por | 7 Dez, 2025 | Grandes Louzadenses

Nasceu em 1952 aquele que é considerado unanimemente como o melhor jogador lousadense da sua geração e um dos melhores de sempre. Filho de Maria Adelaide Fonseca Santos e de António Leite Santos Júnior, carrega uma alcunha que se tornou lendária na vila. “Severa” vem da antiga estalagem da família — um espaço que já foi residencial, restaurante, café, bar, e onde se cantava fado, na esquina da atual Avenida Humberto Delgado com a Rua Afonso Quintela.

A simpatia, o espírito solidário e o carácter trabalhador tornaram-no querido por todos, mas foi no futebol que ganhou a maior estima e consideração. Fez parte da equipa da Associação Desportiva de Rosada que, em 1970/71, alcançou pela primeira vez uma subida de divisão. Tinha 18 anos e já mostrava o talento que o marcaria para sempre.

Desde criança, o futebol preenchia-lhe os dias: nas ruas, no campo da feira, na escola — bastava haver uma bola e um grupo de amigos. O campo da Boavista, antigo recinto da A.D. Lousada, ficava a poucos passos de casa. Ainda sem muros, só com tábuas, ele e os amigos cavavam buracos por baixo da vedação do campo para entrar e jogar “peladinhas” intensas, onde ninguém queria perder.

Numa dessas aventuras, em pleno dia da Comunhão Solene, António Severa rasgou as calças do seu fato novo durante essa «peladinha». À tarde, durante a procissão, teve de usar um fato de frade franciscano que os pais mandaram vir de Penafiel — castigo que nunca esqueceu.

Trabalhador desde cedo, passou pela Estofex, na produção de mobiliário, e mais tarde ingressou na Fabinter, na indústria têxtil. Recorda que nesta firma estava António Gomes Ribeiro, figura maior da Associação Desportiva de Lousada, por quem guarda grande admiração.

Em 1973 cumpriu serviço militar no Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, como cabo miliciano. No ano seguinte foi destacado para Angola. Quando ocorreu o 25 de Abril, encontrava-se internado por ter partido a perna numa emboscada durante uma ação militar em Cabinda. Passou um ano no hospital, enquanto as notícias vindas de Luanda deixavam a família e a Vila em sobressalto. Recuperou e regressou a casa, recebendo uma receção calorosa. “Estava mais gente à minha espera na Avenida do que nalguns jogos da A.D. Lousada”, recorda com orgulho.

Regressou também ao futebol, praticando-o em qualquer contexto: solteiros contra casados, jogos informais ou torneios locais, mas sobretudo na Associação Deportiva de Lousada. Versátil, jogava em qualquer posição. Embora não fosse alto, destacava-se nos golos de cabeça devido à sua extraordinária impulsão. E sobressaía também pela liderança natural em campo e por ser um exímio batedor de livres, cantos e era implacável na marcação defensiva. Ganhou reputação de jogador completo.

Houve hipóteses para dar o salto para clubes maiores, mas as responsabilidades familiares, o trabalho e a época em que o futebol ainda pouco oferecia acabaram por mantê-lo em Lousada. Além disso, a gestão do bar da A. D. Lousada pelo pai tornou-o ainda mais indispensável à família.

Apesar de profundamente acarinhado pelo clube, viveu um episódio negativo. Na época de 1975, o treinador Raul Machado insultou-o e António respondeu. A discussão terminou mal: num momento de fúria, partiu a porta do balneário com um stick de hoquei em campo. Foi proibido de entrar nas instalações do clube. Mas por pouco tempo.

Pouco depois, António Severa ingressou no hóquei em campo da ADL. No primeiro jogo, surpreendeu todos com um remate impressionante. O adversário direto, um jogador do FC Porto, passou a marcá-lo individualmente. “Oh pá, larga-me! É a primeira vez que estou a jogar isto!”, disse-lhe, entre espanto e humor.

Os seus filhos, João e Hugo, seguiram-lhe as pisadas na modalidade. “Tenho muito orgulho nisso”, afirma. Ambos se tornaram atletas de topo, dos mais titulados do país. João era conhecido pela técnica apurada; Hugo, pela visão estratégica e pela capacidade de finalização.

Fuga épica para um jogo decisivo

Entre as muitas histórias marcantes da vida de António Severa, há uma que poucos conhecem e que merece lugar cativo na memória do futebol lousadense. O ano era 1973. Em janeiro, Severa cumpria serviço militar no Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha quando a ADL enfrentava um dos jogos mais decisivos da época: Lousada–Felgueiras, duelo que podia valer a liderança do campeonato.

Figura central da equipa, António Severa era visto como imprescindível. Polivalente como poucos, conseguia atuar em qualquer posição: defesa direito, central, esquerdo, médio, extremo ou ponta de lança. Marcava cantos, livres, organizava, orientava, lutava — e raramente alguém o superava em garra e entrega ao jogo.

A direção do Lousada sabia que, sem ele, o desafio seria muito mais difícil. Severa tratou então de pedir dispensa no Quartel. Estava escalado para serviço, mas pagou 20 escudos a um colega para o substituir. Faltava apenas a autorização do Sargento de turno — que nunca chegou. A situação complicava-se.

Entretanto, Joaquim Valinhas, dirigente ligado a António Magalhães (“Xabrega”) e a Manuel Faria, insistia que era urgente resolver o problema: o Lousada precisava do seu capitão. Ficou combinado que, às duas da manhã de domingo, Manuel Faria e Xabrega estariam à porta do quartel para o ir buscar. Na hora marcada, lá estava Severa. Mas a autorização continuava por despachar. Sem ver alternativa, tomou a decisão radical: saltou o muro e fugiu clandestinamente rumo a Lousada.

Chegou sem que a própria família soubesse. Quando, perto do meio-dia, Joaquim Valinhas apareceu na casa dos Severa para o levar a almoçar ao restaurante Roseirinhas, em Penafiel, o pai ainda acreditava que o filho continuava no quartel. “Não, não — ele está aí”, esclareceu Valinhas. E assim foi: almoço rápido e foco no jogo.

Às 15h, o campo da Boavista estava completamente cheio. O Felgueiras marcou primeiro. O Lousada empatou. Equilíbrio e muita luta. O relógio avançava e o empate era insuficiente para as ambições lousadenses.

Até que, na sequência de um canto, António Severa eleva-se como uma mola e marca de cabeça o golo da vitória. Explosão de alegria geral.

Mas a história não termina no campo. Na segunda-feira, chegou de madrugada de camionete, entrou no quartel e dirigiu-se para a formatura. Ouviu-se um oficial chamar: “221231!”. Era o seu número militar. Foi mandado ao gabinete do comandante. Inverno rigoroso, Janeiro frio. Severa entrou nervoso.

Meu comandante, dá-me licença…
Entre, António da Fonseca Santos. É esse o seu nome? Mas no futebol… qual é o seu apelido?
O comandante já sabia. E sabia mais do que Severa imaginava.

Houve jogo grande ontem em Lousada, não houve? Quem marcou o segundo golo? Foi o ‘Santos’ ou foi o… ‘Severa’?

A tensão era gigante. António suava, quase a desfaleceer. Até que o comandante deu a volta à secretária, aproximou-se, deu-lhe uma palmada nas costas e… estendeu-lhe a mão.

Eu estive lá. E gostei muito do que vi. És um grande jogador, Severa. Volta para a formatura.

Sem castigo. Sem processo disciplinar. Sem punição pela fuga. Só mais tarde Severa descobriu que o comandante Sarmento Pimentel era natural de Rande, concelho de Felgueiras, amigo do então presidente do clube felgueirense, conhecido como «Carvalho do Bacalhau».

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