por | 18 Jul, 2026 | Cultura

Concerto da Banda de Música de Lousada na abertura da Festa Grande de 2026

Crónica de J. C. Carvalheiras

Acerca do concerto da Banda de Música de Lousada (BML), começo pelo fim: parabéns. Pelo evento em geral, muito bem organizado e que encheu o adro da Capela do Senhor dos Aflitos, em honra de quem se iniciaram os festejos com este concerto.

Parabéns também pelo desempenho da generalidade dos cerca de 60 elementos, orientados pelo maestro Sílvio Cortez, e que, além dos músicos consagrados, conta na faixa etária mais jovem com muitos intérpretes de imenso potencial. Este diretor musical apostou num forte segmento do naipe de metais, que inclui a maioria dos seus músicos mais experientes, com destaque para os trompetes e trombones. Esta formação pareceu-me ser o alicerce da harmonia da BML.

Do reportório, segue uma review de leigo, mas interessado. Desde logo, Cortez e a sua filarmónica mostraram ao que vinham: causar impacto, a condizer com a celebração do momento, a abertura das festividades de Lousada. Iniciaram com um tema forte, Transcendent Journey, do hollywoodesco Rossano Galante, claramente uma peça exigente, de nível avançado, que faz lembrar uma qualquer banda sonora cinematográfica. O início retumbante e o final apoteótico agradaram. O naipe de percussionistas, muito jovem e competente, revela muito talento e potencial para crescer.

Seguiu-se uma marcha de procissão, do compositor transmontano Rogério Barros, que, curiosamente, é doutorado em Multimédia e licenciado em Matemática, embora tenha também um vasto percurso na filarmonia. O tema Nirodha introduziu no concerto da BML a solenidade religiosa que o contexto envolvente também pedia.

A noite amena estava a solicitar algo mais vivo e o terceiro tema do alinhamento trouxe o vibrante Óscar Navarro, de Alicante (Espanha), com a sua obra de biografia familiar, Paconchita, uma homenagem aos pais do compositor, Paquito Navarro e Conchita González. Notou-se muita qualidade no solo do jovem baterista.

Posto isto, surgiu um verdadeiro clássico do repertório para banda sinfónica e filarmónica, que quase todas as bandas tocam, mas nem todas com o primor que a peça exige: Camino Real, de Alfred Reed. É uma obra de inspiração latina, também ela muito exigente do ponto de vista interpretativo.

O concerto ia a meio e continuava a chegar público, esgotando quase por completo a plateia. Foi pedido reforço de cadeiras, que a excelente organização providenciou prontamente, pois estava prevenida.

Escrita por Steven Reineke em 1995, seguiu-se Celebration Fanfare, uma obra enérgica, que tirou o sono de alguns e arrancou um ou outro «Bravo!» do público, após o final triunfante.

A seguir, uma surpresa no alinhamento, com um tema de sonoridade tipicamente oriental: Arabesque, de Samuel Hazo. Inspira-se nas sonoridades e tradições musicais do Médio Oriente, evocando paisagens sonoras exóticas e misteriosas, culminando num final de enorme força expressiva.

Eis que chega mais um tema português, com Lusitaniedades, de Carlos Marques, onde sobressaem sonoridades tradicionais da geografia e do folclore portugueses, mas onde Canção do Mar, de Dulce Pontes, invoca majestosamente a portugalidade. Sempre magnífica, toque quem tocar.

Para o final deste concerto, estava prometida uma homenagem de grande simbolismo para a filarmonia lousadense. O momento foi particularmente emocionante para a apresentadora do evento, a flautista Ana Luísa Fernandes, pois a marcha O Lousadense, da autoria do seu avô, Rodrigo Fernandes, celebra este ano o seu cinquentenário.

Esta peça, que na quinta-feira à noite voltou a ecoar nos céus da vila, pela Banda de Música de Lousada, às portas da Capela do Senhor dos Aflitos, é uma das maiores relíquias do património cultural de Lousada.

Este hino lousadense foi fruto que brotou da lavra musical do grande intérprete e compositor Rodrigo Fernandes, que integrou a Banda de Música de Lousada durante 70 anos. Além desta, criou diversas obras de relevo, como Os Carvalheiras, Vale do Sousa, Os Patrões, entre outras. Mas a marcha O Lousadense é o ex-líbris da nossa filarmonia.

Grande marco histórico foi alcançado por esta obra em 1985, em Tuttlingen (Alemanha), onde a Banda de Música de Lousada participou num concurso que reuniu 220 bandas de todo o mundo. Na modalidade de Marcha, o júri atribuiu o primeiro lugar a O Lousadense.

O filho e homónimo do compositor, Rodrigo Fernandes, ex-músico da Banda, recordou assim esse momento: «Alegria infinita, lágrimas, abraços, quando, nos altifalantes do estádio, se ouviu em português: “Parabéns, Lousada, Portugal”.»

Assim, termino como comecei: parabéns.

@ Fotografias da ACML Associação de Cultura Musical de Lousada

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