por | 4 Ago, 2026 | Religião, Sociedade

TRADIÇÃO CONTINUA VIVA: A Sagrada Família que une gerações

Durante décadas, a chegada da caixa da Sagrada Família a uma casa foi sinónimo de recolhimento, oração e encontro familiar. Em muitas freguesias do concelho de Lousada, esta tradição continua a ser uma das mais importantes manifestações da religiosidade popular, preservando um costume que, apesar das mudanças sociais e do impacto da pandemia da covid-19, resiste graças ao empenho de muitas famílias. Só no lugar de Romariz, por exemplo, há três oratórios deste género em circulação, um dos quais é o que se vê na mão de Maria de Fátima Magalhães da Silva. (Fotografias de Salomé Ferreira).

No interior de uma pequena caixa de madeira, frequentemente tratada como um pequeno altar portátil ou oratório, segue a imagem de Maria, José e o Menino Jesus. A Sagrada Família permanece em cada casa durante um ou mais dias, conforme o itinerário estabelecido, sendo colocada num local de destaque da habitação. É tradição que permaneça exposta diante de uma vela acesa, criando um ambiente de recolhimento e convidando toda a família à oração.

Mais do que um gesto de devoção individual, a visita da Sagrada Família constitui um verdadeiro momento de união familiar. Pais, filhos, avós e, muitas vezes, vizinhos reúnem-se para rezar o terço, pedir proteção para o lar, agradecer graças recebidas e recordar familiares falecidos. É um ritual simples, mas profundamente simbólico, que reforça os laços entre gerações e promove valores como a paz, a partilha e a solidariedade.

A pandemia de COVID-19 interrompeu muitos destes encontros, levando alguns itinerários a suspender temporariamente a circulação da imagem. Em diversas localidades, a tradição perdeu algum dinamismo e algumas famílias deixaram de participar. Ainda assim, muitos itinerários mantiveram-se ativos e, atualmente, continuam a existir dezenas de grupos que asseguram a passagem da Sagrada Família de casa em casa, preservando um património religioso e cultural transmitido ao longo de várias gerações.

A caixa transportadora possui também uma pequena ranhura destinada à colocação de ofertas voluntárias. Conforme o costume de cada itinerário ou paróquia, essas contribuições podem reverter para diferentes finalidades: em alguns casos destinam-se à paróquia, noutros servem para custear convívios ou excursões dos participantes do itinerário, sendo igualmente utilizadas para a conservação da imagem, a reparação da caixa transportadora, muitas vezes designada como pequeno oratório ou altar portátil, e outras despesas relacionadas com esta devoção.

Numa das portas da caixa encontra-se, habitualmente, a lista dos participantes ou responsáveis pelo percurso. São os chamados signatários ou zeladores do itinerário, isto é, as famílias que assumem o compromisso de acolher a Sagrada Família e de a entregar, na data prevista, à casa seguinte. Esse registo constitui uma memória da comunidade e testemunha o envolvimento de várias gerações na continuidade da tradição.

Em Lousada, esta prática foi particularmente incentivada por sacerdotes que marcaram a vida religiosa do concelho na segunda metade do século XX, entre eles os saudosos padres António Sousa e António Emílio. O seu trabalho pastoral contribuiu para alargar os itinerários e incentivar a oração em família, fazendo da visita da Sagrada Família uma presença habitual em muitas aldeias e lugares do concelho.

Embora a sua origem exata em Lousada não esteja documentalmente definida, esta devoção integra um movimento mais vasto promovido pela Igreja Católica ao longo do século XX, inspirado no culto da Sagrada Família e na valorização da oração no seio da família cristã. Ao longo dos anos, a tradição ganhou características próprias em cada comunidade, tornando-se parte integrante da identidade local.

Num tempo em que o ritmo acelerado da vida quotidiana deixa cada vez menos espaço para momentos de encontro, a passagem da Sagrada Família continua a representar uma oportunidade de reunir a família, fortalecer os laços entre vizinhos e renovar uma tradição que faz parte da memória coletiva de muitas freguesias de Lousada. De casa em casa, de geração em geração, a pequena caixa continua a transportar muito mais do que uma imagem religiosa: leva consigo a história, a fé e a identidade de um povo.

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