por | 8 Jun, 2026 | Opinião

Há uma geração que fez tudo o que lhe pediram. Estudou, qualificou-se, adaptou-se e acreditou que o esforço compensaria. Ainda assim, muitos jovens vivem hoje com uma sensação persistente de incerteza, como se estivessem sempre a um passo de alcançar estabilidade, mas nunca verdadeiramente lá chegassem. A isto, muitos intitulam como a “crise dos 20”.

Mas esta crise não é, como tantas vezes se diz, um problema de fragilidade individual ou falta de resiliência. Não é um capricho de uma geração que “quer tudo depressa”. É, acima de tudo, o reflexo de um desfasamento crescente entre aquilo que foi prometido e aquilo que, na prática, é possível alcançar.

A chamada crise dos 20 traduz-se em dúvidas constantes sobre o futuro: que carreira seguir, onde viver, quando (ou se) será possível sair de casa dos pais e construir uma vida autónoma. É uma fase marcada por decisões importantes, mas também por uma pressão silenciosa para que tudo aconteça rapidamente. As redes sociais amplificam essa pressão, criando a ilusão de que todos à nossa volta estão a avançar mais depressa, a atingir metas mais cedo, a viver vidas mais organizadas.

O resultado é uma sensação de atraso permanente, como se existisse um cronómetro invisível a medir o tempo de cada escolha, de cada erro e de cada hesitação.

No entanto, reduzir esta realidade a uma simples crise emocional seria ignorar os dilemas profundos de toda uma geração. O que está em causa não é apenas o estado de espírito dos jovens, mas as condições objetivas em que vivem.

Hoje, muitos enfrentam um mercado de trabalho marcado pela instabilidade, por contratos instáveis, baixos salários e poucas perspetivas de progressão. Ao mesmo tempo, o acesso à habitação tornou-se um dos maiores obstáculos à independência. Arrendar ou comprar casa é, para muitos, um objetivo distante, incompatível com os rendimentos disponíveis. A ideia de construir uma vida autónoma, que há poucos anos era encarada como um passo natural da vida adulta, tornou-se um desafio complexo e, em muitos casos, quase inatingível.

Esta realidade tem consequências profundas. Não apenas económicas, mas também sociais e psicológicas. A incerteza constante gera ansiedade, desmotivação e, em muitos casos, leva à desistência silenciosa de objetivos que antes pareciam naturais. Para alguns jovens, a única alternativa passa pela emigração, não por escolha, mas por necessidade.

Este dilema, tantas vezes discutido de forma abstrata ou distante, sente-se de forma muito concreta à escala local, particularmente em Lousada.

Também aqui esta consternação da juventude é vivida diariamente por muitos jovens que enfrentam dificuldades reais para construir o seu futuro. Desde logo, a habitação tornou-se um dos principais obstáculos à autonomia. Nos últimos anos, o preço por metro quadrado aumentou significativamente, ultrapassando já valores na ordem dos 1600 euros, praticamente o dobro dos valores praticados há cerca de cinco anos, segundo dados do Idealista. No entanto, este aumento não foi acompanhado pelos rendimentos da população, criando um desequilíbrio evidente entre aquilo que os jovens ganham e aquilo que necessitam para viver de forma independente.

O problema não se fica pela habitação, a dificuldade em sair de casa dos pais está diretamente ligada à realidade do mercado de trabalho local. Lousada continua a apresentar dos salários mais baixos do distrito do Porto, com valores significativamente inferiores à média nacional. Isto significa que, mesmo para quem trabalha, a independência financeira continua a ser um objetivo distante. Trabalhar deixou, em muitos casos, de ser garantia de autonomia, e essa é uma das maiores fragilidades que uma sociedade pode enfrentar.

Perante este cenário, muitos jovens acabam por tomar uma decisão difícil, sair. Sair do concelho em busca de melhores oportunidades, de melhores condições e de uma vida que aqui sentem não conseguir alcançar. Não o fazem por falta de ligação à terra, mas precisamente porque querem construir um futuro com estabilidade e dignidade.

Quando um concelho não consegue fixar a camada mais jovem da população, está inevitavelmente a comprometer o seu próprio desenvolvimento, está a perder energia, criatividade, capacidade de inovação e participação. Está, em última análise, a adiar o seu próprio futuro.

Mais do que isso, o desafio que enfrentamos é também estrutural. O concelho continua demasiado dependente de setores com baixos níveis de remuneração e pouca capacidade de retenção de talento jovem. Falta uma estratégia clara que aposte na qualificação da economia local, na atração de investimento e na criação de emprego que permita aos jovens não apenas trabalhar, mas viver com dignidade.

É aqui que a política de proximidade assume uma importância decisiva. A autarquia tem o dever de criar condições que tornem o concelho mais atrativo para os jovens, seja através de políticas de habitação credíveis, de incentivos reais ao emprego qualificado e ao empreendedorismo, da criação de parcerias com instituições de ensino superior que permitam a instalação de polos universitários e de investigação, ou ainda da aposta em novas zonas empresariais estrategicamente localizadas, capazes de atrair investimento, dinamizar a economia local e contribuir para uma valorização efetiva dos salários em Lousada.

Um concelho que vê os seus jovens partir em silêncio, não está apenas a perder população, está a perder futuro, ambição, talento e vida. Atualmente, já não basta lamentar a saída dos mais novos, é preciso perguntar porque é que ficar deixou de ser uma opção.

Enquanto presidente da JSD Lousada, não posso ignorar esta realidade. Cabe-me a mim e à minha estrutura ouvir, compreender e dar voz às preocupações da nossa geração. Mas cabe-nos também transformar essa preocupação em ação, em propostas e em contributos concretos para melhorar as condições de vida dos jovens no nosso concelho.

Esta geração não é menos capaz, menos trabalhadora ou menos ambiciosa. Pelo contrário. É uma geração mais qualificada, mais informada e mais consciente dos desafios que enfrenta, no entanto, precisa de condições que acompanhem essa capacidade.

O futuro não pode ser um privilégio. Tem de ser uma realidade.

João Pires

Presidente da JSD Lousada

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