Maria Emília de Freitas Dias Bessa Ferreira
Fez 60 anos no passado dia 28 de outubro que Maria Emília de Freitas Dias Bessa Ferreira se licenciou em Direito. Veio a exercer advocacia, tornando-se na primeira mulher de Lousada a desempenhar tal atividade. Nasceu a 2 de Abril de 1936, em Santa Margarida, Lousada, filha de António Armindo Dias de Magalhães e Conceição Ferreira de Freitas. Casou a 20 de Fevereiro de 1965 com José António Bessa Ferreira. Estudou no Colégio São José, em Bairros, Lagoas, e depois no Colégio Nossa Senhora da Bonança, Vila Nova de Gaia.

Inicialmente, frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde fez um ano de Histórico-filosóficas, mas descobriu a sua verdadeira vocação e foi para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde cursou Direito.
Na escola e no liceu, juntamente com as amigas, “pregava muitas partidas às freiras”. E dá exemplos disso: “no Colégio da Bonança, durante os intervalos, atirava galinhas para dentro das salas de aula de quem ainda estava a ter aulas. E durante as conferências, que tinham lugar no ginásio, empurrava vasos com terra e plantas das bancadas para o chão, com o intuito de fazer barulho e assustar todos os presentes”. Apesar daquela irreverência, foi boa aluna e sempre teve boas notas.

Da sua juventude recorda também que “começou a namorar com o Zé, que estudava com o Bernardo Lousada, que entretanto também tinha começado a namorar com a Lúcia. O Zé e o Bernardo iam ter connosco para lhes entregarem a roupa, que lavávamos, sempre às escondidas das freiras. A amizade prolongou-se para o resto da vida e o Zé e o Bernardo chegaram até a morar juntos em Coimbra”.
Em 1959, entrou no curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Coimbra. “Como não gostava muito de História e não se via a exercer alguma profissão que se enquadrasse nas saídas profissionais do curso, que eram essencialmente viradas para a carreira de professora ou investigadora, decidiu mudar de curso”.
Escolheu o curso de Direito, por gostar da aplicação das leis e da justiça e por ser um curso onde estava o namorado, que viria a ser seu marido. Concluiu a licenciatura 4 anos depois, em 1964.

“Namorar e passear no Penedo da Saudade com o Zé, as longas tardes e noitadas a estudar com os amigos Vasco e Tita, as leituras das cartas recebidas do ultramar, quando o Zé foi chamado para Angola (uma vez, o Zé mandou uma fotografia a mostrar que tinha deixado crescer o bigode). Quando recebi a fotografia, rasguei-a, coloquei num envelope e enviei de volta para Angola. O Zé percebeu a mensagem e nunca mais usou bigode”, relata Maria Emília.

Depois de se formar, “fiz estágio no escritório do advogado Dr. Fernando Aguiar Branco” e até aos dias de hoje mantém uma relação de muita amizade com a família daquele. Após a conclusão do estágio, foi trabalhar para o Banco Borges e Irmão, no serviço de contencioso. Foi no Banco Borges e Irmão, hoje BPI, que fez toda a sua carreira de advocacia, chegando ao cargo de Diretora do Contencioso.
Foi, também, no banco que o seu caminho profissional se cruzou com o da própria filha, Joana Bessa, também advogada. Sublinha com emoção que naquele local fez “amizades que ficaram para a vida, nomeadamente o Dr. Jorge Bastos e o Dr. Manuel Sousa Alves, sendo madrinha de um dos filhos deste, e com o qual revela que reacendeu a queda para a brincadeira, pregando partidas às pessoas que cruzavam a esquina da Rua de Santo António e da Rua Sá da Bandeira, no Porto, onde era a sede do Banco. “Íamos para a varanda e lançávamos bonitos embrulhos e ficávamos a ver as pessoas a encontrar as caixas e a pensar que tinham encontrado um tesouro ali no meio da rua, mas desiludiam-se por não haver nada dentro do embrulho”.
Apesar de “ter crescido profissionalmente e de se ter tornado diretora, o espírito brincalhão esteve sempre presente”, admite.
A tecnologia e a política
A evolução tecnológica passou-lhe “um pouco ao lado”. Recorda que “no gabinete de diretora, tinha mobília muito bonita e, com a evolução das tecnologias, surgiram os computadores que alteraram a decoração do local. Mandou-se fazer uma mesa à medida a condizer com o resto da mobília do escritório, de propósito para colocar o computador, o qual nunca quis utilizar e que era do encargo da secretária, Manuela Lello”.
Para além de Diretora do Contencioso, foi ainda Secretária da Administração, um posto para o qual foi escolhida pelos restantes membros da direção.
A advocacia e o direito convivem de perto com a política. Assim foi com o percurso de Maria Emília, mas prefere não desenvolver este tema da entrevista.
Deixou passar a idade da reforma e continuou a trabalhar até aos 68 anos, altura em que decidiu “abrandar e dedicar-me aos netos e ao cuidado e gestão do património que, em conjunto com o marido, fui adquirindo ao longo dos anos. Mas, com um marido advogado, uma filha advogada e uma neta jurista, nunca tive sequer a opção de se afastar do direito”.
Continua a cultivar “as amizades de Coimbra”, tendo contacto com alguns amigos e colegas ainda hoje. “De tempo a tempo organizamos reencontros de convívio para pôr a conversa em dia e matar saudades. Sempre que possível, marco presença nas reuniões de curso, e cheguei mesmo a organizar uma em Lousada, dando a conhecer aos antigos colegas de todo o país, o melhor que Lousada tem para oferecer, desde a gastronomia, à beleza das suas casas senhoriais”, salienta.
Algumas das amizades que ainda mantém são as amigas Lolita e Tita, com quem fala frequentemente.
Nunca conheceu outra advogada de Lousada. A filha, Joana Bessa, foi a única mulher que conhece que teve escritório de advocacia em Lousada. Lembra-se que, na altura em que se formou, destaca que “havia um advogado de Lousada que conheci, o Arnaldo Mesquita, da Aparecida”.

Hoje, com 88 anos, vive em pleno centro da vila de Lousada. Nunca está sozinha. Passa os dias ocupada com a filha, os netos, e os muitos sobrinhos e primos, e com os animais de estimação, que trata com muito carinho. Não dispensa as caminhadas matinais com a fisioterapeuta, essenciais para se manter ativa e saudável, e as torradas da Padaria Central, ao final da tarde, nem as idas ao cabeleireiro semanais. Sempre preocupada com a aparência, não sai de casa sem maquilhagem e, recentemente, descobriu que tem uma coleção de quase 50 conjuntos de saia-casaco diferentes. Gosta muito de passear, seja de carro ou a pé, e não consegue passar um dia sem sair de casa. Quando a chuva obriga a ficar em casa, procura distrair-se com longas conversas com as suas companhias. Está a aprender a fazer malha para no Natal oferecer uma mantinha ao seu neto preferido – o gato. O Direito continua presente, uma vez que procura sempre responder às muitas dúvidas jurídicas que lhe vão colocando.













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