De forma cada vez mais frequente, o ex-Primeiro-Ministro e ex-líder do PSD, Pedro Passos Coelho, tem aparecido em eventos, nomeadamente em lançamentos de livros que prefaciou. Recentemente deu uma entrevista a um canal de televisão.
Diz sempre que não é candidato a nada, mas é frequentemente bastante crítico, ácido até, da governação que o seu próprio partido está a levar a cabo. Fala que é preciso fazer reformas, mas também, em abono da verdade, ninguém o ouviu aprofundar qualquer detalhe de qualquer reforma que lhe pareça ser necessária.
O atual Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, não parece querer antagonizá-lo, e a situação está a ser cada vez mais difícil de gerir. Ambos têm um histórico de origem e lutas comuns dentro do seu partido e Montenegro foi a âncora de Passos Coelho, nos tempos de líder parlamentar.
Faço aqui uma rápida retrospectiva: Passos Coelho foi Primeiro-Ministro num contexto difícil em Portugal e na Europa, após o “comboio” de crises do subprime, das crises das dívidas soberanas e do próprio Euro, num contexto de necessidade de ajuda externa. Nesse contexto, Passos Coelho foi diligente em cumprir e até ultrapassar as reformas impostas a Portugal pela Troika, negociadas sobretudo com o anterior governo e com a participação dos partidos da oposição.
Nesse contexto, o guião estava definido. Passos Coelho só tinha que ter a coragem e a frieza de o executar. E teve, tendo até ido além do que lhe pediram.
Portanto, regressando ao presente, o que verdadeiramente pretende e que ideias tem para o país, Passos Coelho? Nas poucas intervenções públicas com mais tempo e profundidade que efetuou, fez eco de refrões de alguns pontos de campanha dos partidos e tendências mais à direita do espectro político. No essencial, no que toca a quaisquer políticas ou reformas, o seu discurso permanece num plano abstrato. Mas no plano ideológico, é cada vez mais próximo do cancioneiro da extrema-direita.
Neste contexto, Passos Coelho parece uma ave de rapina a vigiar no alto das montanhas pelos despojos das “guerras” que a vida selvagem cá em baixo lhe deixa.
Montenegro foi eleito com a premissa do “não é não” em relação à extrema-direita e vai fazendo acordos à sua direita e à sua esquerda, sendo que, no fundamental e mais ideológico, tem estendido a mão à sua direita. Não parece demonstrar vontade de fazer acordos mais amplos com o partido Chega, e essa premissa parece bater de frente com a ideia de Passos Coelho.
Num contexto de governo com maioria relativa no Parlamento, de constante insegurança e instabilidade, a qualquer momento o país pode ver este governo cair. Se isso acontecer, o que acontecerá no maior partido da coligação? Conseguirá Montenegro sobreviver? Se conseguir, fará alianças para poder governar? Será que Passos Coelho, finalmente, será candidato a alguma coisa? Se for candidato, e se voltar a liderar o seu partido, será ele próprio o criador de uma nova dinâmica de coligações no PSD?
De qualquer forma, num mundo em ebulição, com dúvidas nas nossas alianças estratégicas, o elevado preço dos combustíveis a influenciar o resto da economia e sem qualquer resolução à vista. Com o aumento do descontentamento a começar a sentir-se nas ruas, Montenegro tem de se preocupar com a governação, enquanto a “sombra” de Passos Coelho e sua liderança está sob ameaça constante.
Faz parte do jogo democrático, é certo. Contudo, o país precisa de um comandante focado em navegar este ambiente difícil. E Passos Coelho, por atos e omissões, não está a ajudar.
Domingos Moreira, Consultor Financeiro – Agente Vinculado













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