Para mim, falar da castanha é falar de memórias do meu passado longínquo, mas também do meu passado mais recente. Sim, porque esta pequena semente sempre me deu motivos para rir, chorar, pensar, improvisar e até ter medo!
Já ri muito à custa das castanhas. Lembro-me de quando éramos miúdos e íamos varejar os castanheiros. De vez em quando, lá caía um ouriço ou uma chuva de castanhas em cima da cabeça de algum amigo. E isso era motivo para risota!
Também já chorei por causa delas. Recordo-me de uma vez em que fui às castanhas com os meus amigos e, quando apareceu a dona dos castanheiros, desatámos todos a fugir. Corri tão depressa que nem vi os arames dos esteios das videiras. Um deles ficou-me enganchado no nariz e dei uma pirueta tão grande que acabei estendido no chão, depois de bater com as costas e a cabeça. A senhora Alzira, das Cavadas, dona dos castanheiros, viu-me a chorar e ficou ali, ao longe, à espera que eu me levantasse e continuasse a fugir. E lá fui eu, com meia dúzia de castanhas enroladas na camisola, que naquele dia também servia de cesto!
Naquele tempo, todos éramos corajosos até aparecer o dono ou o caseiro dos castanheiros. A partir daí, começava o medo. Medo que nos batessem, mas sobretudo medo que fossem fazer queixa aos nossos pais. Isso sim, era o pior problema!
Apanhar castanhas também exigia alguma criatividade. Lembro-me de procurar rebentos de eucalipto para varejar os castanheiros. Mas não servia um rebento qualquer! Tinha de ser comprido, fino, leve e, de preferência, estar ali perto. Quando não encontrávamos nenhum, procurávamos ramos secos, daqueles mais grossos e pesados que tinham caído durante o inverno, e atirávamo-los como se fossem boomerang’s na direção dos ouriços. Também usávamos pedras, mas eram mais perigosas e, por isso, evitávamos. Quando estávamos em grupo, encavalitávamo-nos uns em cima dos outros, como se de um escadote humano se tratasse, até conseguirmos alcançar o primeiro ramo. Depois era trepar e balançar os ramos para fazer cair o maior número possível de ouriços.
Para abrir os ouriços que encontrávamos no chão, também havia técnica. Com o pé esquerdo pisava uma das bordas e, com o direito, fazia pressão do outro lado até conseguir abri-lo. E sabíamos muito bem onde estavam os melhores castanheiros da freguesia: nas Cavadas, em Cimo de Vila, em Bretelo, em Soutelo, na Rua do Carvalho e em tantos outros lugares. Curiosamente, muitos desses castanheiros ainda lá estão.
Na escola, a castanha também tinha o seu dia especial. O magusto era uma verdadeira festa! Fazia-se uma fogueira com caruma dos pinheiros, pinhas, paus e muitos cavacos. Por vezes colocava-se uma chapa por cima, outras vezes as castanhas eram assadas diretamente no meio da caruma. As “donas” da escola já tinham dado um golpe nas castanhas e passado por água. Nós, saíamos todos para o recreio, cantávamos canções que ainda hoje me lembro, saltávamos a fogueira e esperávamos pela nossa vez de receber uma mão-cheia de castanhas num cartucho improvisado com uma folha de jornal enrolada em forma de cone.
As castanhas mais queimadas tinham outra utilidade: serviam para enfarruscar a nossa cara e a dos amigos. Uns pareciam índios, outros palhaços! E a roupa, coitada, ficava de tal maneira que já sabíamos que, quando chegássemos a casa, íamos ouvir um ralhete.
O magusto continua a ser uma das tradições mais conhecidas do nosso país, especialmente no Dia de São Martinho, a 11 de novembro. Mas há costumes ainda mais curiosos. Em Aldeia Viçosa, no concelho da Guarda, celebra-se, a 26 de dezembro, o chamado Magusto da Velha. Nessa festa, as castanhas são lançadas do campanário da igreja para as pessoas que aguardam cá em baixo. Uma tradição com séculos de história, associada à memória de uma benfeitora que deixou castanhas e vinho para distribuir pela população. Afinal, há muitas maneiras de partilhar castanhas!
E pensar que este alimento, que hoje associamos sobretudo ao São Martinho, aos magustos e às tardes frias de outono, já foi essencial para alimentar tantas famílias portuguesas.
Durante séculos, sobretudo nas regiões montanhosas, a castanha foi conhecida como o «pão dos pobres». Antes de a batata se tornar habitual nas nossas mesas, as castanhas eram consumidas frescas, cozidas, assadas ou secas, podendo até ser transformadas em farinha. Não eram apenas uma iguaria ou um motivo de festa. Eram uma importante reserva de alimento para enfrentar os meses mais difíceis do ano. E não é difícil perceber porquê! A castanha é rica em hidratos de carbono, sobretudo amido, que fornecem energia ao organismo. Contém também fibras, vitamina C e minerais como o potássio, sendo um alimento nutritivo e com um teor de gordura relativamente baixo, quando comparado com outros frutos secos.
E o castanheiro acompanha-nos há muito mais tempo do que por vezes imaginamos.
Confirmei a informação sobre a presença pré-romana do castanheiro. A ficha da Flora-On refere vestígios de madeira do género Castanea encontrados em Silvade, Espinho, datados de há cerca de 2210 a 2370 anos. É uma evidência particularmente interessante porque nos permite dizer que há registos da presença de castanheiros no atual território português anteriores à época romana, sem afirmar que os soutos que hoje conhecemos já existiam nessa altura.
Mas o castanheiro não oferece apenas castanhas. É também uma árvore cheia de vida.
As suas flores atraem abelhas e outros insetos, enquanto as castanhas que ficam espalhadas pelo chão alimentam esquilos, javalis e pequenos roedores. Entre as raízes vivem fungos que ajudam a árvore a obter água e nutrientes do solo. Os troncos mais antigos, por vezes ocos e cheios de cavidades, oferecem abrigo a aves, insetos e outros animais. Até as folhas que caem têm uma função importante, pois vão-se decompondo e alimentando o solo. Um souto não é, por isso, apenas um conjunto de castanheiros que produzem castanhas. É também um espaço de biodiversidade que merece ser conhecido e protegido.
A própria madeira do castanheiro teve grande importância na vida das populações. Foi utilizada na construção de casas, portas, traves, pipas, tonéis e cestos.
A castanha alimentava as pessoas e os animais, enquanto a árvore fornecia materiais para tantos objetos do quotidiano. É curioso pensar que uma única espécie pudesse ter tanta importância na vida das comunidades.
Ainda hoje me pergunto por que razão a castanha perdeu tanto espaço na nossa alimentação e por que não investimos mais na valorização dos castanheiros e dos soutos.
Na minha casa, por exemplo, lembro-me de a minha mãe utilizar castanhas nos rojões. Ficavam deliciosos! Ainda hoje gosto muito dessa combinação e também de as comer com carne assada. Já as castanhas cozidas, confesso, nunca foram as minhas preferidas.
As cruas são outra história! Gosto muito delas e continuo a ser eu quem as descasca para a família. Antigamente descascava-as para a minha mãe; hoje faço-o para a minha esposa e para o meu filho. Uso normalmente um canivete ou uma faca sem bico, porque assim consigo retirar melhor a casca e a pele. Descascar castanhas com os dentes é que não! Fico com uma impressão na língua como se tivesse “lambido” um tapete!
Quando era pequeno, os meus avós e alguns amigos diziam que, se comêssemos o embrião da castanha, ganhávamos piolhos. E eu, durante muito tempo, evitei comer aquela parte! Só mais tarde percebi que os piolhos se transmitem pelo contacto com pessoas infestadas e que a castanha não tinha culpa nenhuma. Afinal, também as crenças populares fazem parte das histórias que vamos guardando.
Hoje, continuo a criar memórias à volta da castanha. Há já alguns anos que, pela altura do outono, vamos a Vinhais, à Rural Castanea, onde a castanha, especialmente a variedade Longal, é motivo de celebração. Passamos pelo grande assador de castanhas, associado a um recorde do Guinness, e fazemos sempre uma visita ao castanheiro de Lagarelhos (NAS FOTOS). É uma árvore monumental, popularmente conhecida como milenar, embora a sua idade seja frequentemente estimada em cerca de quinhentos anos. Tiramos umas fotografias, como já é tradição, para mais tarde recordar.
E há outro costume de que gosto particularmente. Num daqueles dias chuvosos de outono, eu e a minha esposa compramos castanhas assadas na rua e ficamos dentro do carro a comê-las, enquanto olhamos para o mar, em Leça ou Vila do Conde. Lá fora está frio, o céu está cinzento e as ondas não param de chegar à praia. Cá dentro, temos as castanhas quentinhas nas mãos e o prazer de estar ali, sem pressas.
É engraçado como a mesma castanha que em criança me fazia correr pelos campos, trepar árvores e fugir dos donos dos castanheiros continua hoje a acompanhar-me, mas em momentos tão diferentes.
Talvez seja esse o verdadeiro valor deste pequeno tesouro do outono.
Há castanhas que nos alimentam, outras que nos fazem rir, algumas que nos deixam marcas e muitas que nos ajudam a recordar. E, por vezes, basta o cheiro de meia dúzia de castanhas assadas para voltarmos, por instantes, aos lugares e às pessoas que fizeram parte da nossa vida.
ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental
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