Quando falo da “austrália”, falo sobretudo da Acacia melanoxylon, a nossa conhecida acácia-negra. Uma planta exótica, introduzida em Portugal, que hoje é classificada como invasora. Cresce depressa, ocupa espaço, domina encostas inteiras, é das primeiras a rebentar depois do fogo e rapidamente toma conta do território.

São espécies originárias da Austrália, introduzidas em Portugal há mais de um século, inicialmente com boas intenções: fixar dunas, estabilizar solos, produzir madeira e criar sombra. São leguminosas, têm a capacidade de fixar azoto no solo, crescem rapidamente em terrenos pobres e recuperam com grande vigor e em pouco tempo conseguem transformar uma paisagem.

Do ponto de vista biológico é uma espécie impressionante. Resistente, adaptável e muito competitiva. Um detalhe curioso e que poucos sabem é que aquilo que vemos como “folhas” na austrália, não são verdadeiras folhas. São filódios — estruturas que resultam de um caule modificado (pecíolo) e que assumem a função de fotossíntese. As folhas verdadeiras aparecem sobretudo na fase juvenil e na floração, no final do inverno e início da primavera. Enquanto muitas das nossas árvores autóctones ainda despertam da dormência, a austrália já floresce.

O nome “acácia-negra” surge do facto do cerne da sua madeira ser negra, o seu nome científico indica isso mesmo (melano =negro + xylon (xilema) = madeira), embora a sua casca também seja escura, quase sombria.

Em termos ecológicos, é uma espécie invasora. Compete com carvalhos, sobreiros e outras espécies nativas, que, deste modo, altera o equilíbrio do solo e reduz a biodiversidade onde se instala em massa. Cortada, reage com mais vigor e rebenta cinco a dez vezes mais. Por isso, um dos métodos mais eficazes de controlo é o descasque — interromper a circulação de seiva — porque simplesmente cortá-la pode agravar o problema.

Mas a história não é só esta.

Na vida das pessoas, a austrália foi — e ainda é — útil. A sua madeira, resistente, relativamente barata e fácil de trabalhar, foi usada na construção e no mobiliário. Em muitas aldeias, serviu para segurar terras de socalcos, delimitar leiras e dar sombra aos pátios. Na minha aldeia aconteceu exatamente isso.

Enquanto criança, era a minha matéria-prima preferida para construir cabanas no monte. Flexível, abundante, pronta a usar. Fazia jus à designação popular “pau-para-toda-a-obra”. As mães e as avós utilizavam-na como estacas na horta para sustentar feijões e ervilhas. Os seus tocos secos eram excelentes para acender a lareira ou o churrasco. Verde, produzia muito fumo — e houve quem a usasse para ajudar a fumar chouriços e presuntos. Até nas festas e celebrações populares, muitos arranjos “florais” tinham por base ramos de austrália.

E, sejamos honestos, também serviu para outro fim bem conhecido de muitas gerações: a famosa fustiga de austrália, usada como corretivo quando a asneira era grande demais.

Então, afinal, é bestial ou besta?

A resposta exige maturidade. Não se trata de demonizar a árvore nem de ignorar o seu impacto. Trata-se de a compreender. A austrália ensina-nos que as decisões humanas moldam paisagens durante décadas. E o que foi solução num tempo pode tornar-se problema noutro.

É aqui que a educação ambiental ganha verdadeira força. A acácia-negra ou austrália (nome que usamos na nossa região), é um excelente exemplo para explicar a diferença entre espécies autóctones e espécies exóticas invasoras. Permite falar de equilíbrio ecológico, gestão do território, prevenção de incêndios e responsabilidade coletiva. Permite ensinar que proteger a natureza não é apenas preservar o que gostamos — é gerir com conhecimento aquilo que herdámos.

Enquanto gestor do património, vejo na austrália uma lição viva. Uma planta que fez parte da nossa infância, do nosso trabalho, da nossa economia doméstica. Mas que hoje nos desafia a pensar mais longe.

Quando olhas para uma encosta cheia de austrálias, o que vês?
Memória? Utilidade? Problema?
Ou a oportunidade de aprender com o passado para cuidar melhor do futuro?

ERNESTO GONÇALVES
Gestor do Património | Técnico de Educação Ambiental

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