Antero Correia, Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Lousada apresentou a sua demissão no dia 19 de outubro e tornou-a pública hoje, enviando a carta às redações dos jornais.
Passamos a transcrever o documento apresentado ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Humanitária dos Bombeiros de Lousadados Bombeiros Voluntários de Lousada:
Venho, pela presente, apresentar a minha demissão do cargo de Presidente da Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada, com efeitos imediatos. Esta decisão não é tomada de ânimo leve. É, contudo, uma decisão ponderada,
que resulta de um conjunto de acontecimentos, atitudes e divergências que, no meu entendimento, tornaram insustentável a continuidade do exercício das minhas funções enquanto Presidente da Direção.
Considero que chegou o momento de ser frontal e de deixar absolutamente claras as razões que me levam a abandonar o cargo.
1. O ambiente criado após as comemorações do centenário
As mensagens transmitidas ao Corpo de Bombeiros por ocasião das comemorações do centenário da nossa instituição, longe de contribuir para a união, a estabilidade e o espírito de corpo que deveriam caracterizar uma ocasião tão importante, não foram pacificadoras. Pelo contrário, considero que os seus conteúdos e a forma como foram transmitidas acabaram por alimentar tensões e potenciar conflitos dentro da instituição.
As consequências estão à vista. O mal-estar instalado após as comemorações do centenário é notório e encontra-se de tal forma enraizado que tenho sérias dúvidas de que seja possível ultrapassá-lo sem uma mudança profunda de atitudes e de protagonistas.
Uma instituição com a história, a dimensão e a responsabilidade social dos Bombeiros Voluntários de Lousada não pode viver permanentemente condicionada por conflitos internos, disputas de protagonismo ou divergências que comprometem a sua estabilidade e o seu futuro.
O centenário deveria ter sido um momento de união, reconhecimento e projeção do futuro. Lamento profundamente que tenha acabado por constituir um fator de divisão e de agravamento das tensões existentes.
2. O abandono do objetivo prioritário de construir um novo quartel
Quando esta Direção assumiu funções, definiu objetivos e estabeleceu prioridades. Entre elas, uma se destacava pela sua importância estratégica e pela sua urgência: criar condições para a construção de um novo quartel, capaz de proporcionar aos nossos bombeiros instalações dignas, adequadas às exigências atuais e compatíveis com a missão que desempenham diariamente. Sempre entendi que esta deveria ser uma prioridade absoluta.
Não ignoro a importância das viaturas para o cumprimento da missão operacional dos bombeiros. O que não posso aceitar é que a aquisição de novas viaturas se sobreponha, sem uma avaliação rigorosa das prioridades, à necessidade urgente de resolver o problema das instalações.
Custa-me constatar que o objetivo estruturante de construir um novo quartel tenha sido relegado para segundo plano, enquanto ganham expressão outras prioridades que, no meu entendimento, não respondem à necessidade mais premente da instituição.
Não fui eleito para gerir aparências, alimentar vaidades ou privilegiar investimentos que proporcionem visibilidade imediata. Fui eleito para trabalhar pelo futuro da Associação, defender os seus interesses e criar condições para que os bombeiros possam exercer a sua missão com dignidade.
Não considero aceitável investir na imagem exterior da instituição enquanto persistem condições interiores que não correspondem às necessidades e à dignidade de quem nela serve.
3. A aquisição de viaturas e a utilização dos recursos financeiros
É com profunda preocupação que assisto ao que considero ser uma excessiva valorização da aquisição de novas viaturas, em detrimento da resolução de problemas estruturais que afetam diretamente as condições de permanência dos bombeiros no quartel.
Tenho a perceção de que, para alguns, a disponibilidade financeira existente constitui, por si só, uma oportunidade para avançar com novas aquisições, sem que seja dada a devida prioridade ao investimento nas instalações.
Não me revejo nesta forma de estabelecer prioridades. Os saldos bancários de uma associação humanitária não existem para serem gastos apenas porque estão disponíveis. Existem para garantir a sustentabilidade da instituição, responder às suas necessidades reais e permitir investimentos que produzam benefícios duradouros.
A aquisição de uma viatura pode ser necessária e plenamente justificada. Contudo, não pode transformar-se num objetivo em si mesmo, sobretudo quando os bombeiros continuam a passar noites em instalações que considero desadequadas às exigências e aos padrões de conforto e dignidade que devem ser assegurados nos dias de hoje.
Prefiro uma instituição com instalações dignas e condições humanas adequadas a uma instituição com viaturas novas à porta, mas incapaz de proporcionar aos seus bombeiros o conforto e as condições que
merecem.
Esta é uma questão de prioridades, de responsabilidade na gestão e, acima de tudo, de respeito por aqueles que asseguram diariamente a operacionalidade da nossa instituição. Não estou disponível para pactuar com aquilo que considero ser uma ânsia desmedida de consumir os recursos financeiros disponíveis em investimentos que proporcionam visibilidade imediata, enquanto se adiam soluções estruturais indispensáveis.
4. A rutura entre a Direção e o Comando
Há, porém, uma questão que considero ainda mais reveladora da situação a que chegámos. Quando, da parte do Comando, ouvimos a afirmação de que a Direção é eleita para angariar verbas para o Comando gastar, estamos perante uma conceção do funcionamento da instituição com a qual não posso concordar. A Direção não existe para funcionar como um mero instrumento de financiamento das decisões de terceiros. Tem responsabilidades próprias, competências estatutárias e o dever de definir orientações, estabelecer prioridades, gerir recursos e defender os interesses globais da Associação. O Comando tem uma missão operacional fundamental, que reconheço e respeito.
Mas a importância dessa missão não elimina a necessidade de articulação, respeito institucional e entendimento entre os órgãos responsáveis pela gestão da Associação e pela direção operacional do Corpo de Bombeiros.
Uma instituição desta natureza só pode funcionar de forma saudável quando Direção e Comando trabalham em conjunto, respeitando as competências de cada um e convergindo na defesa do interesse coletivo.
Quando essa convergência deixa de existir, quando as prioridades se afastam e quando o papel da Direção parece ser reduzido ao de angariar dinheiro para financiar decisões alheias, torna-se evidente que algo de essencial se perdeu.
A Direção não pode ser apenas a entidade que procura os meios financeiros, enquanto outros se reservam o direito de decidir como e onde esses meios devem ser gastos.
A gestão responsável exige diálogo, respeito pelas competências de cada órgão e uma visão comum sobre o futuro da instituição. Na ausência destas condições, a continuidade torna-se artificial e prejudicial.
5. A necessidade de uma rutura para pacificar a instituição
O mal-estar que atualmente se vive na Associação não pode ser ignorado nem desvalorizado. As divisões existentes, as divergências quanto às prioridades e a
deterioração do relacionamento institucional exigem uma resposta séria.
Entendo que a situação atingiu um ponto em que a simples permanência nos cargos, fingindo que nada se passa, apenas contribuirá para prolongar o conflito. Por vezes, é necessário reconhecer que a continuidade de determinadas pessoas nos seus cargos deixou de constituir uma solução e passou a ser parte do
problema.
É neste contexto que considero que a apresentação de demissões poderá representar uma oportunidade para restabelecer a tranquilidade, recuperar a confiança e devolver à Associação o espírito de união que nunca deveria ter
perdido.
Não apresento esta demissão por falta de vontade de trabalhar, por receio das dificuldades ou por desconhecimento das responsabilidades inerentes ao cargo. Apresento-a porque não aceito continuar a exercer funções sem condições para defender, de forma coerente e consequente, aquilo que considero ser o melhor para a instituição.
Se a minha saída contribuir para pacificar a Associação, restabelecer o entendimento entre os seus órgãos e devolver serenidade ao Corpo de Bombeiros, então assumo essa consequência como um último contributo para o bem da casa que servi.
E, perante a situação atual, considero preferível que a rutura aconteça do lado da Direção do que assistir à degradação continuada de uma instituição que deve estar acima de qualquer pessoa, cargo ou interesse individual.
6. Considerações finais
Ao longo do meu mandato, procurei orientar a minha atuação por uma convicção que considero inegociável: antes de pensar em aparências, equipamentos ou demonstrações de capacidade financeira, uma instituição humanitária deve garantir condições dignas àqueles que nela trabalham e servem voluntariamente a comunidade.
Continuo a acreditar que o futuro dos Bombeiros Voluntários de Lousada passa pela construção de um novo quartel, pela gestão criteriosa dos recursos financeiros, pela definição de prioridades coerentes e pela existência de uma relação de confiança e respeito entre a Direção e o Comando.
Não posso, porém, continuar a assumir a responsabilidade por uma orientação que considero afastar-se destas prioridades, nem permanecer num contexto em que as divergências existentes comprometem a capacidade de trabalhar em torno de um projeto comum.
Por estas razões, apresento formalmente a minha demissão do cargo de Presidente da Direção, com efeitos imediatos, solicitando a V. Ex.a que promova os procedimentos estatutários necessários à formalização desta decisão e à salvaguarda do regular funcionamento da Associação. Saio com a convicção de que a dignidade de uma instituição não se mede pelo número de viaturas estacionadas à sua porta, mas pela forma como cuida dos seus bombeiros, pela responsabilidade com que administra os seus recursos e pela capacidade de colocar o interesse coletivo acima de vaidades, protagonismos e interesses particulares.
Não me demito por deixar de acreditar nos Bombeiros Voluntários de Lousada. Demito-me precisamente porque continuo a acreditar naquilo que esta instituição deve ser e porque não estou disposto a abdicar dos princípios que, no meu entendimento, devem orientar o seu futuro.
Com os melhores cumprimentos,
Lousada, 19 de outubro de 2026
O Presidente da Direção
Antero Correia













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