência de 1.963 produtores e uma produção anual de cerca de 9.064 pipas de vinho. Perspetivando o crescimento do setor, a adega foi concebida para ser construída em três fases, embora inicialmente apenas se avançasse com a primeira etapa.

O orçamento inicial da empreitada foi estimado em 2.080.000 escudos. Naquela época, esse investimento representava um esforço significativo.

Após o lançamento do concurso, as propostas foram analisadas a 31 de agosto de 1956, tendo os arquitetos recomendado a adjudicação ao empreiteiro Adriano Leal da Silva Neto, cuja proposta ascendia a 1.929.500 escudos. Poucos meses depois, em novembro desse mesmo ano, registava-se ainda a saída do arquiteto Mário Cândido de Morais Soares do agrupamento artístico ARS, passando este a assumir individualmente o acompanhamento da obra, conforme estabelecido contratualmente.

Sete décadas depois, a Adega Cooperativa de Lousada continua a ser um testemunho da modernização da agricultura local e do espírito cooperativo que marcou uma geração de viticultores. O lançamento do concurso público, publicado a 11 de agosto de 1956, assinalou o início de um projeto visionário que colocou Lousada na vanguarda da arquitetura industrial e da inovação enológica na Região dos Vinhos Verdes, constituindo hoje um importante património histórico e arquitetónico do concelho.

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